80º aniversário de Edith Stein. Celebração eucarística de card. M Czerny (Auschwitz / Oświęcim). Trechos da homilia

Edith Stein (Foto: Wikimedia Commons)

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10 Agosto 2022

 

A cada 10 anos o aniversário é celebrado de forma solene: em 2012, pelo 70º aniversário, participou o Cardeal Joachim Meisner, Arcebispo de Colônia. Trechos da homilia do Card. M. Czerny.

 

O texto é publicado por Dicastério para a Promoção do Desenvolvimento Humano Integral, 09-08-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o texto.

 

Para perscrutar o passado, para melhor compreender o presente e empenharmo-nos com o futuro, é preciso iluminá-lo com a Palavra de Deus, lâmpada para os nossos passos e luz para o nosso caminho (Sl 118). O Evangelho de Mateus que acabamos de ouvir apresenta-nos uma das três parábolas que Jesus proclama ao sair do Templo, sentado diante do Monte das Oliveiras (cf. Mt 24, 3), com a intenção de ensinar a seus discípulos sobre a importância de vigiar os sinais que acompanham a vinda do Senhor.

 

Não é por acaso que Jesus está sentado na direção da “Porta Formosa” (Atos 3, 1-10), que é a entrada por onde passavam aqueles que vinham do Monte das Oliveiras no lado oriental da esplanada do Templo. Segundo uma tradição judaica, baseada em textos proféticos (cf. Ez 10,18s; 11,22s), quando o Templo foi destruído, a Shekhinah (שכינה a "presença divina") abandonou o Sancta Sanctorum. Um dia, quando o templo for reconstruído, a Shekhinah retornará pela Porta Formosa, porque o Messias virá do Oriente. Atravessando aquela mesma porta (cf. Mc 11, 1-11), o próprio Jesus teria feito a sua entrada triunfal, profética e messiânica em Jerusalém.

 

Em Edith Stein temos um exemplo de como uma vida vivida no amor pode ser um caminho de abertura, de lenta transfiguração no Filho feito homem. À sua peregrinação de mulher, de filósofa, pedagoga, contemplativa e santa, podemos aplicar a bela expressão da Veritatis Splendor: "O esplendor da verdade brilha no íntimo do espírito humano" (VS 2). De fato, a busca da verdade marcou toda a existência de Edith e mesmo nos anos em que se declarava “ateia”, indiferente às questões de fé, sua delicada consciência moral e honestidade intelectual a levaram a rejeitar o relativismo e o subjetivismo.

 

Seu “primeiro encontro com a cruz”, como ela mais tarde gostaria de defini-lo, aconteceu em 1917, na casa de sua amiga Anne Reinach, que havia enviuvado recentemente. Apesar da dor da perda, Anne conta a Edith sobre sua conversão e a de seu falecido marido, sobre a paz e a consolação que, desde o dia do batismo, recebeu por viver em comunhão com Cristo.

 

Edith fica impressionada com a serenidade que a mulher mantém mesmo na tragédia: nenhuma força humana poderia justificar e explicar tamanha paz. Sem saber, a viúva Reinach abriu uma brecha à luz da fé na alma de Edith, como ela mesma escreveu em seu diário: “Foi o momento em que brilhou a luz de Cristo, Cristo na cruz”.

 

Uma vez convertida ao catolicismo, Edith é cada vez mais atraída pelo carisma da Ordem Carmelita, verdadeiro jardim da vida cristã (a palavra karmel de fato significa "jardim"), todo voltado para a devoção à Virgem Maria e a contemplação do amor esponsal por Deus Em 21 de abril de 1938 profere a profissão perpétua no convento de Colônia, escolhendo o nome religioso de Irmã Teresa Bendita da Cruz.

 

Enquanto isso, na Alemanha nazista, as perseguições aos judeus já estavam se espalhando. Assinalada nos registros da famigerada Gestapo, a polícia de Hitler como "não-ariana", a irmã Teresa Bendita da Cruz expõe toda a comunidade do Carmelo de Colônia ao perigo. Suas superioras então decidiram fazê-la expatriar para a Holanda, para que ela pudesse se refugiar no convento de Echt. A Irmã Teresa deixa a Alemanha às pressas na noite de 31 de dezembro de 1938, mas primeiro para por alguns minutos na igreja de "Maria da Paz", para se ajoelhar aos pés da Virgem e pedir sua proteção materna.

 

1942 marca o início das deportações em massa para o leste. Nem mesmo a Holanda estava mais segura. Em 20 de julho de 1942, a Conferência Episcopal Holandesa emitiu uma declaração em cada paróquia na qual são denunciadas todas as práticas racistas e antissemitas. A reação de Hitler não tarda a chegar. Alguns dias depois, em 26 de julho, ordena que todos os judeus que se converteram ao catolicismo sejam presos.

 

Na tarde de 2 de agosto, dois agentes da Gestapo batem na porta do Carmelo de Echt para levar a Irmã Teresa Bendita, junto com sua irmã Rosa. Levadas ao campo de triagem de Westerbork, no norte da Holanda, em 7 de agosto elas foram deportadas junto com muitos outros para o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau.

 

No dia 9 de agosto, Irmã Teresa Bendita da Cruz atravessa a porta da câmara de gás onde encontrará sua morte. Depois de cruzar a soleira, ela se encontra face a face com o Esposo, selando assim o pacto nupcial com Cristo crucificado, para a qual ela se preparara como virgem sábia, preservando o óleo do amor a Deus.

 

Recordando Edith e Anna com os outros seis milhões de vítimas, choramos e nos arrependemos: "Para não esquecer ...". Por sua intercessão, rezamos pela paz na Ucrânia e no mundo: "Não uns contra os outros, não mais, nunca mais... não mais a guerra, não mais a guerra". Que aqueles cujas histórias pessoais e familiares são judaicas e cristãs possam contribuam para o diálogo necessário entre as nossas fés para vivermos como irmãos em nossa casa comum.

 

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