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Por: Jonas Jorge da Silva | 10 Outubro 2019

Dietrich Bonhoeffer (1906-1945), cercado pelas forças da truculência nazista, acreditou quando o mundo lhe negava qualquer condição para isso. Foi fiel a Deus mesmo nos dias mais sombrios, terminados na prisão e com o seu enforcamento. Em suas reflexões teológicas, expressão do encontro do limite humano com o inesgotável amor de Deus, deixou-nos um legado espiritual imprescindível: Deus se dá a nós no paradoxo da vida.

Foi com esse espírito que na manhã do dia 05 de outubro, um pequeno grupo ecumênico, com representação católica, anglicana, luterana, presbiteriana e batista, se reuniu para rezar a partir da fecunda vida desse grande teólogo, um pioneiro do movimento ecumênico. Para orientar esse momento, o CEPAT convidou Karin Hellen Kepler Wondracek, psicanalista, doutora em teologia e pesquisadora da relação entre psicanálise e fé.

Atividade "Rezar com os Místicos" com o tema: Dietrich Bonhoeffer (Foto: Igor Sulaiman Said Felicio Borck)

Em conformidade com o nome dado a essa iniciativa, Rezar com os Místicos, Wondracek proporcionou momentos de silêncio, meditação e oração a partir de excertos da obra de Bonhoeffer. Segue, abaixo, algumas de suas reflexões acerca da fecundidade da experiência da solidão, da meditação e da oração, retiradas da obra Vida em comunhão (3. ed. rev. São Leopoldo: Sinodal, 1997: p. 54, 58).

Eis os excertos.

“Quem não suporta a solidão, que tome cuidado da comunhão, pois só causará dano tanto a si próprio como à comunhão. (...) Concluímos pois: sozinhos podemos ficar somente se estivermos na comunhão. Só na comunhão aprendemos a estar sozinhos no sentido correto; e somente na solidão aprendemos a viver de modo correto na comunhão. Uma coisa não precede à outra; ambas começam ao mesmo tempo, a saber, com o chamado de Jesus Cristo.

Isoladamente, todas as situações encerram abismos e perigos profundos. Quem quer ter comunhão sem ficar solitário, esse mesmo cai no abismo vazio das palavras e emoções; quem procura ficar sozinho sem pertencer à comunhão, esse mesmo perece no abismo da vaidade, do amor próprio e do desespero.

Quem não suporta a solidão, que tome cuidado da comunhão. Quem não se encontra na comunhão, que tome cuidado da solidão.

(...)

Acima de tudo, porém, não é imprescindível que façamos experiências inesperadas e extraordinárias na meditação. Isso pode muito bem acontecer. No entanto, se não acontecer, isso não é sinal de que a meditação foi em vão. Sempre de novo, e não só no começo, experimentaremos períodos de grande aridez e apatia interior, aversão e incapacidade de meditar.

Tais experiências, porém, não nos devem deter. Acima de tudo, porém, não nos devem fazer desistir de observarmos o tempo reservado à meditação com grande persistência e fidelidade, agora mais do que nunca. Por isso não é bom tomarmos muito a sério as tantas experiências desastrosas que fazemos conosco mesmo na meditação. Pois dessa maneira a antiga pretensão ilícita perante Deus poderia insinuar-se por rodeios piedosos, como se tivéssemos direitos a toda uma serie de experiências edificantes e felicitantes, e como se a experiência de nossa pobreza interior fosse indigna a nós. Com tal atitude, porém, não faremos progresso.

Impaciência e auto-acusação apenas fomentam a vaidade e nos enrolam cada vez mais na rede da auto-observação. Para isso, porém, não há tempo na meditação, como aliás não o há de forma alguma na vida cristã. A atenção se prende unicamente à Palavra, e tudo confia (n)a sua eficácia. Não poderia ser que o próprio Deus nos envia as horas vazias e áridas, para aprendermos novamente a esperar tudo de sua Palavra? “Busca a Deus e não a alegria” – eis a regra áurea de toda meditação. Se procurarmos a Deus somente, teremos alegria – eis a promessa de toda meditação”.

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