Transição ecológica em um mundo finito. Artigo de Tomás Tarquinio

Foto: Eduardo Berliner

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

05 Janeiro 2024

"Ainda permanece a ilusão que será possível desacoplar, ou dissociar, o crescimento da riqueza dos danos causados aos quatro componentes da ecosfera", escreve Tomás Togni Tarquinio, antropólogo pós-graduado em Prospectiva Ambiental pela EHESS (França), em artigo publicado por A Terra é redonda, 04-01-2024.

Eis o artigo.

A Terra é finita. Com apenas treze mil quilômetros de diâmetro, distância que separa Paris de Montevideo, o planeta restará do mesmo tamanho por bilhões de anos. Um insignificante corpo celeste vagando no espaço, porém excepcional: único que abriga vida, ao nosso conhecimento. No entanto, nós o concebemos como ilimitado e cuja função é nos servir.

No registro sagrado, a visão é antiga; está presente nos primeiros versículos do Genesis. No registro profano, a visão utilitarista da natureza se afirmou bem mais tarde. No século XVII, René Descartes a sintetizou colocando os humanos no pedestal como “maître et possesseur de la nature”. No século XX, Joseph Schumpeter atualizou o conceito ao afirmar que a destruição criativa é o motor do capitalismo. Nas entrelinhas, o economista austríaco disse que a modernidade fóssil somente prospera em um mundo infinito. Hoje, essas ideias são cada vez mais contestadas. Nós, humanos, redescobrimos que somos natureza, que estamos na natureza e que a natureza está em nós.

A sociedade termo industrial é completamente tributária das energias fósseis. Ela se revelou incompatível com os limites impostos pela natureza. A abundância de energias fósseis e matérias primas moldou a forma como o modo de vida está organizado. E alimenta a quimera de um planeta interminável. Esse modo de produção e consumo de bens e serviços afastou os seres humanos da natureza viva e inanimada. Agora coloca em risco as condições de habitabilidade dos humanos e não humanos sobre a face da terra. O utilitarismo nos apartou da biologia – das condições que a vida prospera – em proveito da mecânica.

Face à desregulação ecológica em curso acelerado da atmosfera, hidrosfera, litosfera e biosfera (ecosfera), os defensores dessas concepções tentam preservar esse modo de produção e consumo de bens e serviços deletérios. O discurso predominante veiculado pelos meios de comunicação, igualmente presente na sociedade civil, pressupõe que a transição ecológica será realizada sem mudanças de paradigmas. Supõem que a superação do gigantesco desafio ocorrerá em um contexto de abundância de matérias primas e energia.

As limitações futuras são minimizadas e não condizem com os enormes obstáculos que a civilização termo industrial já enfrenta e enfrentará em escala mais aguda, no curto, médio e longo prazo. O suposto contexto de opulência de recursos naturais, associado ao otimismo no tocante a inovações tecnológicas, seriam componentes favoráveis à superação das dificuldades. A transição ecológica é observada como se fosse independente do enorme substrato material sobre o qual repousa a modernidade. A gigantesca escala de recursos naturais que será necessário mobilizar é insuficiente para garantir o mesmo padrão de vida. Situação agravada pelo exíguo período de tempo necessário para se construir uma sociedade pós-carbono.

Trata-se de substituir a matriz energética mundial dependente em 85% de energias fósseis (carvão, petróleo, gás), e responsável por cerca de 80% das emissões de GEE, por energias de baixo carbono (eólica, solar e nuclear que só produzem eletricidade). E introduzir novas tecnologias que exigem extrair uma quantidade de metais equivalente ao que foi retirado da litosfera desde a invenção da metalurgia.

Mas a desregulação ecológica não diz respeito apenas da vertente climática. Vem acompanhada da perda de biodiversidade, esgotamento dos recursos naturais não renováveis e poluições diversas e variadas do meio natural (água, ar, solos…).

Ainda permanece a ilusão que será possível desacoplar, ou dissociar, o crescimento da riqueza (PIB) dos danos causados aos quatro componentes da ecosfera. Ou seja, promover o crescimento da riqueza e, ao mesmo tempo, reduzir do emprego de matérias primas e energia – em termos absolutos. O aumento dos bens e serviços sempre foi acompanhado do crescente emprego de matérias primas e energia. Hoje, por exemplo, o consumo de matérias primas é superior à taxa de crescimento da economia mundial. Quanto maior for a produção e consumo, mais matéria e energia serão empregadas no processo econômico e maior será a degradação do meio natural.

A narrativa prevalente segue difusa e não estruturada. Acreditam que os mesmos privilégios oferecidos pela modernidade fóssil serão assegurados pela transição ecológica: crescimento econômico, poder de compra, mobilidade, alimentação, habitação, saúde, educação, aposentadoria, seguridade social, lazer… No entanto, a prosperidade proporcionada pela sociedade termo industrial beneficia de maneira extremamente desigual em torno de 30% da população mundial. Por exemplo, o 1% mais rico do planeta é responsável por 15% das emissões de CO2; os 10% mais ricos por 52%; enquanto que os 50% mais pobres por apenas 8%. Se os 10% mais ricos já causam esse nível de degradação da ecosfera, fica evidente que é impossível estender os benefícios desse modo de vida à parte da humanidade excluída do banquete.

No entanto, o modo de produção e consumo desenfreado de bens e serviços segue sendo visto como perene e não como transitório. Trata-se de um parêntesis de abundancia iniciado com a revolução industrial e que agora encontra limites à sua expansão. Essas restrições são impostas por leis físicas químicas e biológicas irrevogáveis e não por leis econômicas.

Atenuar e adaptar a humanidade aos efeitos nefastos causados pela desregulação ecológica requer encarar o futuro com realismo. Ainda não há clareza como o futuro será, tampouco como construí-lo. As soluções serão provavelmente diversificadas, dependendo de condições locais e regionais, com aproximação da esfera da produção e do consumo.

O futuro não será o prolongamento do modo de vida presente. A transição ecológica não se resume a mudança de infraestruturas, a substituição de energias fósseis por energias de baixo carbono. Trata-se transformação cultural que requer abandonar o modo de vida nascido com civilização termo industrial.

Ainda há tempo para construir uma sociedade pautada pela sobriedade na produção e consumo, pela moderação voluntária e compartilhada. A superação implica em saber o que produzir, para que produzir, para quem produzir e, sobretudo, como produzir, dando prioridade ao necessário e essencial, abandonando o supérfluo.

Leia mais