Por: Jonas | 12 Março 2012
Irlanda e Polônia eram as nações mais católicas da Europa. No entanto, em nível diplomático, isto é só uma lembrança. Os respectivos governos estão em pé de guerra com a Santa Sé. Em Varsóvia, também pelo motivo da Rádio Maryja.
A reportagem é de Sandro Magister, publicada no sítio Chiesa, 07-03-2012. A tradução é do Cepat.
Já faz dois séculos que a França, de fato, repudiou o título de “filha primogênita” da Igreja, se bem que ainda não renunciou o assento, para o próprio chefe de estado, de primeiro canônico honorário do capítulo de São João de Latrão. No entanto, nestes últimos tempos, outras filhas prediletas do papado parecem sentir impaciência em relação a Roma. De maneira drástica a Irlanda, de forma mais controlada a Polônia.
Em Dublin, o ato de ruptura foi degradar a embaixada da Irlanda, na Santa Sé, à classe de representação não residencial, da mesma forma do Irã e Timor-Leste. A decisão oficialmente se justificou por motivos de ajustes, mas muitos consideram que foi uma represália contra a suposta falta de colaboração do Vaticano, nas investigações do governo irlandês, a respeito dos abusos de menores por membros do clero, durante os últimos decênios.
Alguns políticos pediram para revogar a decisão. O “Irish Times” escreveu que a embaixada no Vaticano era uma das menos onerosas, com um custo de somente 348.000 euros por ano. O governo estima, porém, uma economia de 600.000 euros. Em todo caso, tanto o primeiro ministro irlandês Enda Kenny, numa recente viagem a Roma, em que se manteve diligentemente afastado do Vaticano, como o ministro de assuntos exteriores, o trabalhista agnóstico Eamon Gilmore, disseram (o segundo também na Rádio Vaticana) que até que as contas não permitam, não revogaram a decisão.
Deste modo, a esplêndida Villa Spada, comprada em 1946 pela República da Irlanda como residência, que junto às embaixadas de Washington, Londres e da Liga das Nações, fez parte das quatro primeiras, em 1929, perderá sua histórica função de posto avançado irlandês no Vaticano.
Enquanto era “residente”, o representante de Dublin, na Santa Sé, era um dos poucos que gozava de uma via preferencial para obter uma audiência pessoal com o papa, em brevíssimo tempo. No entanto, agora o novo embaixador da Irlanda, David Cooney, que recebeu o reconhecimento vaticano antes do Natal, é tratado da mesma forma que todos. Ele ainda está na lista de espera para ser recebido por Bento XVI na entrega das cartas credenciais, numa dessas audiências “acumulativas” em que o papa recebe os chefes de missão não residentes, estando a próxima prevista entre maio e junho.
Uma curiosa coincidência, quase uma “nêmeses” histórica: precisamente enquanto a nação de São Patrício, católica por antonomásia, aflora seus vínculos milenares com Roma, o contíguo Reino Unido – que durante séculos oprimiu a Irlanda em nome do próprio credo protestante – melhora suas relações diplomáticas com a Santa Sé. Ficam, sem dúvidas, pontos de atrito. Em Roma, com preocupação se teme que o governo de Londres chegue a equiparar as uniões homossexuais com o matrimônio. Porém este desacordo, ainda profundo, não anula as boas relações entre as duas diplomacias que, ao contrário, vão de vento em popa.
Prova disso, é a triunfal acolhida reservada pela secretaria de Estado vaticana à baronesa Sayeeda Warsi, da religião islâmica, enviada pelo primeiro ministro inglês David Cameron como chefe da delegação ministerial, que chegou a Roma para celebrar os trinta anos de inteiras relações diplomáticas com a Santa Sé. Durante esta missão, a baronesa Warsi foi recebida em audiência com o papa, se reuniu com o secretário de Estado e, inclusive, escreveu um artigo na primeira página do “L´Osservatore Romano”. A visita foi selada em 15 de fevereiro com um extenso comunicado conjunto, em tons muito positivos.
Outro sinal, menor, no entanto significativo da melhora nas relações entre Roma e Londres, foi a nomeação como canônico vaticano do escocês mons. Charles Burns, que desde 2003 é assistente eclesiástico da embaixada britânica. Burns tomou posse do prestigioso cargo no domingo, 19 de fevereiro, com uma cerimônia na Basílica de São Pedro.
Ao contrário disso, referente às crescentes dificuldades que a diplomacia vaticana registra com a insuspeitável Polônia, o nó da disputa está na célebre Rádio Maryja, promovida pelo religioso redentorista Tadeusz Rydzyk. Melhor ainda, refere-se à emissora de televisão ligada a ela, a TV Trwam, que foi excluída da designação das freqüências sobre a plataforma digital terrestre, que chegará a todas as casas em 2013.
A decisão de excluir a TV Trwam da plataforma digital foi tomada no último dia 19 de dezembro pelo Conselho Nacional de Rádio e Televisão Polaca, o KRRiTV, cujos membros são nomeados pelo presidente da República e pelo parlamento e que, portanto, está em domínio do partido da Plataforma Cívica, PO, do qual fazem parte, tanto o presidente Bronislaw Komorowski, no cargo desde 2010, como o primeiro ministro Donald Tusk, que tomou posse após as eleições de 2007, e depois foi confirmado nas de 2011, ambas vencidas de forma convincente pelo PO.
A motivação alegada é referente à escassa solidez financeira da fundação Lux Veritatis, proprietária da TV Trwam. Uma motivação decididamente contestada pela emissora católica, que em janeiro recorreu aos tribunais locais e mobilizou seus próprios ouvintes recolhendo, em poucas semanas, mais de um milhão e setecentos mil assinaturas de apoio. Alguns parlamentares dirigiram uma interpelação, sobre esse assunto, à Comissão Européia.
A TV Trwam não esconde suas próprias simpatias, amplamente correspondidas, em relação à oposição, o partido conservador Lei e Justiça, PiS, do ex-primeiro ministro Jaroslaw Kaczynski. O que faz pensar que por trás da decisão do KRRiTV está a escolha, eminentemente política, de silenciar uma emissora seguida pela oposição.
A TV Trwam talvez também seja, sobretudo, a televisão católica mais importante do país, tanto por seu planejamento como por seus programas, e é a única que pelo número de telespectadores poderia ser aceita como digital. Portanto, se não houver a revogação da decisão, a plataforma digital não terá nenhuma voz declaradamente católica numa nação como a Polônia, em que a Igreja católica ainda conserva um papel de grande relevância, não obstante a secularização também tenha chegado aí.
Este é o motivo pelo qual entrou em cena o conselho permanente da Conferência Episcopal Polaca. Numa declaração oficial, de 16 de janeiro, os bispos lamentaram a decisão do KRRiTV, pois “ofende o princípio da pluralidade e igualdade diante da lei, ainda mais que a maioria dos habitantes de nosso país, sendo católica deveria ter livre acesso aos programas da TV Trwam, no sistema digital terrestre”. Essa maioria “expressou a esperança de ver esta emissora, que já transmite há mais de oito anos, demonstrando estabilidade financeira”, incluída “no sistema de TV digital na Polônia”.
A declaração é importante porque a reunião do conselho permanente, em que ela foi escrita, teve a participação, com exceção do arcebispo de Gniezno, de todos os doze mais altos expoentes da hierarquia católica polaca, tanto os que historicamente estão mais próximos à Rádio Maryja, como o presidente da Conferência Episcopal, o arcebispo de Przemysl, Josef Michalik, e o arcebispo de Gdansk, Slawoj L. Glodz, como os que não manifestavam muita simpatia pela emissora, como os cardeais de Varsóvia e Cracóvia, Kazimierz Nycz e Stanislaw Dziwisz.
Muitos outros bispos – de Pelpin, Bydgoszcz, Swidnica, Legnica, Zielona Gora, Kalisz... – fizeram declarações de apoio à causa da TV Trwam, em nome da defesa de liberdade dos meios de comunicação de raízes católicas. Ocorreram manifestações com dezenas de milhares, em Varsóvia e Cracóvia, e também aconteceram outras nas cidades estadunidenses com uma emigração polaca consolidada historicamente: em Chicago eram três mil.
É bom observar que o partido da Plataforma Cívica, que hegemoniza o KRRiTV, não é um partido anticlerical, como é o movimento Palikot, que nas eleições de outubro passado alcançou surpreendentemente 10% dos votos. Porém, os católicos, que dele participam, possuem uma concepção, sobretudo, intelectual e liberal, de “católicos adultos”, que mal suportam esse catolicismo popular e tradicional, especialmente vivo nas regiões do centro-sul e centro-oeste da Polônia, onde não somente é mais alta a participação ativa na vida da Igreja, como, também, os consensos do partido conservador Lei e Justiça seguem sendo majoritários.
Esta aversão, também cultural, do atual governo de Varsóvia em relação à Rádio Mryja (que não possui nenhum vínculo com a italiana Rádio Maria, ainda que ambas emissoras estejam acostumadas com uma grande difusão popular e uma intransigente defesa da fé e dos valores católicos), levou o governo, inclusive, a exercer pressão sobre a Santa Sé para que intervenha contra a rádio e a TV do padre Tadeusz Rydzyk. Formalmente, também houve, mediante uma nota diplomática de junho de 2011, uma intervenção direta do ministro de assuntos exteriores, Radoslaw Sikorski, durante uma conversa posterior com seu homólogo vaticano, o arcebispo Dominique Mamberti.
Porém, parece que essas pressões não surtiram os efeitos esperados. Para entender, basta ler a carta que no último dia primeiro de dezembro, o cardeal secretário de Estado Tarcisio Bertone, em nome de Bento XVI, escreveu ao superior dos redentoristas da província de Varsóvia, padre Janusz Sok, por ocasião do vigésimo aniversário da emissora.
A carta tem um “incipit” de tons fortemente elogiosos: “O Santo Padre Bento XVI, espiritualmente unido aos participantes do XX aniversário da Radio Maryja, envia por meio de minha pessoa, pela mão do padre provincial, uma saudação e a Bênção apostólica ao Fundador e Diretor da Rádio, padre Tadeusz Rydzyk, a todos os colaboradores eclesiásticos e leigos, aos voluntários e àqueles que por meio dessa emissora católica encontrem um reforço na fé no caminho para o encontro com Deus”.
O restante da carta está emaranhado de citações das numerosas apreciações feitas à Rádio pelo beato João Paulo II, durante seu pontificado. Em resumo, a carta do cardeal Bertone parece manifestar uma plena sintonia da Santa Sé com o episcopado polaco, enxergando na Rádio Mryja uma emissora católica que não merece ser marginalizada.
Em todo caso, a carta não evitou a “gravíssima decisão” tomada pelo governamental KRRiT, de excluir a TV pertencente à Rádio Maryja da plataforma digital. Uma decisão que na Polônia, como também em Roma, se considera baixada por razões que vão além das “débeis escusas de “instabilidade financeira”, mas, sobretudo “por fortes interesses ideológicos”. A também batalha diplomática, entre Roma e Varsóvia sobre a Rádio Maryja, parece que está longe de acabar.