Robert Sarah, um cardeal pega em armas

Cardeal Robert Sarah. Foto: Paul Haring | Catholic News Service

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

16 Janeiro 2020

Mesclando testemunho pessoal e argumentos de fundo, o prefeito da Congregação para o Culto Divino, Robert Sarah, defende com força o celibato em seu livro Des profondeurs de nos coeurs [Do fundo de nossos corações]. Mas a polêmica sobre o envolvimento de Bento XVI enfraquece a proposta.

O texto é de Jean-Pierre Denis, publicado como editorial da revista francesa La Vie, 15-01-2020. A tradução é de André Langer.

Bento XVI está cansado. Ele não consegue mais andar, mal consegue escrever ou pregar, ouve mal, sua voz está sumindo (1). Quanto à sua perspicácia política, ela não se estabeleceu. Esse grande homem espiritual é ainda ingenuamente confiante em admiradores que às vezes são mais zelosos do que escrupulosos. Do fundo de nossos corações, ainda não tinha chegado às livrarias e ficamos sabendo que o papa emérito negou, pela boca de seu secretário, que ele era o coautor. Ele teria enviado um artigo seu para o cardeal Sarah, dizendo-lhe para fazer o que quisesse. O que não faz dele um livro coassinado. E menos ainda um duro golpe contra seu sucessor, que ele nunca traiu.

100% ratzingeriano

Então, vamos ler o famoso artigo. Encontramos nele a precisão do pensamento, a força da argumentação e a clareza da escrita, que foram os traços característicos do professor Ratzinger escrevendo na Communio. Seu texto oferece um verdadeiro prazer de ler. É breve – cerca de 40 páginas, prévia dedução de longas autocitações, como se o ateliê do pintor tivesse apoiado a mão do mestre. Mas não há nenhuma dúvida sobre o fundo, 100% ratzingeriano.

O papa emérito defende o celibato dos padres ressaltando a articulação entre o Antigo e o Novo Testamento. O culto católico é ao mesmo tempo crítico e superação em Jesus do culto do Templo. De fato, em muitas religiões, o exercício do culto está ligado à abstinência sexual. Mas essa é funcional, ela dura apenas para as necessidades do rito. Ora, para o padre católico, o compromisso é, ao mesmo tempo, total, permanente e definitivo. De funcional, a abstinência torna-se ontológica. Ratzinger faz acompanhar sua reflexão exegética com memórias da juventude. Sua vocação foi um dom total. Como não se emocionar com essa cultura e com esse testemunho?

Passemos para a introdução negada na véspera do lançamento do livro. Ignoremos a conclusão, inútil. Deixemos o artigo, excelente, mas sem surpresas. Vamos ao corpo do livro. Seu autor, o cardeal Sarah, também se emociona quando evoca vividamente sua juventude, as missões difíceis, a alegria das comunidades que o acolheram. Encontramos o homem corajoso, fiel aos seus ideais, que arriscou sua vida contra o ditador guineense Ahmed Sékou Touré. Para ele, renunciar ao celibato seria uma espécie de capricho de ricos infligido aos pobres e também um desastre missionário. A Igreja não tem falta de vocações, mas de fé, acredita, novamente com uma força que leva à convicção. O elogio do “radicalismo evangélico” é revigorante.

Argumentos superficiais ou tendenciosos

Infelizmente, alguns argumentos são muito superficiais, especialmente quando o autor evoca em alguns clichês o lugar das mulheres na Igreja. Ou tendenciosos, na medida em que ele opõe um ideal magnífico, o seu, a uma triste realidade, a daqueles que pensam diferentemente dele. Obviamente, o cardeal não será criticado por seu pronunciado gosto pela polêmica. Ele tem talento tanto no conteúdo como na forma.

Em sua alma e consciência, ele sente a ardente necessidade. Mas sua maneira de embelezar sua própria imagem enquanto demoniza seus adversários intelectuais enfraquece o argumento. Quer ordenar padres casados em alguns casos, em certas situações, por exemplo, na Amazônia? Pensa às vezes nisso enquanto se barbeia? A questão é entendida: você tem uma “mentalidade desprezível, neocolonialista e infantilizante” ou, pior ainda, você é “um acadêmico ocidental”, a menos que seja “um bispo do Ocidente ou mesmo da América do Sul”. O que certamente seria horrível. Não é, Jorge Bergoglio?

Nota do IHU

1.- Recente documentário da televisão da Baviera, Alemanha, retrata as condições físicas do bispo emérito de Roma. O vídeo pode ser visto aqui.

Leia mais