‘Dor e Glória’: uma peça teatral rica e comovente de Pedro Almodóvar

Capa de divulgação do filme Dor e Glória, de Pedro Almodóvar

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

16 Outubro 2019

"Almodóvar é de uma tal estatura que um artigo sobre um de seus filmes – como este que você está lendo – começaria focando no diretor ao invés de focar em Antonio Banderas, estrela do filme e que atuou em oito filmes de Almodóvar ao longo de quatro décadas".

O comentário é de John Anderson, crítico de televisão da The Wall Street Journal e colaborador do The New York Times, publicado em America, 09-10-2019. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis o artigo.

O plano para Pedro Almodóvar, quando criança na Espanha fascista, era que o menino se tornasse padre – algo sugerido na maravilhosamente rica e comovente “Dor e Glória”, sua peça teatral altamente, ainda que não inteiramente, biográfica. O plano de Deus não foi esse. Em vez disso, Almodóvar se tornou um dos maiores diretores e, talvez, o único cineasta estrangeiro amplamente conhecido nos Estados Unidos. “Dor e Glória” é, na verdade, apresentado nos créditos como um “filme de Almodóvar”.

Mas Almodóvar tinha vocação e, certamente, ainda vem sendo um pescador de homens – e mulheres – com o seu jeito virtuoso com os atores, com uma precisão incrível nos detalhes e com sua maneira de conduzir melodramas em frente dos espectadores prendendo os seus corações com uma verdade que fala à emoção. É uma técnica, claro, uma estratégia, da qual podemos nos cansar. O que é o lugar onde “Dor e Glória” adentra a vida do diretor do filme Salvador Mallo.

Almodóvar é de uma tal estatura que um artigo sobre um de seus filmes – como este que você está lendo – começaria focando no diretor ao invés de focar em Antonio Banderas, estrela do filme e que atuou em oito filmes de Almodóvar ao longo de quatro décadas, iniciando com “Labirinto de Paixão”, em 1982 (e, depois, “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”, “Ata-me!” e, mais recentemente, “Estou tão Animado”). Que Bandeiras atue como ator principal em “Dor e Glória” parece normal; ele é o avatar preferido do diretor. O elenco faz lembrar “”, em que o muso de Federico Fellini, Marcello Mastroianni, interpretou um diretor a ruminar (e lamentar) a paisagem arrasada de seu passado romântico, tentando desesperadamente encontrar o seu talismã.

Uma das maiores diferenças destas duas visões retrospectivas de uma vida de cineasta é que Salvador Mallo desiste de procurar o talismã. Ele encontra-se grandemente indisposto, e Bandeiras, sempre mais carismático, não obstante entrega uma performance um tanto abatida. Aparentemente o personagem é muito próximo do Almodóvar da vida real – Bandeiras veste as roupas do diretor, o cabelo é uma homenagem, e ambos usam o apartamento do cineasta como lar de Salvador.

A “dor” do título é bastante real também. Salvador não está necessariamente faminto por ideias criativas tanto quanto o está cansado. Ele tem artrite, bursite, zumbido e, o que não deve ser surpresa, depressão. Submeteu-se a uma fusão espinhal, algo que a representação de Bandeiras fará os espectadores sentir profundamente, tenham eles dores nas costas ou não. Salvador também sofre de dores de cabeça, o que o leva a se tratar com heroína.

Quando sob o estado eufórico em decorrência do uso de drogas – ou mesmo quando não está sob o efeito delas –, Salvador irá fechar os olhos e viajará de volta no tempo. Talvez ele tenha perdido a vontade de trabalhar, mas não a de criar algo, de alimentar uma centelha divina de criação, mesmo se for apenas em suas memórias. Visitamos a sua escola, onde as aulas de canto o livravam dos trabalhos de sala de aula e, consequentemente, “elas me transformaram em um ignorante”.

Há as catacumbas caiadas onde a sua família necessitada viveu (“como os primeiros cristãos”, alguém diz). Há a idílica beira do rio, onde a sua mãe e outras mulheres lavam as roupas de cama e as penduram em arbustos de jasmim para sacar. Tudo, principalmente os interiores, são simplesmente belos demais para ser qualquer outra coisa que não a obra de uma imaginação exaltada – e isso inclui sua mãe, Jacinta. Interpretada por Penelope Cruz, ela não parece ser a mãe de alguém, exceto talvez de Salvador em um sonho febril extático. (Como idosa, a personagem é interpretada por Julieta Serrano.)

O uso de heroína por Salvador – é um hábito? – surge de sua reunião com Alberto Crespo (Asier Exteandia), quem atuou para ele nos anos 80 e com quem se desentendeu havia 30 anos. A contemplação desse velho filme é algo como um desastre: Salvador e Alberto fazem uma sessão de perguntas e respostas por telefone, enquanto consomem drogas. O interesse renovado em seu trabalho, no entanto, mexe com a criatividade de Salvador e libera a sua honestidade inata. A certa altura, Salvador admite que acredita em Deus quando precisa dele – algo que a sua decrepitude física tem feito acontecer com mais frequência. De outro modo, ele é “ateu”, embora o diga de uma maneira que sugere que ele deseja que saibamos que está sentindo vergonha neste momento: a “glória” do título, afinal, tem a ver com a ressurreição. E Salvador é inteligente demais para não reconhecer as conexões.

 

 

Leia mais