Depois dos transgênicos, comeremos ''big data''. Artigo de Vandana Shiva

Foto: Tamires Kopp | Ministério do Desenvolvimento Agrário

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

24 Novembro 2017

“Os dados não são conhecimento. São apenas outra mercadoria destinada a tornar o agricultor ainda mais dependente.”

A opinião é da estudiosa, física e ecofeminista indiana Vandana Shiva, em artigo publicado por Il Manifesto, 23-11-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em matéria de alimentação e agricultura, o futuro pode tomar dois caminhos opostos.

Um leva a um planeta morto: espalhamento de venenos e difusão de monoculturas químicas; endividamento pela aquisição de sementes e herbicidas, causa de suicídios em massa entre os agricultores; crianças que morrem por falta de comida; aumento das doenças crônicas e dos óbitos devidos a carências nutricionais e às substâncias envenenadas vendidas como alimentos; devastação climática que prejudica as próprias condições da vida sobre a Terra.

O segundo caminho é o da renovação do planeta graças à agroecologia, à retomada da biodiversidade, ao respeito pelo solo, pela água e pelas pequenas unidades agrícolas, para que todos no mundo possam ter acesso a uma alimentação saudável.

O primeiro caminho é o industrial e foi traçado pelo cartel dos venenos. Depois das duas guerras mundiais, as companhias transformaram as suas armas químicas em substâncias agroquímicas, como pesticidas e fertilizantes. E convenceram o mundo de que, sem esses venenos, não era possível obter colheitas e produzir alimentos.

Em 1990, diziam-nos que os transgênicos anulariam todos os limites impostos pelo ambiente, permitindo o crescimento de alimentos em qualquer lugar, incluindo os desertos e os despejos de materiais tóxicos.

Hoje, existem apenas duas aplicações dos transgênicos: a resistência aos herbicidas e as culturas Bt. A primeira aplicação foi decantada como método para o controle das ervas infestantes – na realidade, criou outras super-resistentes; quanto à cultura Bt, supunha-se que conseguiriam manter os parasitas longe, quando, na realidade, desenvolveram outros super-resistentes.

A última grande notícia é que os “big data” nos nutrirão. A Monsanto fala de “agricultura digital” baseada nos “big data” e na “inteligência artificial”. Prefigura até uma agricultura sem agricultores.

Não surpreende que a epidemia de suicídios entre os agricultores indianos e, em geral, a crise dos agricultores em todo o mundo não despertaram as devidas respostas dos governos: estes últimos estão tão tenaz e cegamente intencionados a construir o próximo trecho da autoestrada para a morte que ignoram a inteligência das sementes vivas, das plantas, dos organismos do solo, das bactérias do nosso intestino, dos camponeses e das montanhas de experiência e sabedoria construídas nos milênios.

Os pequenos agricultores produzem 70% dos alimentos globais usando 30% dos recursos totais destinados à agricultura.

A agricultura industrial, ao contrário, usa 70% dos recursos, gerando 40% das emissões de gases de efeito estufa, para produzir apenas 30% dos alimentos que comemos.

A Climate Corporation, a maior companhia do mundo em dados sobre o clima, e a Solum Inc., a maior companhia do mundo em dados sobre o solo, são hoje de propriedade da Monsanto. Essas duas empresas vendem apenas dados. Mas os dados não são conhecimento. São apenas outra mercadoria destinada a tornar o agricultor ainda mais dependente.

Não podemos enfrentar as mudanças climáticas e as suas consequências reais e efetivas sem reconhecer o papel central do sistema alimentar industrializado e globalizado, que gera até 40% das emissões de gases climalterantes por causa dos seguintes fatores: desmatamento, criações intensivas, embalagens de alimentos em plástico e alumínio, transportes em longas distâncias e desperdício de alimentos.

Não podemos resolver as mudanças climáticas sem a agricultura ecológica e em pequena escala, baseada na biodiversidade, nas sementes vivas, nos solos vitais e nos sistemas alimentares locais, reduzindo ao mínimo os transportes de produtos alimentares e eliminando as embalagens plásticas.

Leia mais: