As urgências de hoje

Marcha em direção ao TSE para o registro da candidatura de Lula, Brasília, 15-08-2018. Foto: Gustavo Bezerra | Fotos Públicas

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16 Agosto 2018

"Como se comportará a justiça, diante de um processo “legal” viciado pelos Dalagnol e Moros, a serviço do sistema? Terá sensibilidade para pensar em grande e de maneira patriota? Com decisões que levem em conta um clamor popular? Torcemos para que assim seja. Este dia 15 de agosto será chave. E a força pública como se comportará? Poderá haver provocadores à espreita", escreve Luiz Alberto Gomez de Souza, sociólogo. 

Eis o artigo. 

Fiz, há pouco, críticas ao encaminhamento de Lula e o PT no processo eleitoral. Ver a corajosa entrevista de Olívio Dutra, fundador do PT, no mesmo sentido (IHU, 15/08). Porém minhas esperanças não se cumpriram e considero com certo pesar uma página agora superada. A conjuntura mostra no presente outras prioridades e urgências.

Desde o começo separei o processo eleitoral da criminosa condenação de Lula. Lula, como afirmei, é intolerável para as classes dominantes e esse processo contra ele é radicalmente ilegítimo. Lembro a distinção entre legitimidade e legalidade no sistema neoliberal. Mas juristas de respeito tem afirmado que, mesmo com aparências de legalidade dentro do sistema neoliberal e suas leis, o processo tem vícios na raiz. Por isso os advogados de Lula lutam com instrumentos da legalidade vigente para tentar anulá-lo.

O decisivo e fundamental foi a enorme mobilização popular desta tarde em Brasília, provavelmente das maiores de que se tem notícia, comparável com a das diretas já. 20.000 pessoas ou mais se reuniram nesta tarde de 15 de agosto na capital, enquanto a candidatura Lula-Haddad era protocolada. Milhares de mensagens de todo o país choveram pelo facebook, unindo-se à manifestação. Se a aceitação de Lula era de acima de 33% nas sondagens, ela certamente subirá ainda mais nos próximos dias.

Claro que, do outro lado, a oposição assustada prepara suas manobras. Uma parte não desprezível do país é violentamente contra Lula e, em reação, afina suas armas, no interior de uma legalidade neoliberal ou, se isso não for suficiente, até por outros meios extralegais. Há que estar vigilantes e não cair naquele ingênuo “o povo unido jamais será vencido”. Foi vencido sim, aqui em 64 e em 73 no Chile.

Para os que guardamos lembranças, durante a manifestação de Brasília, não saía de minha mente a recordação do que sucedeu depois do comício de Jango em 13 de março de 1964, com o golpe logo adiante, em 1º de abril. A história não se repete, mas as manobras golpistas sim. Merval Pereira e Camaroti, usando expressão deste último naquele domingo da soltura de Lula, estão inquietos, A Globo News tentará ocultar o que passou hoje em Brasília, senão tratará de ridicularizar ou minimizar. Estará no seu papel, ao lado de um “mercado” também inquieto. Usarão togas ou, se for preciso, armas? Tudo é possível. Sempre haverá um Mourão ou um Etchegoyen em prontidão.

Em 64, apareceu o esquema de um general legalista, Assis Brasil, que era um blefe. Darci Ribeiro, partindo para o exílio, o chamou de esquema de ***. Havia muita ingenuidade ou incompetência. Além disso, nada pior do que provocação ou chamamento à insurreição, como pode gritar uma esquerda irresponsável. No Chile, o MIR fez o jogo dos golpistas. Neste momento, o chamado é à democracia e ao respeito das urnas. Legalidade, lembrando Brizola em Porto Alegre, num memorável 1961.

Como se comportará a justiça, diante de um processo “legal” viciado pelos Dalagnol e Moros, a serviço do sistema? Terá sensibilidade para pensar em grande e de maneira patriota? Com decisões que levem em conta um clamor popular? Torcemos para que assim seja. Este dia 15 de agosto será chave. E a força pública como se comportará? Poderá haver provocadores à espreita.

Resumindo, esta mobilização foi uma expressão eloquente de participação democrática e um sinal de cidadania ativa. Conseguirá fazer aflorar uma legalidade emergente? Já a marcha de 25 de maio foi um primeiro ato. Ignorada pelos grandes meios de comunicação. Um capítulo se abre agora. Insistamos na força democrática, popular e patriota. Anulando ruídos extralegais.

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