No coração da Amazônia brasileira, a Covid-19 mata sem causar notícias

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

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04 Junho 2020

“Mais um luto. Carlinhos está morto. Perdemos um filho da terra. Um professor. Era o pilar da nossa escola. Uma referência para todos”. O grito de dor da aldeia de Sapotal, na região brasileira do Alto Solimões, chega via WhatsApp: nas últimas semanas, oito pessoas foram atingidas pela Covid. Três eram idosos, dois professores.

A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 03-06-2020. A tradução é de Luísa Rabolini.

“Os números dos mortos não são números, são histórias de vida. Vidas cuja perda tem um enorme impacto nas comunidades. Deveríamos parar e pensar no que representa para eles verem seus idosos morrerem, guardiões do saber ancestral. E os professores, que custou tanto sacrifício formar e representam a ponte entre a cultura tradicional e os valores”, afirmam María Eugenia Lloris Aguado, missionária da Fraternidade do Divino Verbo e Raimunda Paixão, leiga e índia. Ambas fazem parte da equipe itinerante, uma das poucas instituições a visitar as pequenas aldeias indígenas espalhadas ao longo do curso do "Grande Rio". O rio Amazonas percorre os 7.500 quilômetros quadrados da Pan-amazônia, o "coração do mundo", como uma artéria vital. A pandemia, no entanto, a transformou na "estrada do contágio".

Amazônia
(Reprodução: Google Maps)

Vale do Javari
Mapa: Reprodução

O vírus chegou primeiro nas metrópoles amazônicas: a Iquitos peruana e as brasileiras Belém, Parintins e Manaus, onde existem quase 20 mil casos e 1.500 mortes "oficiais", mesmo que o número real possa ser muito maior. "Seguindo o curso do rio, a principal rota de comunicação da Amazônia, e dos vários afluentes, o coronavírus penetrou profundamente na floresta, além das fronteiras do Peru e da Colômbia", afirmam os missionários.

Os dados mais recentes divulgados pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (Repam), na sexta-feira, falam de mais de 155 mil casos e quase 7.500 mortes em toda a região, que abrange nove países. Destes, 86% dos doentes (quase 134 mil) e 88% das vítimas (mais de 6.600) estão concentrados na Amazônia brasileira, o epicentro da pandemia na América Latina, com mais de meio milhão de infectados e 30 mil mortes.

Das vinte cidades brasileiras com mais cem mil habitantes infectados e mortos, 14 estão às margens do Grande rio. E os números estão crescendo dia a dia. Embora, na maioria das vezes, doentes e mortos na floresta não sejam incluídos nas estatísticas. "Por esse motivo, não temos palavras para agradecer ao papa Francisco".

Alto Solimões
(Reprodução: Google Maps)

No domingo, no final de Regina Coeli, o Papa fez um apelo sincero em defesa da Amazônia e dos indígenas "particularmente vulneráveis". A mensagem tocou fundo o povo da região - religiosos, bispos, líderes indígenas, os cardeais Claudio Hummes e Pedro Barreto - que, através da Repam, enviaram um sincero agradecimento a Francisco pela proximidade na tragédia.

Parintins
Mapa:Reprodução

Em Tabatinga, capital do Alto Solimões, foram confirmados 760 casos e 58 pessoas morreram. Destes, treze eram indígenas Kokama e Tikuna. A partir daí, a infecção se espalhou para Benjamin Constant, a duas horas de barco, onde já existem 356 positivos e 15 mortes. “O medo é que o vírus chegue agora a Atalaia do Norte, a porta de entrada para o Vale do Javarí, lar de sete grupos étnicos e 15 povos em isolamento voluntário, o maior número do planeta. Se a Covid chegar, seria um massacre. Não há médicos ou atendentes em todo o vale ", destacam María Eugenia e Raimunda.

A fragilidade crônica do sistema de saúde da Amazônia - resultado do desinteresse dos governos - explica, em parte, por que a mortalidade da Covid entre os índios seja o dobro em comparação com a restante da população - 12,6 contra 6,4% - segundo a Associação dos Povos Indígenas Brasileiros (Apib). O outro fator determinante é a curta memória imunológica dos nativos, o que os torna presas fáceis de vírus. É por isso que, com a disseminação da Covid-19, muitas comunidades tentaram se fechar aos visitantes. Isso não é fácil, uma vez que os caçadores de recursos - madeira e ouro - estão aproveitando a pandemia para avançar no território.

Benjamin Constant
Mapa: Reprodução

Benjamin Constant
Mapa: Reprodução

O povo Yanomami lançou uma campanha, através da Survival international, para expulsar 20.000 mineiros ilegais de suas terras entre o Brasil e a Venezuela. Segundo o Instituto socioambiental, por causa destes últimos, é provável que xawara, como os Yanomami chamam a epidemia, atinja 5.600 nativos, 40% do total.

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