À escuta dos mártires de Tibhirine: Irmão Christophe, o trabalhador orante

Os 7 mártires de Tibhirine | Foto: Aleteia

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24 Fevereiro 2021

Há 25 anos, na noite de 26 para 27 de março de 1996, em seu mosteiro de Tibhirine, na Argélia, sete monges trapistas foram sequestrados por um misterioso grupo armado. François Vayne nos conduz às “raízes orantes” de cada um desses sete mártires beatificados em 2018.

A reportagem é de François Vayne, publicada por La Vie, 22-02-2021. A tradução é de André Langer.

Ele era o mais jovem dos sete mártires do Atlas. Subprior e mestre de noviços do mosteiro de Tibhirine, o irmão Christophe Lebreton, de 45 anos na época de sua morte, poderia ter sido eleito prior, conforme era o desejo do seu superior.

A eleição aconteceria no dia 31 de março de 1996, mas o sequestro dos monges em Tibhirine ocorreu alguns dias antes. É sob sua responsabilidade que os religiosos de Nossa Senhora do Atlas exploraram os 7 hectares de seu domínio agrícola. No jardim do mosteiro, o irmão Christophe teve como modelo São José, o carpinteiro de Nazaré.

Estas palavras fortes de Thomas Merton, copiadas em seu diário, dizem tudo sobre sua vocação de trabalhador silencioso: “Meu mosteiro é o lugar onde desapareço do mundo como um objeto de interesse, no sentido de estar em qualquer lugar pela minha vida oculta e minha compaixão. Para existir em todos os lugares tenho que ser ninguém”.

Amigos de vizinhos muçulmanos

Na horta, através da escuta atenta de quem se abre ao outro, laços fraternos foram forjados com Ali, Moussa, Youssef, Mohammed ou mesmo Salim. Conversas simples aconteciam todos os dias entre esses trabalhadores cristãos e muçulmanos, sem barreiras.

Os legumes – tomate, feijão, feijão, abobrinha... – eram vendidos no mercado, além de frutas, de centenas de árvores, geleias de figo, ameixa ou cereja. O mel também era utilizado para o atendimento aos enfermos recebidos no dispensário pelo irmão médico.

A associação, com vizinhos muçulmanos, para a exploração da propriedade de Tibhirine foi um elemento crucial para a inserção dos monges. “Com Mohammed, esta tarde, conversamos sobre esterco, lavrar... Este lugar é sagrado. Lugar de verdadeira adoração no sopro do Nazareno”, escreveu o irmão Christophe em seu diário.

Um dia, antes do ofício das Laudes, Mohammed pediu ao irmão Christophe ganchos para arrancar as batatas, declarando-lhe sobre o seu trabalho em conjunto: “Sabe, é como o mesmo sangue que corre através de nós, nos irriga juntos”. “Assim, comentou Christophe, para ele, o sangue fala, primeiramente, da vida, e da vida em comunhão, compartilhada”.

Um cotidiano impregnado de atos de amor

O irmão Christophe manteve os pés no chão, alimentando sua esperança no solo de um cotidiano impregnado de atos de amor. Nascido em 1950 em Blois, no centro da França, ele se envolveu com os mais desfavorecidos durante a sua vida de estudante.

Após ter abandonado toda a prática religiosa, no ímpeto do Maio de 1968, descobriu Charles de Foucauld, e seus escritos despertaram nele o desejo louco de seguir Jesus. Pensou então nos Irmãozinhos de Jesus, de espiritualidade foucaultiana, antes de partir para a Argélia para cumprir o serviço militar como cooperador de um centro para crianças deficientes e surdas-mudas.

Ele foi até Nossa Senhora do Atlas e ouviu o chamado interior para se tornar monge cisterciense, trapista. No seu ato de entrega a Deus em 15 de agosto de 1982, pediu a Maria, presente no Calvário, “a força para imitar seu filho”. É em Tibhirine que essa força lhe será plenamente concedida. “Combate do irmão Luc: médico orante. Que sejamos cada um de acordo com o que recebe para fazer: na oficina, na cozinha, no jardim: trabalhadores orantes”, notou o irmão Christophe.

O trabalho inscreveu-se, portanto, na sua vida como um prolongamento da oração litúrgica e pessoal; era para ele como a “oração das mãos”. Da nossa parte, nesta Quaresma, lembremo-nos que o trabalho expressa também o dom de si a Deus, o que nos dará a alegria de experimentar uma vida unificada.

Jornalista e escritor, François Vayne conheceu Tibhirine durante a sua juventude argelina. É autor de La vie et le message des sept moines de Tibhirine, Nouvelle Cité (A vida e a mensagem dos sete monges de Tibhirine), com Thomas Georgeon, novo abade da Grande Trapa e postulador da causa de beatificação dos sete mártires do Atlas.

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