Mahsa inflama o Irã

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22 Setembro 2022

 

Quatro dias de desordens e cinco mortes. Há também uma menina de 10 anos, gravemente ferida nos confrontos, que luta entre a vida e a morte na cidade de Bukan. Sua foto viralizou. O protesto pela morte de Mahsa Amini está se espalhando, tanto quanto possível em um país sob uma firme ditadura teocrática. As imagens vindas de Teerã e de outras grandes cidades do país mostram mulheres pulando nos tetos dos carros, agitando o véu, queimando o odiada jihad, o símbolo da sujeição à lei islâmica e aos homens que impuseram a obrigação do véu após a revolução islâmica de 1979. A polícia abriu fogo contra todos: homens, mulheres e crianças.

 

A reportagem é de Caterina Soffici, publicada por La Stampa, 21-09-2022. A tradução é de Luisa Rabolini

 

Mahsa Amini, 22, havia sido presa na terça-feira da semana passada pela "polícia moral" por não usar véu de acordo com os ditames da lei islâmica. Ela morreu depois de três dias em coma, por causa do espancamento dos agentes. As autoridades negam, foi um "ataque cardíaco", dizem. Mas desta vez a mentira não se sustentou, a situação parece ter saído do controle. Há momentos na história em que uma mecha de cabelo pode fazer a diferença. Na Turquia, na praça Maidan de Istambul, foi o corte de algumas árvores em um jardim ressecado que deu início à grande revolta contra o regime de Erdogan. As primaveras árabes que levaram às revoltas no Oriente Médio começaram com o gesto de um homem que atou fogo em si mesmo, para denunciar os maus-tratos das forças policiais. No Irã, a morte de Mahsa está inflamando o país e especialmente a região do Curdistão, no noroeste, de onde a jovem era originária.

 

Apesar do abafamento midiático do regime, vazaram notícias dos canais sociais dos ativistas e, em particular, da ONG curda Hengaw Organization for Human Rights, com sede na Noruega. Pelo menos 75 pessoas ficaram feridas em confrontos com as forças de segurança e outras 250 foram presas. O governador do Curdistão admitiu que houve 3 mortes e a ONU interveio sobre o caso, denunciando "a repressão violenta" contra os manifestantes.

 

A alta comissária Nada Al-Nashif expressou preocupação com a morte de Mahsa: “A trágica morte da jovem e as alegações de tortura e maus-tratos devem ser investigadas de forma rápida, imparcial e eficaz por uma autoridade independente, garantindo que sua família tenha acesso à justiça". Segundo a porta-voz do Gabinete do Alto Comissariado da ONU, em várias cidades do país, incluindo Teerã, a polícia "disparou munição real" e usou gás lacrimogêneo.

 

Agora no olho do furacão está a polícia moral, com suas patrulhas, chamadas de "patrulhas da morte", que circulam pelas ruas em busca de "criminosas", ou seja, mulheres que infringem a lei religiosa. A polícia moral, entre outras coisas, tem a tarefa de garantir que as mulheres cumpram a interpretação da autoridade sobre a vestimenta "correta". Assim, as patrulhas têm o poder de parar as mulheres e avaliar se estão mostrando muito cabelo, se suas calças e túnicas são demasiado curtas ou apertadas, ou se usam muita maquiagem. Quem descumprir as regras pode ser multado, preso e também está previsto açoitamento.

 

Os relatos das ativistas que há anos se rebelam contra essas regras e reivindicam a liberdade de sair à rua sem ter que esconder seus corpos, falam de violência de todos os tipos. Foram presas, jogadas na cadeia, estupradas e maltratadas. Às vezes as coisas acabam ainda pior, como no caso de Masha. Há testemunhos que falam de golpes de cassetete na cabeça. Ela foi presa enquanto andava na rua em Teerã com seu irmão. Os agentes da moral a detiveram e a levaram para um centro chamado de "reeducação", um local onde as mulheres são levadas para receber uma orientação correta e educação sobre como se vestir na rua.

 

 

Em 2014, mulheres iranianas começaram a compartilhar fotos e vídeos de si mesmas violando publicamente as leis sobre o hijab como parte de uma campanha de protesto online chamada "My Stealthy Freedom". A primeira a compartilhar seu "momento secreto de liberdade" online foi Masih Alinejad, refugiada nos Estados Unidos, ameaçada de morte e caçada por agentes do regime que querem "destroçá-la" (textual). Ela havia postado nas redes sociais uma foto de uma mulher dirigindo em uma estrada de montanha, desfrutando da simples liberdade de sentir o vento em seus cabelos (que mais tarde se tornou o título de seu livro). Desde então, o protesto de Masih inspirou outros movimentos, incluindo o "White Wednesdays" e "Girls of Revolution Street".

 

Essas mulheres lutaram com os instrumentos disponíveis, na maioria dos casos nada mais do que um telefone celular e uma conexão com a internet. Nos últimos dias elas cortaram mechas de cabelo com uma tesoura e postaram os vídeos nas redes sociais. Tiraram seus véus e o queimaram publicamente. Pelo que se vê nos poucos vídeos que furam a rede e a censura, ainda estão fazendo isso.

 

 

As centenas de manifestantes que saíram às ruas sabem que estão arriscando suas vidas, mas estão protestando para pedir a abolição da polícia moral e até alguns parlamentares criticaram a instituição, solicitando sua revisão ou mesmo a abolição. Até mesmo o Presidente do Parlamento Mohammad Bagher Ghalibaf pediu que a conduta dessa unidade policial seja objeto de uma investigação: "Os métodos utilizados por essas patrulhas devem ser revistos", disse ele e o Guardian informa que o chefe da polícia moral de Teerã, o coronel Ahmed Mirzaei, teria sido destituído do cargo após os protestos. As autoridades iranianas negam.

 

Será que uma mecha de cabelo poderá ser o motor da mudança desta vez? Até pode ser. Além disso, enquanto o caso agita a opinião pública internacional, o presidente iraniano Ebrahim Raisi está em Nova York para discursar pela primeira vez na assembleia geral da ONU. No lugar errado no momento errado. Ou talvez no lugar certo no momento certo, visto que grupos de manifestantes pelos direitos humanos em Nova York estão protestando contra sua presença e iniciando medidas legais contra o Irã.

 

"Quantas outras pessoas mais no Irã terão que morrer antes que o mundo acorde?" tuitam os manifestantes, transmitindo um vídeo de uma mulher no chão, atingida pela polícia. "Eles têm armas e balas, mas nós temos uns aos outros, somos mais fortes que suas armas". 

 

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