16 Julho 2026
O prefeito e os moradores da pequena cidade do Maine onde balas do ICE mataram um migrante colombiano de 26 anos estão exigindo que a polícia estadual seja incluída nas investigações para garantir a transparência.
A reportagem é de Patrícia Caro, publicada por El País, 16-07-2026.
No cruzamento das ruas Hill e Pool, o sangue de Johan Sebastián Durán Guerrero, o colombiano de 26 anos morto a tiros por um agente do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) na última segunda-feira em Biddeford, Maine, ainda não foi lavado. Rabiscado com giz no asfalto, o lema "Isto é sangue" pode ser visto ao lado das manchas de sangue que cobrem a rua. Na esquina, moradores montaram um memorial. Flores, cartazes contra o ICE e mensagens de apoio à vítima — que deixa esposa e uma filha de três anos — refletem a indignação de uma comunidade que acredita que a morte de Durán Guerrero poderia ter sido evitada.
Pouco depois das 7h da manhã de segunda-feira, o jovem colombiano saiu de casa, que estava sob vigilância de agentes de imigração, para ir trabalhar. O encontro se mostrou fatal, e as perguntas sobre o ocorrido continuam a assombrar os moradores desta pequena cidade, predominantemente operária.
As informações oficiais demoraram horas para serem divulgadas e, mesmo assim, houve contradições sobre se Durán Guerrero era realmente a pessoa procurada pelo ICE. Uma amiga do falecido disse ao jornal local, o Portland Press Herald, que o colombiano estava pagando o financiamento do Kia que dirigia, que estava registrado em nome de outra pessoa. Ela suspeita que os agentes estivessem procurando o dono do veículo.
Três dias depois, os fatos permanecem obscuros. A versão do Departamento de Segurança Interna, que supervisiona o ICE, é de que o agente que disparou os tiros fatais o fez por se sentir ameaçado. Mas, assim como nos casos das mortes de Renée Good e Alex Pretti em Minneapolis, em janeiro, e, na semana passada, na de Lorenzo Salgado Araujo em Houston, a versão apresentada pelas autoridades diverge daquela fornecida pelas testemunhas.
“Eles algemaram um homem morto”
Corey Poulin recebeu uma ligação da polícia três minutos após a morte de Durán Guerrero. Sua loja de penhores fica ao lado de uma lavanderia, os dois estabelecimentos localizados no cruzamento onde o colombiano foi morto. Os policiais não usavam câmeras corporais e pediram as imagens da câmera de segurança da loja. “Dá para ver o carro fazendo a curva no cruzamento e, em seguida, um Ford Explorer branco bateu no veículo para impedi-lo de virar. Vimos eles tirarem a pessoa do carro e algemá-la, mas acho que a essa altura ela já estava morta”, disse ele ao jornal. “Quando tiraram o corpo do carro, ele bateu com força no chão. A cabeça, o rosto… tudo. Algemaram um homem morto”, acrescentou.
Durán Guerrero morava a poucos metros de onde morreu. Os vizinhos o lembram como um jovem gentil que vivia com a esposa e a filha de três anos, agora órfã. “Ele costumava vir aqui lavar roupa com a filha. Não o conhecíamos pessoalmente porque ele não falava nossa língua”, explica Poulin. Durán Guerrero trabalhava como entregador da DoorDash e fazia faxina em uma clínica veterinária para sustentar a família, um perfil que não corresponde ao dos criminosos perigosos que o governo Trump alega que o ICE está prendendo.
Do lado de fora da loja de penhores, uma placa exibe uma faixa com uma enquete: “Nosso presidente é: A. Fascista; B. Estuprador; C. Pedófilo; D. Todas as alternativas acima.” A letra “D” está marcada.
Mais cartazes encostados na parede da calçada oposta formam o pequeno memorial que os vizinhos ergueram no local do incidente. “Johan Sebastián Guerrero importa”, “Somos melhores do que isso” e “Foda-se a imigração” são algumas das frases misturadas com fotos e desenhos dedicados ao colombiano falecido. As pessoas se aproximam para deixar flores ou, nas palavras de uma mulher que prefere não se identificar, “para homenagear o morto”. Ela não mora em Biddeford; vive em Connecticut e é uma das turistas que vêm a esta região litorânea para aproveitar o mar no auge do verão. Ela não esperava que uma tragédia como essa acontecesse durante suas férias.
“Se não há treinamento, se não há limites para o comportamento deles (do ICE)... Eu não sei todos os detalhes do que aconteceu, porque eles não estavam usando câmeras, mas não acho que ninguém mereça morrer no final dessa interação. Encontrar a morte enquanto dirigia para o trabalho em uma cidade tão tranquila e pacífica. De onde vem essa violência? Por quê?”, perguntou ela, visivelmente emocionada.
A necessidade de recorrer à gravação de Poulin não teria surgido se os policiais tivessem usado câmeras corporais, como o Departamento de Segurança Interna prometeu fazer meses atrás. “É inaceitável, considerando a quantia de dinheiro destinada a essa agência. O orçamento do Departamento de Polícia de Biddeford é inferior a US$ 10 milhões, e nós temos condições de arcar com isso. Por que o governo federal não faz o mesmo?”, criticou Liam Lafontaine, prefeito de Biddeford, em declarações ao El País.
“Exijo uma investigação completa, transparente e minuciosa, e solicito que as principais autoridades policiais continuem participando, pois precisamos de uma investigação justa e independente. A família merece justiça, assim como nossa cidade”, declarou Lafontaine. O prefeito está em contato com a governadora do Maine, Janet Mills, do Partido Democrata, e com os senadores estaduais, o independente Angus King e a republicana Susan Collins, que pediram em Washington uma investigação transparente que inclua as autoridades policiais estaduais.
Lafontaine saudou o anúncio feito pelo ICE na terça-feira de que suspenderia as abordagens de trânsito para deter migrantes, em resposta a duas mortes em menos de uma semana. “Essas abordagens de trânsito são perigosas e as táticas usadas pelo ICE não são seguras. Certamente, elas não tornaram Biddeford um lugar seguro na manhã de segunda-feira”, disse ele.
Antes da entrevista com este jornal, o prefeito havia declarado em um comunicado à imprensa que esperava que a proibição fosse “permanente, e não uma medida temporária de relações públicas do ICE”.
No entanto, a medida teve vida curta. Na manhã de quarta-feira, o presidente Trump exigiu que a agência revertesse sua decisão. “Os homens e mulheres do ICE estão fazendo um ÓTIMO trabalho, um trabalho que precisa ser feito”, escreveu o presidente em sua conta na rede social Truth. “NÃO PODEMOS abrir mão de uma das ferramentas mais importantes e eficazes do ICE no combate ao crime: AS BLOQUEIOS DE TRÂNSITO! Se fizermos isso, estaremos fazendo o jogo dos criminosos. Os ‘democratas’ da esquerda radical gostariam que isso acontecesse, mas não acontecerá enquanto eu estiver no comando. ICE, sejam sábios, justos e inteligentes, e voltem a fazer seu trabalho importantíssimo”, acrescentou.
Protestos e vigílias
A morte de Durán Guerrero deixou uma marca indelével em Biddeford, uma cidade com uma população imigrante significativa e bem integrada à comunidade. “Eles são donos de empresas, trabalham em nossas escolas e em nosso hospital, e são líderes cívicos e religiosos em nossa cidade. A comunidade imigrante é importante e vital para Biddeford”, afirmou o prefeito.
Esta cidade não é tão grande quanto Minneapolis, onde as manifestações foram massivas em janeiro após as mortes de Good e Pretti, mas os moradores também foram às ruas para protestar. A última vigília estava marcada para quarta-feira no Mechanics Park, um ponto de encontro social em Biddeford. Os protestos se espalharam para outras partes do estado. Na cidade vizinha de Scarborough, moradores protestaram em frente ao centro de detenção do ICE, e centenas se manifestaram em Portland, a cerca de 24 quilômetros de distância.
Gigi Gull, um contador de 46 anos, é um dos que protestam contra o ICE. Ele foi até o cruzamento onde Durán Guerrero morreu para deixar um buquê de flores. Ele não conhecia a vítima, mas seus olhos se enchem de lágrimas enquanto fala sobre o ocorrido. “Passei de carro pela área logo depois que aconteceu, antes da chegada da maioria das autoridades, e vi Sebastián caído no chão. É um momento muito triste para o nosso país”, diz ele, mal conseguindo conter as lágrimas.
Os moradores da cidade querem respostas, mas não há muita confiança no resultado. "Eu esperaria uma investigação transparente, mas não sei se isso é sequer possível no clima atual", destaca Gull.
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