O grito do Papa deve ser amplificado: “Não à guerra, é uma loucura. Parem!”. Artigo de Antonio Spadaro

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18 Março 2022

 

Pela primeira vez desde 1850, “La Civiltà Cattolica”, uma histórica revista jesuíta, coloca em segundo plano seu cabeçalho para dar lugar ao apelo lançado por Francisco: “Parem!” O diretor Spadaro explica os motivos da escolha. A escalada poderia levar a humanidade a um beco sem saída.

 

O comentário é do jesuíta italiano Antonio Spadaro, diretor da revista La Civiltà Cattolica, em artigo publicado por Avvenire, 17-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Pela primeira vez desde 1850, La Civiltà Cattolica coloca seu cabeçalho em segundo plano. Decidimos abrir espaço para o apelo do Papa Francisco: Parem!

 

De fato, depois do Angelus de domingo, 6 de março, ele exclamou diante da invasão da Ucrânia pela Rússia: “A guerra é uma loucura! Parem por favor! Olhem essa crueldade!".

 

No Angelus de 13 de março, o Pontífice acrescentou: "Não há razões estratégicas que se mantenham: só resta cessar a inaceitável agressão armada, antes que reduza as cidades a cemitérios". E no final lançou o apelo: "Em nome de Deus, peço-vos: parem esse massacre!".

 

La Civiltà Cattolica relançou o apelo em todas as mídias sociais da revista com a hashtag #Fermatevi, especialmente no Twitter, Facebook e Instagram. Agradecemos a quem a difundiu, juntando-se a nós e assim reforçando a mensagem: Sagrado Convento de Assis, Centro Astalli, Avvenire, RaiNews, a associação de jornalistas Articolo 21, e muitas outras realidades. Hoje, nove anos depois de sua eleição, entendemos perfeitamente como é acertada a definição cunhada pelo Pontífice de 'Terceira Guerra Mundial em pedaços': uma guerra progressiva, envolvendo outros cenários sangrentos como Iêmen, Síria, Etiópia, e que parece imparável.

 

O apelo de Francisco é às consciências diante de um conflito que não poupa ninguém, nem mesmo as crianças. E devemos parar porque a escalada pode levar a humanidade a um beco sem saída do qual será difícil sair. Quanto mais cruel for a guerra, quanto mais o rio de lágrimas e sangue estiver cheio, mais tortuoso será o percurso de uma possível reconciliação. E ao fundo, pela primeira vez desde a crise cubana de 1962, aparece o espectro da ameaça atômica. Daí a nossa escolha de gritar da nossa capa e nas redes sociais: Parem! Também nos impressionou o fato de Francisco ter feito referência explícita à Constituição italiana para dizer que aqueles que amam a paz “repudiam a guerra como instrumento de ofensa à liberdade de outros povos e como meio de resolução das controvérsias internacionais’ (artigo 11). Como cidadãos e como crentes, juntamo-nos ao seu apelo e o relançamos na esperança de contribuir a silenciar as armas. Parem!

 

O Papa Francisco se encontrou três vezes com o presidente russo Putin (2013, 2015 e 2019), uma vez com o presidente ucraniano Poroshenko (2015) e uma vez com seu sucessor, o presidente Zelensky (2020).

 

Em 2015, Francisco conversou com Putin sobre a situação da Ucrânia, afirmando "que é preciso empenhar-se com um grande e sincero esforço para alcançar a paz". Com ele, "concordou sobre a importância de restabelecer um clima de diálogo e que todas as partes se empenhem a implementar os acordos de Minsk". E em 2020 as conversações com Zelensky foram dedicadas – lê-se num comunicado da época – “à procura da paz no contexto do conflito que, desde 2014, ainda aflige a Ucrânia”. Neste sentido, foi partilhada a esperança de que "todas as partes envolvidas demonstrem a máxima sensibilidade para com as necessidades da população, primeira vítima da violência, bem como empenho e coerência no diálogo".

 

O Pontífice indica hoje o caminho: "É preciso focar real e decididamente nas negociações, e que os corredores humanitários sejam efetivos e seguros". Repetir o apelo “Parem!” - ainda que em uma capa - parece-nos, portanto, ajudar a colocar-nos bem no pedido de paz. A diplomacia do Vaticano olha para o momento presente, mas também para o futuro próximo. Nesse sentido fica clara a condenação, mas pretende tecer e costurar, não cortar. Não ataca líderes religiosos ou políticos, para que possa permanecer de ajuda. Em vez disso, apela à resolução de conflitos e condena ações e escolhas políticas ou estratégicas malignas.

 

Em geral, sempre trabalha pela reconciliação e por uma estabilidade que se mantém ao longo do tempo: acompanha os processos para que permaneça um espaço para a reconciliação, que atualmente parece cada vez mais distante, infelizmente, pelo menos para a geração atual. Por isso o Papa fala claramente, dizendo que não se trata de uma "operação militar" - como Putin gostaria que se dissesse -, mas de uma verdadeira "guerra", uma "agressão armada inaceitável", fruto de uma miopia estratégica.

 

Mas, por outro lado, pede que se foque 'verdadeira e decisivamente na negociação' entre as partes, colocando-se à disposição se necessário. A alternativa à negociação parece uma violência sem fim. Para estes, repetimos o apelo de Francisco: Parem! E o Pontífice insiste no fato que é a pobre gente que paga, como sempre. Depois do Angelus de 27 de fevereiro, disse: “Quem faz a guerra esquece a humanidade. Não começa pelas pessoas, não olha para a vida concreta das pessoas, mas põe diante de tudo interesses particulares e de poder”.

 

Por isso, “se distancia das pessoas comuns, que querem a paz; e que em cada conflito é a verdadeira vítima, que paga com a própria pele as loucuras da guerra. Penso nos idosos, naqueles que nestas horas buscam abrigo nas mães em fuga com seus filhos...”. E é isso que muitos jornalistas nos mostram e que – disse o próprio Francisco – “para garantir a informação colocam suas vidas em risco, permitindo-nos estar próximos do drama daquela população”.

 

Diante dessas imagens podemos gritar da nossa capa e nas redes sociais Parem!

 

Claro que, diante do horror da invasão, é natural mergulhar nas estratégias militares e políticas.

 

Atribuímos culpas e elogios, pesamos causas e justificativas e dividimos o mundo em amigos e inimigos. Hoje, porém, também somos chamados a meditar sobre o fato de que o que destrói tanto os amigos como os inimigos é a guerra. Precisamos nos concentrar na dor e cuidar com compaixão de todas as pessoas cujas vidas estão e serão devastadas. Devemos abraçar a dor dos ucranianos que perderam suas vidas e suas casas, as pessoas deslocadas que enfrentam a separação de sua nação, de sua língua, de tudo o que faz de uma nação um lar.

 

E devemos sentir a dor das famílias russas, vítimas de uma guerra que também as dividiu internamente entre irmãos, ou entre maridos e mulheres, separando amigos, expondo-os a uma grave crise e ao ressentimento. Sentimos a dor de quem é enviado ao ataque e de quem é preso por dizer não à agressão bélica, que em si é um crime contra a humanidade. A dor desta guerra de invasão também inclui os efeitos da raiva no coração humano: a incapacidade de reconhecer a humanidade das pessoas reunidas sob uma bandeira diferente. Por isso, é hora de gritar com o Papa Francisco, o melhor que pudermos, Parem!

 

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