EUA: como funciona o motor das guerras globais

Foto: Unicef | Eyad El Baba

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16 Março 2024

Indústria armamentista norte-americana lucra com as guerras em Gaza e na Ucrânia e já atiça conflito em Taiwan. Cobiça tem um preço inesperado: quanto mais se arma, mais Washington vê erodidas sua posição no mundo e seu sistema político.

O artigo é de Antonio Martins, jornalista e editor do Outras Palavras, publicado pro Outras Palavras, 13-03-2024. 

Eis o artigo. 

Como Israel é capaz de sustentar, em Gaza, um massacre que provoca repulsa em todo o mundo? Por que Volodymyr Zelensky rejeita negociações e prolonga uma guerra em que sua derrota é cada vez mais certa? A quem serve insuflar, com provocações seguidas, um conflito entre a China e Taiwan? Um relatório divulgado neste fim de semana pelo Instituto de Pesquisa sobre a Paz de Estocolmo (Sipri, na sigla em inglês) ajuda a encontrar a resposta.

Quanto mais guerras, mais negócios… Nos últimos cinco anos, o complexo industrial-militar dos EUA consolidou e ampliou sua posição como motor da máquina de conflitos do mundo. Suas vendas de armamentos pesados cresceram 17% e já chegam a 107 países. Representam 42% de toda a exportação global de armas. Ucrânia e Israel destacam-se como destinos – mas cresce o papel da Ásia. Lá, Japão, Coreia do Sul e Austrália armam-se com volocidade, para fazer frente a um suposto conflito no Estreito de Formosa, cuja “probabilidade” a mídia norte-americana não se cansa de alardear. Os EUA não são os únicos responsáveis pela corrida às armas, mas seu papel é cada vez mais destacado. Exportam mais que os cinco países que se seguem, no ranking das vendas internacionais. E a OTAN, aliança liderada por eles, domina 68% dos negócios.

Quais as implicações desta supremacia? O cientista político Mathew George, direitor do Sipri, lembra que o poder de hegemonia dos EUA repousa, cada vez mais, nas armas. “Eles ampliaram este papel (…) em um momento em que seu domínio econômico e geopolítico é contestado por potências emergentes”. Mas dois artigos recentes do economista Jeffrey Sachs chamam atenção para algo ainda mais grave: a captura deste poder por corporações norte-americanas isentas de responsabilidade política e fortemente empenhadas em ampliar seus ganhos.

A “Defesa” foi privatizada, diz Sachs num dos textos. O poder militar de Washington deixou em grande medida de servir aos próprios interesses estratégicos do país, para atender a fornecedores de armas (como Boeing, Lockheed, General Dynamisc, Northorpe e Raytheaon) e empresas de contratação de mercenários (Haliburton, Booz Allen e CACI), diz Sachs. As guerras dos últimos cinco anos custram aos contribuintes norte-americanos 5 trilhões de dólares, ou US$ 40 mil (R$ 200 mil) por família.

Os resultados foram desastrosos, política e militarmente. Derrota no Afeganistão. Consolidação de Bashar al-Assad na Síria. Destruição do Estado líbio, sem ganho para Washington. Fracasso quase certo na Ucrânia. Hordas de refugiados buscando a Europa. E, após o apoio ao massacre de Gaza, isolamento inédito dos próprios EUA, derrotados seguidamente na Assembleia Geral e no Conselho de Segurança da ONU; obrigados a exercer um poder de veto que os desgasta crescentemente.

Por que estes fracassos retumbantes não levam Washington a mudar de rumos? Sachs aponta, no segundo texto para o declínio e disfuncionalidade da política norte-americana, carcomida pelo poder econômico das mega-corporações. Os lobbies agigantaram-se tanto, diz ele, que já controlam diretamente as estruturas centrais do poder de Estado. A Big Pharma comanda o departamento de [ministério da] Saúde. As extratoras de combustíveis fósseis mandam na Energia. Wall Street detém o Tesouro. E as gigantes militares dominam o Pentágono, o Departamento de Estado, a CIA e os comitês de Forças Armadas da Câmara e do Senado.

Esta direção é exercida, prossegue Sachs, por meio de um punhado de políticos, que dominam o tema há muitos anos no Congresso, e cujo papel nunca é questionado – por maiores que sejam seus insucesos. Entre eles estão o próprio Biden, Jake Sullivan, Chuck Shumer, Mitch McConnell, Hillary Clinton e Victoria Nuland – que há poucos dias renunciou.

É a força deste lobby por fim, conclui Sachs, que sabota o Partido Democrata, ao bloquear qualquer candidatura à Casa Branca que não seja a do próprio Joe Biden – apesar de sua elevadíssima impopularidade e da rejeição que seu apoio ao massacre de Gaza provoca. No fundo, para o lobby, uma eventual vitória de Trump é mais favorável que a de um democrata à esquerda.

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