Alemanha. “Depois dos abusos, os bispos se deram conta de que não se poderia seguir assim”, entrevista com Mechthild Heil

Mechthild Heil encontra com o cardeal Reinhard Marx, em Fulda, durante o processo sinodal da Igreja alemã. Foto: Britta Rausch | KfD

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28 Setembro 2019

Mechthild Heil é parlamentar conservadora alemã, do partido da chanceler Angela Merkel. Porém, é ademais a presidenta da poderosa comunidade de mulheres católicas alemãs, em pé de guerra para exigir igualdade na Igreja e o acesso a todos os postos reservados até agora somente para os homens. Em torno de 450 mil mulheres membros de 4 mil associações de todo o país formam a KfD, por suas siglas em alemão, que participa no incipiente processo de diálogo reformista da Igreja alemã e a que Roma se opõe.

A entrevista é de Ana Carbajosa, publicada por El País, 26-09-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

Essa semana, os bispos alemães se reúnem para falar desse e de outros assuntos e ali se apresentaram na segunda-feira Heil e suas companheiras para exigir que as escutem. O papel da mulher na instituição é um dos quatro blocos temáticos que a Igreja alemã tem previsto debater nesse inverno (europeu) no caminho sinodal, o fórum que Roma teme que abra um perigoso racha na Igreja universal.

Heil recebe o El País em seu escritório do Bundestag, na capital alemã, onde fala sem eufemismos da necessidade de reforma da instituição e do otimismo que desperta o diálogo alemão.

Eis a entrevista.

Vocês exigem que as mulheres possam ocupar qualquer cargo na hierarquia eclesiástica. Iniciaram uma campanha e recolhimento de assinaturas. Por que agora?

No ano passado se publicou o estudo sobre abusos no seio da Igreja e se expôs que há problemas estruturais. Com a moral sexual, com a formação dos padres nos seminários... se não têm experiência, nem maturidade sexual, como vão explicar isso aos alunos? Tudo isso contribui aos abusos, também o fato de que não houvesse mulheres implicadas. Uma mulher, talvez diria que não se pode gerir assim, que não poderia simplesmente trasladar o padre a outro lugar. Os bispos entenderam que o estudo tinha que ter consequências.

Esse foi o catalisador. O que pedem agora?

Há um ano, nós, mulheres católicas, não tínhamos uma posição consensual sobre se queríamos ser sacerdotes ou não. Nossa assembleia se reuniu e as representantes das comunidades votaram por unanimidade a favor de ter os mesmos direitos que os homens na Igreja. Sem as mulheres, a Igreja não funcionaria.

O presidente da Conferência Episcopal, o cardeal Reinhard Marx disse na segunda-feira que é consciente de que faz falta a mobilização e que ele impulsiona mudanças, porém também que para que haja progresso à medida que o tempo é necessário. Confiam nos planos de reformas dos bispos?

Temos muitas experiências com processos lentos (risos). Muitas mulheres mais velhas se cansaram de esperar e se afastaram da Igreja. Porém agora, assistimos a um novo momentum. Há muita motivação entre jovens e mais idosos. Muitas mulheres nos chamam para se inscrever. Hoje mesmo, três parlamentares nos pediram para participar. O povo sente que agora pode acontecer algo.

Que temas querem levar aos diálogos reformistas?

O acesso das mulheres a qualquer posição da hierarquia, a moral sexual, a anticoncepção, o reconhecimento dos divorciados, a homossexualidade...

Porém Roma se opõe ao debate alemão.

O problema não é o papa Francisco, o problema é as pessoas que o rodeiam. Os bispos alemães que estão contrários ao processo correram a ver o Papa. O Vaticano tem medo de que a Igreja alemã se separe, nos veem muito próximos dos protestantes. Na Áustria e na Suíça também há iniciativas similares à nossa.

Acredita que há um risco real de cisma?

Não esse é um argumento que Roma utiliza para disciplinar os países.

Vocês bateram na porta do papa?

Eu escrevi para ele, porém até o momento não tivemos resposta.

Por que acreditam que em Roma se opõem ao caminho sinodal?

Roma quer que sejam os bispos os que tenham a última palavra e não os leigos, porém nós também devemos poder dizer o que nos dá gana. O desafio agora é influenciar os bispos, porém creio que a maioria está com nós. Creio que depois do estudo sobre os abusos se deram conta que não poderia seguir assim. Outra coisa é que ponham em marcha as mudanças.

Onde acredita que nasce a relutância à igualdade para as mulheres na Igreja?

Eles têm que ceder poder, o contrário é profundamente anticristão. Não há nenhuma razão teológica. Tanto faz o que aconteceu há 2 mil anos. A Igreja sempre foi mudando e a situação de hoje é diferente. Os bispos têm medo de que se algo mude, tudo vá pelos ares. Nós não brigamos pelo poder, mas sim pela responsabilidade para poder tomar decisões.
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Antes de se despedir, Heil oferece um dos bottoms esmaltados com uma cruz púrpura, que as ativistas católicas carregam na lapela durante esses dias para deixar claro que a sua luta é pela reforma das instituições desde dentro, porém agora em voz alta.

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