Paulo de Tarso: o primeiro a evangelizar as periferias

São Paulo escrevendo suas epístolas (1618-1620). Pintura atribuída à Valentin de Boulogne (1591-1632) Fonte: Wikimedia Commons

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03 Mai 2022

 

O Papa Francisco fez uma visita de dois dias a Malta recentemente, e visitou a caverna onde supostamente São Paulo teria vivido depois de seu barco naufragar na ilha do Mediterrâneo.

 

Deus de misericórdia, na vossa admirável providência quisestes que o Apóstolo Paulo anunciasse o vosso amor aos habitantes de Malta, que ainda não Vos conheciam. Ele proclamou-lhes a vossa palavra e curou as suas doenças”, rezou o Papa na gruta.

 

Salvos do naufrágio, São Paulo e os companheiros de viagem encontraram aqui, acolhendo-os, pessoas pagãs de bom coração, que os trataram com invulgar humanidade”, disse Francisco.

 

Chantal Reynier, uma pesquisadora das escrituras especializada nas cartas de Paulo, disse que o naufrágio do Apóstolo dos Gentios em Malta (Atos 27-28) antes de morrer em Roma é o sinal de uma evangelização até os confins da terra.

 

Reynier, uma leiga consagrada formada na tradição inaciana, conta nesta entrevista por que o tempo de Paulo em Malta foi tão crucial.

 

A entrevista é de Mélinée Le Priol, publicada por La Croix, 30-04-2022. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis a entrevista.

 

Como a escala de São Paulo em Malta é diferente de suas outras viagens no mundo mediterrâneo?

 

Em primeiro lugar, não é uma viagem missionária no sentido estrito da palavra: desta vez Paulo está viajando como prisioneiro. Ele foi preso em Jerusalém por causa de sua pregação, entre outros motivos, e pediu para ser julgado em Roma – direito de todo cidadão romano.

Paulo quer mais do que qualquer outra coisa chegar a Roma, que era vista na época como o centro do mundo. Esta transferência é, portanto, muito conveniente para sua missão.

É surpreendente, no entanto, que, apesar de seu status de prisioneiro, Paulo permaneça tão livre em seu discurso. Durante a tempestade, é ele quem tranquiliza os passageiros, os alimenta, os proíbe de fugir...

Ele domina tanto a cena que quase toma o lugar do capitão!

O que o texto bíblico nos diz é que sempre se pode ser testemunha, mesmo em situação de hostilidade e grande perigo. Paulo é uma testemunha, isto é, um sinal da presença de Deus no coração da humanidade.

Por fim, devemos enfatizar o quão precisa e técnica é a descrição do naufrágio.

Esta página da Bíblia é um documento extremamente precioso para entender a navegação como era praticada no primeiro século.

 

Como uma figura tranquilizadora em um navio que ameaçava virar, Paulo não nos lembra a história de Jesus acalmando a tempestade?

 

Jesus acalmava a tempestade, enquanto Paulo apenas passa por ela. Como qualquer ser humano, ele está sujeito aos elementos, mas não pode fazer muito sobre eles! Por outro lado, ele pode ajudar seus companheiros de infortúnio a não temer que a morte prevaleça.

O texto indica que cada um dos 276 passageiros sobrevive ao naufrágio. É uma maneira de dizer que toda a humanidade está salva.

Eu vejo outro vínculo com a figura de Cristo no paralelo que pode ser traçado entre esta difícil viagem a Roma, onde Paulo morrerá como mártir alguns anos depois, e a ascensão de Jesus a Jerusalém durante sua Paixão.

 

Por que é significativo que Paulo tenha parado em uma ilha tão pequena antes de morrer em Roma?

 

Este episódio me parece um modelo de evangelização na periferia.

Afinal, Malta é uma ilha povoada por “bárbaros”, segundo o texto bíblico. É, portanto, uma periferia geográfica, mas também de civilização.

O autor dos Atos dos Apóstolos insiste assim no fato de que, antes de chegar ao centro do império, Paulo foi por toda parte, por assim dizer, até os confins do mundo.

Este é também um convite para que os cristãos não tenham medo dos lugares remotos: também ali eles encontrarão a humanidade, pois os “bárbaros” de Malta souberam acolher Paulo com generosidade.

 

Mais amplamente, que papel o Mediterrâneo desempenha no apostolado de Paulo?

 

Longe de ser um obstáculo, o mar era, pelo contrário, um vetor essencial para a difusão do Evangelho.

Paulo nunca teria conseguido percorrer essas distâncias em terra porque, na época, o barco era a maneira mais rápida de viajar.

Isso, sem dúvida, ajuda a explicar por que a atividade missionária de Paulo concentrou-se na bacia do Mediterrâneo, uma área importante de comunicação.

Ele não foi para a Síria ou Mesopotâmia, mais ao leste, embora houvesse importantes cidades comerciais e comunidades judaicas lá.

 

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