“O problema é o capitalismo”, mas os líderes evitam dizer isso. Entrevista com Leonardo Boff

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05 Novembro 2021

 

O grito da indígena brasileira Txai Suruí, filha de um dos dirigentes mais respeitados de seu país, Almir Suruí, ressoou logo na abertura da COP26: “Meu pai me ensinou que devemos ouvir as estrelas, a lua, os animais, as árvores. Hoje, o clima está mudando, os animais estão desaparecendo, os rios estão morrendo, nossas plantas não estão mais florescendo como antes. A Terra está nos dizendo que não temos mais tempo”.

Mas já é tarde demais para mudar de direção? Perguntamos isso a Leonardo Boff, um dos padres fundadores da Teologia da Libertação, aquela dos pobres e do "grande pobre" que é o nosso planeta devastado e ferido, cujo duplo - e conjunto - grito ocupou o centro de toda a sua reflexão.

 

A entrevista com Leonardo Boff é de Claudia Fanti, publicada por Il Manifesto, 04-11-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Bolsonaro também está entre os signatários do acordo sobre o desmatamento, assinado na COP 26. O triunfo da hipocrisia?

 

Nada de minimamente crível pode vir do governo Bolsonaro: com ele, a mentira tornou-se política de Estado. Apenas em um ponto ele disse a verdade: "Meu governo veio para destruir tudo e recomeçar de novo". Pena que esse recomeço seja um sinal do obscurantismo e do negacionismo científico, seja do Covid ou da Amazônia. Sua opção econômica vai no sentido exatamente oposto ao da preservação ecológica: Bolsonaro favoreceu a extração de madeira, a atividade mineraria dentro das áreas indígenas, a destruição da floresta para dar lugar à monocultura da soja e da criação de gado. Só de janeiro a setembro, a Amazônia perdeu 8.939 km² de floresta, 39% a mais que no mesmo período de 2020 e o pior índice dos últimos 10 anos. Sua adesão ao plano para reduzir as emissões de metano em 30% até 2030 é pura retórica. Na verdade, não há dúvida de que ele continuará nos caminhos do desmatamento, continuando a mentir para o Brasil e para o mundo.

 

A Amazônia sobreviverá a mais 10 anos de desmatamento?

 

O grande especialista da Amazônia Antônio Nobre afirma que, no atual ritmo de destruição, e com um desmatamento já próximo a 20%, em 10 anos poderia ser atingido um ponto sem volta, com o início de um processo de transformação da floresta em uma savana apenas interrompida por alguns bosques. A floresta é exuberante, mas com um solo pobre em húmus: não é o solo que alimenta as árvores, mas o contrário. O solo é apenas o suporte físico de uma complicada teia de raízes. As plantas se entrelaçam através das raízes e se sustentam mutuamente na base, formando um imenso balanço rítmico e equilibrado. A floresta inteira se move e dança. Por isso, quando uma planta é derrubada, arrasta muitas outras com ela.

 

Ainda estamos a tempo de intervir?

 

Os líderes mundiais evitaram cuidadosamente tocar no verdadeiro problema: o capitalismo. Se não mudarmos o modelo de produção e de consumo, nunca pararemos o aquecimento global, chegando em 2030 com aumento da temperatura acima de um grau e meio.

As consequências são conhecidas: muitas espécies não conseguirão se adaptar e se extinguirão, ocorrerão grandes catástrofes ambientais e milhões de refugiados climáticos, em fuga de terras não mais cultiváveis, cruzarão as fronteiras de estados, por desespero, desencadeando conflitos políticos. E com o aquecimento, outros vírus mais perigosos também virão, com o possível desaparecimento de milhões de seres humanos. Já agora, os climatologistas afirmam que não há mais tempo. Com o dióxido de carbono já se acumulando na atmosfera, e permanecendo lá por 100-120 anos, mais o metano, que é 80 vezes mais prejudicial do que o CO2, os eventos extremos serão inevitáveis. E a ciência e a tecnologia serão capazes de mitigar os efeitos catastróficos, mas não os evitar.

 

O senhor sempre afirmou que, sem uma verdadeira mudança em nossa relação com a natureza, não teríamos saída. A humanidade está pronta para esse passo?

 

O sistema capitalista não oferece condições para operar mudanças estruturais, ou seja, desenvolver outro paradigma de produção mais amigável para a natureza e capaz de superar as desigualdades sociais. Sua lógica interna é sempre a de garantir o lucro em primeiro lugar, sacrificando a natureza e as vidas humanas. Não podemos esperar nada desse sistema. São as experiências de baixo que oferecem esperanças de uma alternativa: do buen vivir dos povos indígenas ao ecossocialismo de base até ao biorregionalismo, que visa satisfazer as necessidades materiais respeitando as possibilidades e os limites de cada ecossistema local, criando ao mesmo tempo as condições para a realização de bens espirituais, como o sentido de justiça, a solidariedade, a compaixão, o amor e o cuidado por tudo que vive.

 

 

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