A preguiça da Igreja. Artigo de Enzo Bianchi

Papa Francisco. (Foto: Reprodução | Vatican Media)

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23 Mai 2023

 "São tantos os gestos que Francisco pode fazer e que seriam bem recebidos pelas igrejas. Um papado que faz isso não pode deixar espaço, como aconteceu no passado, para a ambiguidade de tramas políticas e eclesiais".

O artigo é de Enzo Bianchi, fundador da Comunidade de Bose, publicado por La Repubblica, 22-05-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Para o papado - o ministério do sucessor de Pedro para toda a igreja que precisa se expressar especialmente em um serviço de comunhão - esta é uma hora de graça, uma grande oportunidade.

Da qual, no entanto, pelo menos em minha opinião, parece não haver suficiente consciência. Pergunto-me se não falta a fé na raiz, sim, aquela fé que é a única que pode autorizar tal tarefa e dar toda a força e esperança para a concretizar. Na igreja há demasiada preguiça, demasiado autocomprazimento por ser o que é, e não arde aquele fogo que pede coragem, profecia, que pede para combater e vencer todo temor confiando no Evangelho. O Papa Francisco está dando passos que se colocam em uma certa direção, a serviço e não para a mortificação das igrejas cristãs, mas muitos são os obstáculos que permanecem para chegar a um consenso, para aderir à convicção de que a meta absoluta da evangelização só pode ser a unidade visível na história.

Hoje, muitas igrejas não católicas assumiram uma atitude de expectativa em relação a Roma, a ponto de desejar que surja um ministério de comunhão para todas as confissões, e sentiram a necessidade do carisma católico para resistir a toda tentação de nacionalismo da fé, com a consequente mistura explosiva entre religião e nacionalismo. No entanto, eles não querem uma igreja irmã mais velha que domine as outras, mas um ministério a serviço de todas.

O Papa Francisco, como muitos testemunham, nesta hora de guerra pela agressão russa na Ucrânia interveio mais de duzentas vezes pedindo caminhos de paz. E até agora sem resultados. Foi uma ação de chefe de Estado apreciável em nível político e diplomático, mas o que é urgente é que como chefe da Igreja realize um trabalho paralelo de comunhão, de reconciliação entre as Igrejas. Todos notamos que sua política não é neutralidade ética, não é estratégia política ou tática entre os grandes, assim como não deveria ser neutra, mas deveria atuar um juízo e mover-se apenas com a profecia. Claro, isso é difícil na rede diplomática, mas é possível como ação entre as igrejas.

O patriarca sérvio, o patriarca copta de Alexandria no Egito, o patriarca ecumênico de Constantinopla, o patriarca ortodoxo de Antioquia me disseram e me escreveram que o que esperam é acima de tudo aquela ação pela paz entre as igrejas hoje e neste conflito russo-ucraniano. Nos últimos dias, pela primeira vez na história dos cristãos não católicos, os coptas martirizados pelo ISIS foram acolhidos na Igreja Católica como santos, sem tentativas de anexação, mas por fraternidade solidária.

São tantos os gestos que Francisco pode fazer e que seriam bem recebidos pelas igrejas. Um papado que faz isso não pode deixar espaço, como aconteceu no passado, para a ambiguidade de tramas políticas e eclesiais: sem a preensão de influenciar os poderosos deste mundo, não se mantém neutro diante do mal, mas ousa lançar palavras proféticas do Evangelho, palavras sempre de reconciliação.

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