26 Agosto 2020
“É fundamental que seja ouvida a voz dos jovens para dar uma resposta mais inclusiva à crise da Covid-19”, escreve Eduardo Camín, jornalista uruguaio credenciado na ONU-Genebra e analista associado do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica, em artigo publicado por CLAE, 21-08-2020. A tradução é do Cepat.
Desde o início da pandemia, mais de 70% dos jovens que estudam ou combinam seus estudos com o trabalho foram afetados adversamente pelo fechamento de escolas, universidades e centros de formação, revela um estudo da Organização Internacional do Trabalho - OIT.
Os efeitos desproporcionais da pandemia sobre os jovens exacerbaram a desigualdade e podem minar a capacidade produtiva de toda uma geração, afirma o relatório Os jovens e a pandemia da Covid-19: efeitos sobre empregos, educação, direitos e bem-estar mental.
Seus resultados mostram que 65% dos jovens consideram que sua atividade educacional foi afetada adversamente, desde o início da pandemia, como consequência do período de transição do ensino presencial em sala de aula para o ensino online e a distância, durante a fase de confinamento.
Enquanto que 65% dos jovens em países de alta renda puderam assistir aulas por videoconferência, a proporção que pode estudar online em países de baixa renda foi de apenas 18% - Eduardo Camín
TweetApesar dos esforços para continuar os estudos e a formação, metade destes jovens acredita que a conclusão de seus estudos será atrasada, e 9% afirmam que poderão ter que abandoná-los definitivamente.
A situação é ainda pior para os jovens que vivem em países de rendas mais baixas, onde existem as maiores lacunas em termos de acesso à Internet e disponibilidade de equipamento e, por vezes, de espaço em casa.
Isso destaca a enorme “brecha digital” entre as regiões. Enquanto que 65% dos jovens em países de alta renda puderam assistir as aulas por videoconferência, a proporção de jovens que puderam prosseguir seus estudos online em países de baixa renda foi de apenas 18%.
“A pandemia tem uma repercussão muito adversa sobre os jovens. Não apenas reduz seu emprego e futuro profissional, mas também prejudica enormemente sua educação e formação e, portanto, seu bem-estar mental. Não podemos permitir que isso aconteça”, assinala Guy Ryder, diretor-geral da OIT.
De acordo com o referido relatório, 38% dos jovens manifestam preocupação com o seu futuro profissional e se prevê que a crise dificulte o desenvolvimento do mercado de trabalho e prolongue o período de transição dos jovens, de quando terminam os seus estudos até o seu primeiro emprego.
Alguns jovens já foram afetados, visto que um em cada seis deles teve que parar de trabalhar, desde o início da pandemia. Geralmente os trabalhadores mais jovens trabalham em setores fortemente afetados pela pandemia, particularmente aqueles relacionados ao atendimento ao cliente, prestação de serviços e vendas, portanto, são mais vulneráveis aos efeitos econômicos da pandemia.
É fundamental que seja ouvida a voz dos jovens para dar uma resposta mais inclusiva à crise da Covid-19 - Eduardo Camín
TweetCerca de 42% dos jovens que mantiveram seus empregos tiveram sua renda reduzida. Isso afetou seu bem-estar mental. A pesquisa citada mostra que 50% dos jovens são suscetíveis a episódios de ansiedade e depressão, e que 17% provavelmente já os padeçam.
Apesar da complexa conjuntura atual, os jovens utilizam seu vigor para se mobilizar e fazer ouvir suas vozes na luta contra a crise. De acordo com a pesquisa, um em cada quatro jovens fez algum tipo de trabalho voluntário durante a pandemia.
É fundamental que seja ouvida a voz dos jovens para dar uma resposta mais inclusiva à crise da Covid-19. Segundo o relatório, a participação dos jovens na tomada de decisões de acordo com as suas necessidades e projetos aumenta a eficácia das políticas e programas e lhes oferece a oportunidade de contribuir para a sua implementação.
Também se defende a adoção de medidas políticas em grande escala de forma urgente para evitar que a crise comprometa o futuro profissional de toda uma geração de jovens a longo prazo, como a reintegração no mercado de trabalho de jovens que perderam seus empregos e que tiveram de reduzir o número de horas de trabalho, bem como o acesso dos jovens a subsídios de desemprego e a programas de melhoria do bem-estar mental, em particular o apoio psicossocial e a realização de atividades esportivas.
A resposta dos governos em todo o mundo à propagação rápida e sem precedentes da pandemia de Covid-19 levou a uma desaceleração econômica global. A pandemia afetou todos os aspectos de nossas vidas. Mesmo antes do início da crise, a integração social e econômica dos jovens era um desafio contínuo.
No momento, a menos que seja tomada uma ação urgente, os jovens provavelmente sofrerão impactos graves e duradouros da pandemia. Os efeitos sobre os jovens, nos empregos e nas empresas provavelmente sejam de longa duração, bem como mais notórios entre as populações mais vulneráveis, incluindo os jovens.
Os jovens que vivem em países de renda baixa são os mais expostos à redução da jornada de trabalho e consequente contração da renda - Eduardo Camín
TweetA história nos mostra que uma crise como a pandemia de Covid-19 pode ter consequências graves e duradouras para as populações mais jovens, que estão começando a ser chamadas de “geração do confinamento”.
A pandemia está tendo graves repercussões sobre os trabalhadores jovens, matando seus empregos e minando suas perspectivas profissionais. Um em cada seis jovens (17%) que estavam trabalhando, antes do início da pandemia, pararam totalmente, em especial os trabalhadores de menor idade, entre 18 e 24 anos, e os trabalhadores envolvidos na prestação de apoio administrativo, serviços, vendas, artesanato e negócios relacionados.
A jornada de trabalho dos jovens empregados caiu quase um quarto (ou seja, uma média de duas horas por dia) e dois em cada cinco jovens (42%) relataram uma redução em suas rendas. Os jovens que vivem em países de renda baixa são os mais expostos à redução da jornada de trabalho e consequente contração da renda.
A ocupação foi considerada o principal determinante de como a crise afetou de forma diferente as mulheres e os homens jovens. As primeiras apontaram maiores perdas de produtividade em comparação com seus homólogos masculinos. A abrupta interrupção da aprendizagem e do trabalho, exacerbada pela crise de saúde, deteriorou o bem-estar mental dos jovens. O estudo revela que 17% dos jovens provavelmente sofram de ansiedade e depressão.
O bem-estar mental é menor entre mulheres jovens e jovens entre 18 e 24 anos. Os jovens cuja educação e trabalho foi interrompido ou havia cessado totalmente tinham quase duas vezes mais probabilidades de sofrer de ansiedade e depressão do que aqueles que continuaram trabalhando e aqueles cuja educação seguiu seu curso. Isso destaca as ligações entre bem-estar mental, sucesso educacional e integração no mercado de trabalho.
Através da experiência, sabemos que nenhum fenômeno surge sem uma causa. Hoje, a prerrogativa de todos os nossos males está concentrada na Covid-19. Portanto, todos os relatos foram analisados a partir dessa premissa, evitando o essencial, que estamos imersos em um sistema baseado na exploração do trabalho assalariado, baseado na propriedade privada dos meios de produção.
A desigualdade e a pobreza devem ser analisadas no quadro da ordem mundial que as produz. A globalização neoliberal, consolidada desde o pós-guerra e transformada em tsunami, juntamente com a expansão das tecnologias da informação, tornou-se o regime econômico hegemônico. Portanto, suas consequências sociais merecem um exame aprofundado que abarque a própria lógica capitalista.
Um planeta absolutamente globalizado, no qual os capitais aparecem como dominadores quase absolutos da cena político-social, com sua consequente influência ideológico-cultural. A ideia de que não existe nada além do modelo de democracia de mercado se pretende totalmente válida, se apresenta com uma força avassaladora.
Daí decorre a atual ideologia dominante, centrada em um individualismo cada vez mais crescente, atravessado por uma irrefreável tendência consumista, o desprezo pelas questões sociais e uma ética de triunfo pessoal.
As novas gerações, criadas em forma crescente neste terreno fértil cultural, bombardeadas constantemente com novas tecnologias de informação e comunicação que fomentam a saída individual sobre todas as coisas, junto com uma certa forma de hedonismo e conformismo político, são as porta-bandeiras dessa ideologia.
Sua cosmovisão está moldada na ideia de Estado burocrático, forçosamente deficiente, na entronização da iniciativa privada e do mais descarado individualismo egocêntrico, tudo isso sempre mediado pelas novas tecnologias da informação. Essas receitas para a entronização absoluta do livre mercado são necessariamente complementadas pelo encolhimento-desmantelamento dos Estados nacionais.
Apesar de viver em um mundo inundado por espetaculares desenvolvimentos tecnológicos e culturais, a luta pela subsistência ainda está ancorada em uma lógica embrutecedora - Eduardo Camín
TweetTodas as empresas públicas são privatizadas, os investimentos sociais em educação e saúde (considerados "gastos" sociais) são reduzidos a percentuais ínfimos e a pregação constante torna o Estado um "paquiderme inútil, corrupto e disfuncional". Vemos essa ideologia, essas práticas concretas de ajuste estrutural, em todo o mundo, produzindo efeitos semelhantes em todos os lugares e independentemente da Covid-19.
A mudança dos fenômenos no tempo segue apenas uma direção, do passado para o presente e para o futuro. O tempo não corre para trás: só nas histórias e romances fantásticos é possível criar a "máquina do tempo" que nos leva ao passado. De forma alguma, é possível dizer que “todo o tempo passado foi melhor”, mas não há dúvida de que o momento atual suscita questões preocupantes sobre a possibilidade de mudanças sociais.
O chamado neoliberalismo, mais do que uma fórmula econômica, parece um programa civilizatório. Daí a importância de considerar alternativas ao modelo dominante. Apesar de viver em um mundo inundado por espetaculares desenvolvimentos tecnológicos e culturais, a luta pela subsistência ainda está ancorada em uma lógica embrutecedora que reduz o sujeito à sua expressão mais primitiva, uma peça insignificante, sem consciência, apenas pura energia (física e intelectual), extraído para alimentar a maquinaria global.
No capitalismo, a lógica das necessidades fica constantemente subordinada à lógica do lucro. Apesar das tentativas dos atuais "gurus" do mundo capitalista de apresentá-lo como um capitalismo "novo", "moderno", que aprendeu com seus erros, na realidade, hoje, o capitalismo globalizado envelheceu e caminha para a morte.
O paradoxo atual é que muitos dos que hoje sofrem com o desemprego ou o subemprego receberam uma sólida educação.