A dança do Papa Francisco com as mulheres na Igreja

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05 Outubro 2021

 

O Papa Francisco nomeou um novo grupo de 28 membros para a Comissão Teológica Internacional, incluindo cinco mulheres.

O artigo é de Robert Mickens, publicada por La Croix International, 01-10-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Papa Francisco é muito bem visto na imprensa por (supostamente) avançar no papel das mulheres na Igreja Católica, uma instituição que investe em homens solteiros com autoridade para conferir os sacramentos e tomar as mais importantes decisões.

Mas este elogio ao Papa nessa área realmente se justifica?

Na última semana, Francisco nomeou 28 membros para um novo mandato de cinco anos (quinquennium) na Comissão Teológica Internacional (CTI), uma espécie de think-tank de alto nível, datada de 1969, a qual é supervisionada pelo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (CDF).

Apenas cinco dos novos membros são mulheres.

Ser aceito como membro a comissão não é como ter uma posição de autoridade na Cúria Romana.

No entanto, Paulo VI criou a CTI na onda do Concílio Vaticano II (1962-65) para garantir que teólogos de classe mundial, como os periti no Vaticano II, continuariam a ter influência em Roma.

A coisa mais desapontadora sobre as pessoas que Francisco selecionou para o mandato de 2021-2026 não é algo que possa ser considerado como “teólogos de classe mundial” (ou pelo menos conhecidos internacionalmente).

A real infelicidade é que 78.6% deles são padres. Ainda, quanto às cinco mulheres, três são irmãs religiosas, há apenas um homem leigo.

Precisamente, dos 28 membros, 22 são padres ordenados.

 

Não reflete a teologia ou a Igreja de hoje

 

E qual o problema disso?

Primeiro, isso não reflete a realidade da academia teológica de hoje na maior parte do mundo, onde os leigos – boa parte de mulheres – estão se tornando maioria sobre os clérigos. Por uma grande margem.

E, em segundo lugar, não é exatamente um endosso retumbante da competência dos leigos poucos dias antes do lançamento da fase preparatória da assembleia do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade.

Este é um ponto crucial porque a perícia teológica entre os leigos será essencial em uma Igreja onde os crentes estão caminhando juntos e tentando discernir a direção na qual o Espírito Santo os está conduzindo.

Quanto à sinodalidade como um projeto do catolicismo global, a combinação geográfica dos atuais membros da CTI também é bastante desanimadora.

Metade dos membros (14) são novamente da Europa, enquanto outros cinco são da América Latina e três são da África.

Restam dois dos Estados Unidos e da Ásia (especificamente Índia e Coréia), enquanto há também um padre do Líbano e uma religiosa da Austrália.

 

Uma “presença feminina significativa”?

 

Que compreensão minimalista do que significa ser “internacional”.

Simbolicamente, pelo menos, isso mantém o status quo de uma Igreja eurocêntrica, que é surpreendentemente o oposto do que o papa argentino vem perseguindo durante seus mais de oito anos como bispo de Roma.

Para ser justo com ele, no entanto, a lista de candidatos a membros da CTI é de responsabilidade do presidente da CTI (que é sempre o prefeito do CDF), atualmente o cardeal jesuíta Luis Ladaria.

O presidente coloca os nomes juntos após conferenciar com as conferências episcopais nacionais em todo o mundo. Ele então apresenta a lista ao Papa que, dizem, quase sempre a aprova como está.

A Comissão Teológica Internacional emitiu um comunicado de imprensa no qual na verdade se parabenizou (ou talvez Francisco) pela “significativa presença feminina” que agora foi acrescentada aos seus membros.

Mas verdadeiramente?

Cinco de 28 é menos de 18%. Em que mundo esse número é considerado significativo?

 

“Ad interim”

 

Da mesma forma, muitas pessoas afirmam que o Papa Francisco está fazendo avanços significativos na promoção de mulheres para cargos-chave no Vaticano.

Sim, há mais funcionárias na Cúria Romana desde 2013, quando ele se tornou Papa. Mas o número nas altas posições não é significativo. É marginal.

O movimento mais inovador que Francisco fez, segundo alguns, ocorreu em agosto, quando ele nomeou uma religiosa italiana como secretária do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral.

O secretário é considerado o segundo oficial. E nos principais escritórios da Cúria Romana (congregações, tribunais, conselhos pontifícios, dicastérios), o cargo é mais frequentemente ocupado por um bispo.

Até agora, os secretários sempre foram, pelo menos, padres ordenados.

Mas a nova nº 2 do Dicastério, a salesiana irmã Alessandra Smerilli, foi nomeada secretária ad interim, algo que tem sido quase sempre esquecido ou minimizado.

Não foi explicado o que significa que a nomeação de Smerilli é apenas “por enquanto”. Mas muitos esperam que isso seja alterado para permanente.

 

Um prêmio a elas

 

Como a seleção desta semana de apenas cinco mulheres para a CTI entre 28 membros, a nomeação de Smerilli parece fazer parte de um padrão contínuo de envio de mensagens contraditórias.

Francisco está dançando cuidadosamente em torno da questão do papel das mulheres na Igreja. Não está claro o quão sério ele realmente é, e quão longe ele provavelmente irá, para encaminhá-los para a tomada de decisões e outros cargos ministeriais.

No próximo mês, ele premiará quatro teólogos leigos – entre os quais, duas mulheres – um prêmio concedido anualmente pela Fundação Joseph Ratzinger-Bento XVI do Vaticano.

Serão homenageados com o “Prêmio Ratzinger” de 2020 e 2021, em cerimônia no dia 13 de novembro no Vaticano.

Desde que a fundação começou a conceder o prêmio em 2011, houve um total de 24 contemplados. Apenas oito deles são clérigos, enquanto os outros 16 são leigos (incluindo quatro mulheres).

Nenhum clérigo ganhou o Prêmio Ratzinger desde 2018. E entre os oito leigos que receberam o prêmio, três são mulheres.

Um gesto muito bonito, mas pouco significativo.

 

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