Liturgia do Batismo do Senhor

Foto: YouTube

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

04 Janeiro 2018

Como batizados, precisamos atuar conforme o Espírito Santo: ele é a força que Deus nos dá para anunciarmos a justiça e o direito dos mais fracos. Não podemos usar o Espírito Santo só para nosso gozo pessoal, num espiritualismo dobrado sobre si mesmo e fechado em nosso comodismo. É necessário “rasgar” o comodismo, o individualismo e o egoísmo, para denunciar as injustiças presentes em todos os setores da nossa sociedade. Só assim poderemos “ver o Espírito de Deus presente”, e ouvir a voz de Deus ecoar na sociedade. 

A reflexão é de Rita de Cácia Ló correspondentes à Liturgia do Batismo do Senhor (08-01-2018). Ela é graduada em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana (2006) e mestre em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo (2006). Atualmente é professora de estudos bíblicos na Escola de Teologia e Espiritualidade Franciscana – ESTEF, de Porto Alegre/RS.

Referências Bíblicas
Is. 42,1-4.6-7
Salmo 28(29)
Atos Apóstolos 10,34-38
Mc. 1,7-11

Breve comentário das leituras

O Salmo celebra Deus Todo Poderoso que vem com toda “força” e com o poder de sua “voz” defender e garantir a paz e dar força ao seu povo.

Em Isaías, Javé, o Deus Todo Poderoso, apresenta solenemente o servo, seu escolhido. Podemos compor o “currículo” do servo:
– Quem o formou? – Foi modelado pelas mãos de Javé;
– E sua capacitação? – Recebeu o Espírito e a “força” do seu criador;
– Em que atuará? – Está a serviço da justiça e do direito; será a luz na luta pelos mais fracos, pois “não quebrará a cana rachada” nem “apagará chama que ainda fumega”.

Na leitura dos Atos dos Apóstolos, quem está com toda “força” e com o Espírito Santo é Pedro, que num discurso corajoso retoma o Antigo Testamento para lembrar que “Deus não faz acepção de pessoas”. Pedro faz um alerta aos chefes e às nações que Deus não aceita a injustiça e a opressão daqueles que promovem a guerra.

No Evangelho de Marcos, João Batista dá testemunho de que Jesus é “mais forte” do que ele, isto é, mais forte do que todos que foram enviados antes: Moisés, os profetas e os líderes do povo. A voz que rasga o céu confirma que Jesus é mais forte do que João Batista: Ele é “o meu filho”.

A nossa frágil missão, a partir de agora, tem a “força” do Filho de Deus para vencermos e denunciarmos os que tornam torto o caminho da justiça e do direito e, assim, confundem o povo de Deus.

O Evangelho recorre a uma imagem muito conhecida no Antigo Testamento: Deus é o esposo. O trecho de hoje tem como pano de fundo Rute 4,7-8, que fala do seguinte costume de antigamente: quando dois homens fechavam o negócio da venda de um campo, os dois trocavam as sandálias. O vendedor calçava as sandálias do comprador e o comprador calçava as sandálias do vendedor. Era um modo de atestar quem tinha o direito de pisar naquele terreno como dono. Na história de Rute, ao adquirir o campo, Booz adquiriu também o direito de se casar com Rute. Neste costume antigo, “calçar as sandálias” equivale a ter direito e poder sobre uma propriedade. Então, Quando João Batista diz “não tenho o direito de, abaixando-me, desatar a correia das sandálias”, ele não está dizendo que é humilde, e sim que não se deixa cair na tentação de ocupar o lugar do verdadeiro esposo, que é Jesus. João Batista não se deixa levar pelo estrelismo, nem pelo desejo de aparecer mais do que Jesus.

João Batista sabe qual é o seu lugar e a sua missão. Ele batiza com a água; Jesus, porém, batizará com o Espírito Santo. O batismo com o Espírito Santo indica o tempo messiânico: terminou a espera e o noivo chegou. O tempo messiânico, prometido pelos profetas, realiza-se em Jesus.

No Antigo Testamento, pouco a pouco foi se formando a ideia de um personagem quase mítico denominado “Messias”. Ele seria um descendente do grande Rei Davi e viria restaurar o reino de Israel e trazer tudo o que é bom para o povo: justiça, verdade, paz, saúde, educação, salário justo, emprego, fim da corrupção etc. Um exemplo dessa atuação do Messias movido pelo Espírito Santo está em Is 11,2: “Sobre ele repousará o Espírito de Javé, espírito de sabedoria e de inteligência, espírito de conselho e de fortaleza, espírito de conhecimento e de temor a Javé”. O Espírito Santo dará ao Messias todas as qualidades necessárias para ser um bom governante e conduzir o povo à paz e à felicidade. Quem governa o povo sem a ajuda do Espírito de Deus conduz o povo à morte e à infelicidade, e aí reina a injustiça, o medo e a corrupção, e as pessoas estão sempre apreensivas e inseguras.

No evangelho de hoje, logo depois de apresentar João Batista, Marcos diz que Jesus “veio de Nazaré da Galileia”. Nazaré é uma cidade insignificante da Galileia. E o povo da Galileia tinha a fama de ser gente ruim. Significa que Jesus não tem nenhuma qualidade humana que pudesse dar autoridade à sua missão. Quem vai dar esta autoridade é Deus. Assim que Jesus é batizado, “os céus se rasgam”. Esta é uma imagem para dizer que se rompeu a distância entre Deus e seu povo. As fronteiras foram rompidas com a presença de Jesus no meio de nós.

No Espírito Santo e nas fronteiras rompidas (rasgados) ouve-se a voz do Pai: “Tu és meu filho amado, em ti eu me comprazo”. O texto não só afirma que o jovem desconhecido vindo de uma cidadezinha insignificante é, na verdade, o filho de Deus. O texto diz mais: afirma que Jesus decidiu que tipo de Messias ele quer ser e que Deus Pai “assina embaixo”, isto é, concorda com as decisões e as atitudes de Jesus. Jesus decidiu ser o Messias da liberdade, do perdão, da justiça, do direito, e Deus Pai, sabendo disso tudo, diz: “Gostei!... Eu assino embaixo! É isso o que eu quero!”

A escolha de Jesus deve ser também a nossa. Todas as leituras vêm confirmar a missão dos batizados. Nessa missão contamos com a força e a presença do Deus Todo Poderoso, que é confirmada pela ação do Espírito Santo.

Como batizados, precisamos atuar conforme o Espírito Santo: ele é a força que Deus nos dá para anunciarmos a justiça e o direito dos mais fracos. Não podemos usar o Espírito Santo só para nosso gozo pessoal, num espiritualismo dobrado sobre si mesmo e fechado em nosso comodismo. É necessário “rasgar” o comodismo, o individualismo e o egoísmo, para denunciar as injustiças presentes em todos os setores da nossa sociedade. Só assim poderemos “ver o Espírito de Deus presente”, e ouvir a voz de Deus ecoar na sociedade.

Leia mais