Sínodo, a voz da Amazônia

Amazônia | Foto: comunidade boa semente

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

27 Junho 2019

Em 17 de junho de 2019, foi divulgado o Instrumentum laboris para a assembleia especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica, a ser realizada em Roma de 6 a 27 de outubro de 2019. O título que o Papa Francisco deu a este Sínodo é "Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral".

O comentário é do Monsenhor Ettore Malnati, Vigário episcopal para o laicato e a cultura da Diocese de Trieste, publicado por Vatican Insider, 25-06-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Esse documento, cuidadosamente preparado, começou de baixo, ou seja, depois de ouvir as urgências e as preocupações das populações desses países e o grande risco com o clima e a ecologia do planeta-terra, foi elaborado após um discernimento antropológico, eclesiológico e ecológico integral. Essa "escuta" será a plataforma de trabalho para os membros do Sínodo na Amazônia.

O Instrumentum é dividido em três partes precedidas por uma introdução que apresenta o que o documento quer alcançar de acordo com as atenções do Papa Francisco.

A primeira parte é a voz da Amazônia, dividida em quatro capítulos; a segunda trata da eclesiologia integral: o grito da terra e dos pobres, dividida em nove capítulos. A terceira parte apresenta as perspectivas de uma "Igreja profética na Amazônia: desafios e esperanças", dividida em oito capítulos para uma adequada e cuidadosa presença da Igreja por parte dos povos indígenas para uma Igreja em saída, em escuta e uma adequada e evangélica relação entre Igreja e poder.

A primeira parte traz o título: "A voz da Amazônia" e é introduzida por essa tomada de consciência da Igreja "de diferenciar-se claramente das novas colonizações, ouvindo os povos amazônicos para exercer com transparência seu papel profético" (n.7).
Esta primeira parte possui quatro capítulos que apresentam a vida dos povos do território amazônico, a vida da Igreja e a vida do Planeta (n.8).

A partir das muitas consultas realizadas em muitas regiões amazônicas, as Comunidades consideram que a vida em suas regiões é ameaçada sobretudo pela:

1. “criminalização e assassinato de líderes e defensores do território;

2. apropriação e privatização de bens da natureza, como a própria água;

3. concessões madeireiras legais e pela entrada de madeireiras ilegais;

4. caça e pesca predatórias, principalmente nos rios;

5. megaprojetos: hidrelétricas, concessões florestais, desmatamento para produzir monoculturas, estradas e ferrovias, projetos mineiros e petroleiros;

6. contaminação ocasionada por todas as indústrias extrativistas que causam problemas e enfermidades, principalmente para as crianças e os jovens; o narcotráfico;

7. os consequentes problemas sociais associados a tais ameaças, como o alcoolismo, a violência contra a mulher, o trabalho sexual, o tráfico de pessoas, a perda de sua cultura originária e de sua identidade (idioma, práticas espirituais e costumes) e todas as condições de pobreza às quais estão condenados os povos da Amazônia" (n.15).

Com razão, o Instrumentum laboris enfatiza que "atualmente, a mudança climática e o aumento da intervenção humana (desmatamento, incêndios e alteração no uso do solo) estão levando a Amazônia rumo a um ponto de não-retorno” (n.16).

Esse quadro por si só já desafia dramaticamente toda a família humana por causa daquela solidariedade antropológica que não pode ser desatendida. A pessoa consciente não pode ignorar essa questão e não alertar a comunidade internacional, os vários povos do Planeta Terra e indivíduos contra esta ameaça à vida biológica, àquela espiritual de parte dos Povos do Brasil, da Bolívia, do Peru, do Equador, da Colômbia, da Venezuela, da Guiana, do Suriname e da Guiana Francesa, que constituem o território da Amazônia.

Eis então que o Papa Francisco acolhe o grito das populações entrevistadas e pede que se reflita no fato de que a ameaça "da vida" das populações e dos territórios da Amazônia "deriva de interesses econômicos e políticos dos setores dominantes da sociedade atual, de maneira especial de empresas extrativistas, muitas vezes em conivência, ou com a permissividade dos governos locais, nacionais e das autoridades tradicionais (dos próprios indígenas).” (n.14).

Essa atitude já estigmatizada pelo Papa Francisco na encíclica Laudato si' (n 49, 91) demonstra a indiferença culpada aos gritos dos últimos e contrasta com o estilo de solidariedade não só evangélica (Lc 10,33), mas da própria ética natural.
Com base nesta tomada de consciência, portanto, é deveoso pedir para mudar o rumo à política, à economia, aos indivíduos, à comunidade internacional e à própria Igreja, através de novos "caminhos de conversão, de comunhão e diálogo, caminhos do Espírito, de abundância e do bem viver" (n.18).

Esses novos caminhos devem se basear em relações interculturais, onde diversidade não significa ameaça, não justifica hierarquias de um poder sobre os outros, mas sim diálogo a partir de visões culturais diferentes" (n.18).

É, portanto, uma questão de incentivar aqueles critérios culturais de igualdade já presentes nos documentos fundamentais dos direitos humanos a partir da Magna Carta de João Sem Terra, até a Declaração Universal da ONU em 1948. Deve ser dito que os Pastores da Igreja, após a descoberta da América (1492), além de se ocupar com a solicitação de Alexandre VI, que pediu aos reis da Espanha e Portugal para permitir o anúncio do Evangelho e a implantatio Ecclesiae entre aquelas populações, graças à solícita atenção de Bartolomeu de Las Casas, encontramos o papa Paulo III emanando o a bula Sublimis Deus (1537), o primeiro documento contra os abusos contra os índios, declarando-os homens livres que devem ser respeitados como pessoas, mesmo na proposta evangelizadora, que nunca pode ser uma imposição. Além disso, o papa Paulo III neste documento pede aos espanhóis que respeitem a cultura dos índios. Bartolomeu de Las Casas em 1540 condena os erros dos conquistadores e é o inspirador das "leis novas" (1542) com as quais o imperador Carlos V suprime a "Encomienda". Em 1545, Las Casas é eleito Bispo de Chiapa na Guatemala e, nessa qualidade, continuará sua missão contra os abusos pela proteção dos Índios. Naqueles anos estiveram empenhados na evangelização e na proteção e promoção dos povos autóctones Mons. Zumàrraga, Bispo do México (1528-1548) e Mons. Toribio de Mogrovejo, bispo de Lima (1581-1606).

Recentemente, o Magistério da Igreja Católica manifestou-se sobre a proteção contra a exploração das populações dos Campesinos, quando São Paulo VI, em sua visita pastoral à Colômbia em agosto de 1968, tomou a defesa desses trabalhadores da terra, muitas vezes explorados e defraudados de sua formação cultural.

Suas palavras são claras: "Continuaremos a denunciar as desigualdades entre ricos e pobres; os abusos autoritários e administrativos contra vocês e sua coletividade. Continuaremos a encorajar os propósitos e os programas das Autoridades responsáveis e dos Entes internacionais, bem como das nações ricas, em favor das populações de via de desenvolvimento" [1].

O Sínodo "Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral" é uma adequada releitura do compromisso com a evangelização e promoção humana para o território e a vida das populações da “zona” amazônica, mas também "uma voz livre" para denunciar e coibir a exploração ainda presente em detrimento desse território e da vida desses povos e de todo o Planeta Terra.

É importante ressaltar que "na Amazônia a vida está integrada e unida ao território, não existe separação nem divisão entre as partes. Esta unidade compreende toda a existência: o trabalho, o descanso, os relacionamentos humanos, os ritos e as celebrações" (n.24).

É necessário, portanto, que não somente a Igreja, mas toda a comunidade internacional, se esforce para acolher os desafios desse território e de seus povos em um diálogo intercultural (cf. n. 30-40), que é de enriquecimento mútuo. O documento do Instrumentum laboris fecha sua primeira parte, ressaltando que é o momento de ouvir a voz da Amazônia e responder a ela com escolhas "proféticas e samaritanas" (nº 43).


Nota:

[1] E. MALNATI, I gesti profetici di Paolo VI, ed Ancora, Milão 2013, p 90-91

 

Leia mais