'O Mensageiro' é um dos filmes mais interessantes dos últimos tempos. Artigo de Inácio Araujo

Cineasta Lucia Murat | Foto: Ana Paula Oliveira Migliari / Flickr

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

28 Setembro 2024

"Entre os altos e baixos que traz, "O Mensageiro" é um dos filmes recentes mais interessantes que se tem visto nos últimos tempos. No mais, é um espetáculo que corre suavemente, evita o mau gosto (tão facilmente encontrável em cenas onde tortura está envolvida) e em que os momentos bons fazem esquecer as limitações", escreve Inácio Araujo, crítico de cinema, sobre o filme “O Mensageiro”, em artigo publicado por Folha de S. Paulo, 20-09-2024.

Eis o artigo.

A tortura é um fato central no cinema de Lucia Murat desde pelo menos "Que Bom Te Ver Viva". A tortura, o exílio, a morte e a sobrevivência, a angústia estão presentes em seus filmes, que são um dos testemunhos mais fortes sobre o período da ditadura militar no Brasil. Talvez nos melhores de seus filmes existam encontros inesperados, como no caso deste "O Mensageiro" e também de "Quase Dois Irmãos" (2004).

Aqui, num primeiro momento, o que está em cena é a dor: a prisão, as lesões de tortura, a perna infeccionada, o sentimento misto de ódio e desmoralização, o orgulho da resistência e a depressão. Tudo isso está nas imagens que o filme nos traz de Vera (Valentina Herszage), a jovem heroína em risco de perder uma perna como decorrência dos maus tratos sofridos.

Não sentimos a representação: existe verdade, ali. Lembra por segundos um filme de Bresson (Robert): não é uma atriz que está em cena, mas um modelo. Aliás, Lucia Murat se empenha em diminuir-lhe a expressividade consideravelmente. Seus olhos estão quase sempre ocultos pela luz de Jacob Solitrenik.

Esse quê bressoniano repete-se na figura de Armando (Shi Menegat), o soldado mensageiro, isto é, aquele que, embora viva no mesmo lugar em que se passam as torturas, se mostra mais solidário à torturada dos que aos torturadores. Também Menegat é, antes de tudo, um físico: um porte longilíneo junto a uma expressão um tanto infantil, de quem não entende muito bem o que acontece, mas entende a dor da mulher prisioneira.

Ele é quem se prontifica a levar uma mensagem de Vera para a família. A operação envolve riscos, inclusive o de ser denunciado pelo amigo, bolsonarista "avant la lettre" (é perceptível a intenção de aproximar o anticomunismo doentio do rapaz tanto da postura da atual extrema-direita quanto do tipo do adepto da repressão dos anos 1970).

A outra parte do filme é bem menos animadora. Quase tudo que acontece na casa dos pais de Vera está em outro andamento: Lucia Murat regride a um realismo clássico, imitativo e um tanto poeirento, ainda que evite aquela eclosão de sentimentos que pode por a perder qualquer filme.

Já o namoro de Armando com a jovem proletária é algo que merece discussão. A superposição das imagens da garota e de Vera fazem supor que a verdadeira paixão do mensageiro seja pela prisioneira. Isso pode ser recebido pelo espectador, justificadamente, como um movimento psicológico: ele só se torna mensageiro por amor à torturada, e não pelo fato de ela ter sido torturada. Isso banaliza toda a relação entre ambos (entre todas as personagens, a rigor) sem acrescentar nada substancial à trama.

Entre os altos e baixos que traz, "O Mensageiro" é um dos filmes recentes mais interessantes que se tem visto nos últimos tempos. No mais, é um espetáculo que corre suavemente, evita o mau gosto (tão facilmente encontrável em cenas onde tortura está envolvida) e em que os momentos bons fazem esquecer as limitações. É, sem dúvida, um filme a ver.

Leia mais