Se o ser humano é tão sábio, por que faz coisas estúpidas, pergunta Harari

Imagem: Niklas Ohlrogge | Unsplash

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

26 Junho 2023

O atual estágio da Inteligência Artificial (IA), mesmo com as maravilhas que já estão disponíveis com o ChatGPT, comparado com a evolução da Terra, ela não passa de uma ameba, definiu o historiador israelense Yuval Noah Harari em entrevista para o repórter português Pedro Pinto, em Lisboa.

A reportagem é de Edelberto Behs.

O autor de Homo Deus e Sapiens mostrou-se surpreso com a velocidade dos avanços da IA. Já existe ferramenta muito mais poderosa que o ChatGPT, disponível em laboratório. Pela primeira vez o homo sapiens desenvolve e se depara com uma tecnologia que pode tomar decisões por si e criar novas ideias.

Harari usou o exemplo da Bíblia. Gutenberg a imprimiu, no século XV, mas ele não criou uma única página. “Ele não tinha noção sobre a Bíblia, se era boa ou má, como interpretar isto ou aquilo”, explicou. A IA pode ser capaz de escrever uma nova Bíblia. Dentro de alguns anos existirão religiões cujo livro sagrado será escrito por uma IA, previu.

Não sabemos o que vai acontecer com a IA daqui a dez, vinte anos”, disse o historiador. O ser humano não está apto a se deparar com uma tecnologia com tal velocidade de avanços. “Nós não fomos feitos para mudanças tão rápidas e constantes. O homem precisa descansar, dormir, tirar férias”, o que um robô dispensa. Os computadores estão sempre “on”, frisou.

O problema futuro da humanidade será o estresse. “A mudança sempre é estressante” e “precisamos de tempo. Se não tivemos tempo, vamos entrar em colapso psicológico”, disse, porque “vivemos num mundo cada vez com mais demandas de entidades inorgânicas”.

Harari alerta para um perigo: a IA poderá destruir a conversação democrática, cuja base está assentada na confiança nas pessoas. “Mas o que acontece quando temos entidades que não são humanas, mas que podem conversar com você e serem ainda mais persuasivas?”

O que dá para fazer diante desse quadro, perguntou o entrevistador. Será responsabilidade dos governos, respondeu Harari, “ajudar-nos a ganhar tempo”, abrandando a velocidade de mudanças na IA. “Não podemos parar as investigações de IA, mas necessitamos de tempo de adaptação e realizar avanços mais lentos, que regulem a aplicação da IA na sociedade, o que governos já fazem com produtos”, como a introdução de um novo medicamento, exemplificou.

E mais: governos terão que introduzir uma lei extrema, “que torne ilegal a falsificação de humanos, (IA) fazendo-se passar por humanos”. Se a IA tem capacidade para uma maior evolução, Harari entende que também o ser humano poderá fazê-lo. “Humanos estão longe de descobrir o seu verdadeiro potencial. Não nos conhecemos de todo ainda”, afirmou.

No início da entrevista, Harari definiu o ser humano como “quase deus”, capaz de construir, mas também de destruir, “inclusive a nós mesmos”, apontando para o colapso na ecologia. “Se somos tão inteligentes assim, por que fazemos coisas tão estupidas?” – indagou. “É um paradoxo dos humanos sábios”, confessou.

Leia mais