De Lacan a Almodóvar: mudar de vida mudando de pele

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29 Mai 2011

"Eu busco o rosto que eu tinha / antes que o mundo fosse criado." Alessandra Lemma (foto) é psicanalista, mas recorre aos versos de Yets para dizer aquele desejo onipotente de um corpo ainda não contaminado pelo olhar do outro e pela consciência da fragilidade que marca a condição humana.

A reportagem é de Luciana Sica, publicada no jornal La Repubblica, 27-05-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

"O corpo – diz a analista – pode ser sentido como aberto ou fechado, comunicativo ou monádico, como o lugar do encontro ou da rejeição, mas, inevitavelmente, `somos seres olhados no espetáculo do mundo`, para usar a expressão de Lacan: expostos aos pensamentos e aos sentimentos dos outros, sem poder controlá-los. O corpo, portanto, remete desde sempre à identidade também social, mas hoje é algo diferente, é um `projeto pessoal`, é a versão de nós mesmos que preferimos, com um implícito distanciamento do que somos e não queremos ser".

Nascida em Gênova, mas desde sempre em Londres, Alessandra Lemma escreveu um livro sobre as razões profundas que levam mulheres e homens de todas as idades a modificar o corpo, através de práticas difundidas, como a cirurgia plástica, as tatuagens, os piercings.

Ela tem 45 anos, leciona no University College London, pertence à Sociedade Britânica de Psicanálise e é editora de uma prestigiosa coleção publicada pela Routledge, trabalha na Clínica Tavistock, vinculada a grandes nomes como Winnicott, Bion, Bowlby.

Já publicou mais de uma dezena de livros, mas este é o primeiro a ser publicado na Itália e intitula-se Sotto la pelle [Sob a pele] (Ed. Cortina, 230 páginas).

Eis a entrevista.

Por que é tão necessário, senão compulsivo, o desejo de mudar a pele que se habita, nas palavras do filme de Almodóvar?

Porque – pela dificuldade de" representar" o que se viveu e muitas vezes ainda queima – as palavras e os pensamentos são substituídos por ações sobre o corpo e, às vezes, contra o corpo, onde concretamente se localiza o sentimento da insuficiência. De acordo com a minha experiência clínica, uma nova tatuagem, assim como a enésima injeção de botox, pode, servir  para não ruir emocionalmente. São casos em que as emoções negativas – como a inadequação, a culpa, a raiva, o ódio – emergem "sob a pele" para "cima da pele". O corpo torna-se, então, uma tela que expressa as fantasias mais inconscientes.

Reivindicação, correspondência perfeita, autocriação: a senhora usa expressões aparentemente bizarras para definir essas fantasias. Entretanto, o que elas têm em comum?

Mesmo que correspondam a estados mentais qualitativamente muito diferentes, é idêntica a sua finalidade muitas vezes ilusória: a de sustentar um equilíbrio psíquico precário... Falo de fantasia de reivindicação quando o sujeito vive o corpo como estranho, advertindo dentro de si uma espécie de "objeto poluente", uma presença alienígena: modifica-o para declarar sua propriedade, o reivindica, justamente... A correspondência perfeita é, ao contrário, a fantasia que sustenta a busca de um corpo perfeito como garantia de amor e de desejo por parte de um parceiro igualmente perfeito: aquilo que eu chamo de "fusão de um Eu idealizado com um objeto idealizado". A fantasia de autocriação implica em que o nosso corpo nos "perturba", porque, por algum motivo, rejeitamos a dependência. Nesse caso, há uma queixa profunda, um "ataque de inveja" frequentemente com relação a uma mãe que viveu como um artífice onipotente, mas indisponível no plano emotivo, uma mulher que provavelmente não soube ou não pôde transmitir – com o olhar e o contrato – o dom do amor.

"Não podemos dar a luz a nós mesmos", a senhora escreve, para restituir o sentido dessas fantasias inconscientes... Mas por que é tão difícil aceitar um fato tão basilar da vida?

Porque o corpo testemunha a nosso relacionalidade. O espaço físico compartilhado da mãe e da criança nada mais é do que o protótipo da nossa dependência psíquica dos outros. Se houve dificuldades na relação com o primeiro objeto do desejo, pode ser impossível se sentir em casa no próprio corpo, que poderá, portanto, ser "representado" como "desfigurado", tornar-se instrumento paradoxal de autoafirmação ou de autodestruição. É sutil a linha divisória entre a normalidade e a patologia na busca das modificações corporais, mas quando se quer "triunfar" sobre o corpo é, no entanto, uma dor psíquica que é projetada sobre a pele.