Haiti. uma situação “apavorante”. Violências, execuções e estupros no estilo do ISIS

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25 Outubro 2021

 

O testemunho da Irmã Franciscana Marcella Catozza, da Ilha do Caribe. Dezenas de sequestros todos os dias: se a família não pagar o resgate, as pessoas são executadas no meio da rua. Filmes e vídeos na internet são fonte de inspiração para gangues criminosas, que deixam crescer a barba e se proclamam um "califado haitiano" sem nem mesmo saber o que isso significa. O funeral na igreja de um membro de uma gangue: "último momento da verdade" em sua vida.

A reportagem é de Dario Salvi, publicada por Mondo e Missione, 24-10-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

Uma situação “apavorante” em que todos os dias “acontecem dezenas de sequestros: só no último fim de semana” entre 15 e 17 de outubro as gangues armadas “levaram 150 pessoas da rua. E na segunda-feira seguinte executaram os que não tiveram o resgate pago por suas famílias”. O que está acontecendo é "impressionante". É um relato dramático que emerge do testemunho confiado a Mondo e Missione pela irmã Marcella Catozza, uma franciscana de Busto Arsizio (província de Varese) há anos em missão ao Haiti, onde voltou recentemente para ajudar uma população totalmente desamparada.

“Muitos foram executados bem ao lado de nossa casa”, lembra a religiosa, porque “aqui se localiza o quartel-general deste imaginário 'Exército de Libertação'. Na realidade - continua - são os mesmos bandidos de sempre, até agora inimigos, que se juntaram em um novo movimento para criar o chamado 'Califado haitiano’, embora nem mesmo saibam o que isso significa”. Os milicianos, explica irmã Marcella, “veem os vídeos na internet e copiam as mesmas dinâmicas dos Talibãs ou do Estado Islâmico (antigo ISIS): deixam crescer a barba, executam com tiros na cabeça ou decapitações, relançam uma visão e dinâmicas que remetem ao fundamentalismo islâmico”. Entre os sequestrados há também 17 missionários cristãos dos Estados Unidos, para cada um dos quais foi exigido um resgate de um milhão de dólares pelo líder da gangue 400 Mawozo. Em caso de não pagamento, também serão executados.

A religiosa italiana está trancada há um mês dentro do Kay Pè Giuss, abrigo que funciona em uma das grandes favelas da capital haitiana, Waf Jeremie, construída no passado no aterro municipal da capital Porto Príncipe. O centro de acolhimento, definido como uma autêntica cidadela de esperança (a "Aldeia Itália") em uma área de pobreza e desespero, completo com uma clínica pediátrica e escola, abriga até 250 crianças, algumas das quais vieram para a Itália em passado recente para estudar.

Essas dinâmicas copiam o extremismo islâmico, lembra irmã Marcella, surgiram "há algum tempo no Brasil", quando circulavam vídeos de jihadistas que decapitavam ao vivo pessoas, porque "agem por imitação. Agora chegamos a essa fase também no Haiti: usam esquemas vistos em outros lugares porque lhes permitiram chegar ao poder e no Afeganistão determinaram a 'derrota' dos estadunidenses e do mundo”. O perigo está em cada esquina, por isso “acompanho as missas online” e “mandei um dos meus garotos de moto, por vias secundárias, à Nunciatura para buscar as hóstias consagradas”. Porque a Eucaristia se torna "o ponto forte do dia, que dá o sentido e a razão de estar aqui: dizer a essas pessoas que o Senhor as ama", mesmo que o risco que se corre todos os dias "seja muito alto, mesmo para as nossas crianças".

Não se vislumbram saída no horizonte e, após o assassinato do presidente Jovenel Moïse, até os últimos e frágeis esforços da diplomacia internacional parecem ter se dissipado. “Ouve-se apenas - frisa – rumores de uma possível doação de milhões de dólares pela ONU para o combate às gangues, mas não vai adiantar, aliás eles vai acabar alimentando esses grupos” que vão de casa em casa para sequestrar as meninas. “Um exército de homens - explica ela - precisa de 'carne fresca', então agora eles trazem de volta as que foram tiradas meses atrás, todas grávidas, e levam outras cada vez mais jovens”.

Nesse cenário de violência, ainda restam pequenos sinais de esperança: antes de tudo “respeito por mim, pelo que fiz no passado, é por isso que não nos tocaram até agora”. A freira relembra um acontecimento recente: “Um membro da gangue Waf Jeremie foi morto e o líder me enviou um emissário para me pedir para poder celebrar o funeral com um padre em nossa igreja. O fato de ele ter pedido, e não terem vindo diretamente, é o sinal de um respeito que ainda está presente. É claro que eu concedi o uso por dois motivos: primeiro porque, se não o fizer, a retaliação é certa e terrível. Depois, quem pode tirar dessas pessoas, no último instante da vida, o coração do bom ladrão que diz a Jesus para levá-lo consigo para o paraíso? Posso eu negar - conclui - um último instante de verdade e liberdade? ... o Senhor não deixa ninguém fora de sua casa”.

 

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