A guerra e a lógica do inimigo

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03 Junho 2022

 

"A democracia é vítima da guerra também como projeto de transformação social: na medida em que o conflito social é negado e distraído e na medida em que o envio de armas, assim como o aumento dos gastos militares, subtraem recursos dos direitos sociais", escreve Alessandra Algostino, em artigo publicado por Il Manifesto, 02-06-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Passados mais de três meses desde o início da guerra na Ucrânia, as tênues brechas de uma solução diplomática mal conseguem arranhar um clima bélico que agrava as relações geopolíticas e militariza a democracia, enquanto a contínua exposição midiática da violência e do sofrimento as normaliza tragicamente, anestesiando o sentimento de indignação e solidariedade humana, aliás já enfraquecido pelo "costume" com o genocídio dos migrantes e pela autorreferencialidade do modelo do homo oeconomicus.

 

O discurso público e a democracia estão sujeitos a um governo dos absolutos: Bem ou Mal, amigo ou inimigo, numa espiral de extremismo que pressiona até inserir no horizonte do possível um suicida holocausto nuclear e uma devastadora terceira guerra mundial, enquanto avança incontestada a catástrofe ambiental, contradizendo também a hobbesiana busca da paz no horizonte da sobrevivência.

 

Quem paga a conta são o pluralismo, que tende a romper dualismos artificialmente simplificadores, restituindo a complexidade das dinâmicas sociais e políticas, e qualquer conflito que não seja traduzido em patriotismo atlantista, que é expulso e ocultado. Também está sendo revirado o sentido do limite, que constitui a essência do constitucionalismo, com a previsão de vínculos, divisões e equilíbrios; com a proclamação de direitos e deveres; com o reconhecimento da emancipação, pessoal e social, que restringe a liberdade entendida como "privada" e absoluta; com o repúdio à guerra como expressão da vontade de evitar uma competitividade que se exprime na forma extrema da violência. O que é investido pela lógica da guerra, em uma palavra, é a democracia, a nossa democracia: pluralista, conflitual e social.

 

O Parlamento, deve ser dito, prontamente alistado, com uma autocontenção contrária ao seu papel, reduz a sua intervenção à atribuição de procurações em branco ao Governo e conforma-se a ouvir mudo as informações.

 

A propaganda bélica expulsa, acusando-as de traição, derrotismo, pró-Putinismo, as opiniões não alinhadas, agudizando e dotando-o de uma aura ético-heroica, um movimento homogeneizador já em curso há algum tempo e centrado no pensamento único da racionalidade neoliberalista (que tem acompanhado, aliás, a progressiva convergência das forças políticas). São sufocadas e marginalizadas as tentativas de análise e mobilização não achatadas na polarização "Rússia criminosa" e "Ucrânia heroica", as interpretações caracterizadas pela complexidade.

 

A primeira a cair é a liberdade - efetiva - de manifestação do pensamento, em seu ser liberdade de crítica, protesto e dissenso; como Gramsci escreveu: os “discordantes" estão dispostos "em uma pulverulência individual e desorgânica" e uma só força, controlando os "órgãos da opinião pública: jornais, partidos, parlamento", modela a "opinião e, portanto, a vontade política nacional".

 

O horizonte da guerra em seu ser extremo, nos heroísmos e na violência, mobiliza e ao mesmo tempo narcotiza as consciências.

 

A figura do inimigo compacta e desvia a atenção das desigualdades e desastres ambientais, arregimenta os cidadãos numa guerra, numa visão do mundo, em que na realidade são súditos: não se trata de sua emancipação, mas a competição pela dominação de outros.

 

E inimigo após inimigo - migrantes, no vax, dissidentes, pacifistas – aprofunda-se o sulco da criminalização e a repressão do dissenso e a democracia desliza para o oximoro da "democracia sem conflito". O inimigo deve ser apagado, é desumano - aquela desumanização vivida pelos migrantes - não é talvez a mesma lógica que foi aplicada ao conflito social, ao qual se quer negar até o reconhecimento da própria existência?

 

A democracia, portanto, é vítima da guerra também como projeto de transformação social: na medida em que o conflito social é negado e distraído e na medida em que o envio de armas, assim como o aumento dos gastos militares, subtraem recursos dos direitos sociais.

 

Não só. A democracia social, emancipadora, é também um projeto de transformação social: projeta-se para o futuro. O domínio de uma propaganda bélica alastrada tem repercussões no passado, no presente e no futuro.

 

Nas palavras de Debord: "A primeira intenção do domínio espetacular era fazer desaparecer o conhecimento histórico em geral"; "com a destruição da história, o próprio acontecimento contemporâneo se afasta imediatamente para uma distância fabulosa, entre suas narrativas não verificáveis...".

 

Com o "fim da história", a crítica e a perspectiva de mudança desaparecem. O controle sobre o presente, pela perda da dimensão histórica e da complexidade, hipoteca a transformação do futuro.

 

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