‘Mistura tóxica’ pode destruir a Amazônia, alerta pesquisador

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16 Novembro 2017

Uma “mistura tóxica” de desmatamento, fogo e aquecimento global ameaça a Amazônia de morte. Cerca de 20% da bacia amazônica já foi desmatada, e apesar da queda no ritmo de desmatamento, mais de 5 mil quilômetros quadrados de floresta continuam a desaparecer todos os anos, só no Brasil. Se essa taxa passar de 30%, grande parte da Amazônia poderá sumir nas próximas décadas, arrasada pelas motosserras, pelo fogo e pelas mudanças climáticas globais.

A reportagem é publicada por Amazônia, 15-11-2017.

Quem alerta é o cientista Carlos Nobre, pesquisador aposentado do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Mudanças Climáticas, que há décadas estuda o clima e o desenvolvimento da Amazônia.

Pesquisadores há muito tempo buscam determinar qual é o “tipping point” da Amazônia — expressão em inglês que simboliza um ponto sem volta, a partir do qual o processo de destruição da floresta se acentua, fugindo ao controle do próprio homem, e torna-se impossível recuperar aquilo que já foi perdido.

Se fosse só pelo desmatamento, esse ponto de ruptura seria de 40%. Somando-se a isso o aquecimento global e o aumento dos incêndios florestais (queimadas), esse limite fica muito mais apertado. Cria-se uma “mistura tóxica fatal” de elementos de pressão que, segundo Nobre, pode aniquilar a maior parte do que hoje conhecemos como floresta amazônica. Os ciclos hidrológicos que mantêm a floresta viva seriam alterados em grande escala, essencialmente matando-a de sede.

“Quando você põe os três juntos, provavelmente não deveríamos passar dos 20% que estamos agora. Certamente não podemos passar de 30%”, disse Nobre, em sua participação no último evento da série USP Talks, que debateu modelos de desenvolvimento sustentável para a Amazônia. O evento ocorreu no dia 25 de outubro, no teatro da Faculdade Cásper Líbero (veja os 3 vídeos abaixo).

 

Economia

Segundo Nobre, “não há justificativa econômica para desmatar a Amazônia”. Por outro lado, há muitas razões para conservá-la e estudá-la. “O grande valor econômico do século 21 é o conhecimento”, diz ele. E a Amazônia “é o grande celeiro de conhecimento sobre a bioeconomia do futuro”, baseada no uso sustentável dos recursos naturais — tema principal de sua palestra.

O que não significa que a agricultura e a pecuária devam ser expulsas da Amazônia, diz o engenheiro agrícola Eduardo Assad, pesquisador da Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias (Embrapa). O agronegócio pode ser extremamente produtivo e lucrativo na Amazônia, sem a necessidade de desmatar mais nenhum hectare, garante ele. Basta utilizar melhor as áreas que já foram desmatadas no passado, e que hoje são mal aproveitadas, porque no Brasil a terra é barata e a cultura de desmatar é muito mais enraizada do que a cultura da ciência, da tecnologia e da sustentabilidade.

O conhecimento necessário para produzir mais com menos terra já existe, há muito tempo. Falta colocá-lo em prática. “Esse discurso de que precisa desmatar para crescer está errado; é velho, ultrapassado. Não podemos defender isso; é um discurso de especulação imobiliária”, garantiu Assad, em sua participação no evento. “É possível ter sistemas sustentáveis de produção na Amazônia? Sim. Precisa ter gente, tecnologia e vontade. Nós temos tudo isso. A vontade está meio complicada, mas gente, tecnologia e capacidade para fazer isso, nós temos.” Vários estudos mostram que seria possível dobrar a produção agrícola brasileira dessa forma, sem derrubar nenhuma árvore a mais.

 

Ciência

Tanto Assad quanto Nobre destacaram a importância da ciência e tecnologia como peças-chave para o desenvolvimento sustentável (não destrutivo) da Amazônia e do país como um todo.

“Temos que fortalecer a nossa capacidade científica de descobrir, e não só copiar criticamente o que estão descobrindo lá fora”, afirmou Nobre. “Nós temos que ser grandes descobridores do conhecimento da Biologia, que o Brasil tem mais do que ninguém. Precisamos ter essa autonomia, essa vontade; preparar o país e reforçar muito a nossa capacidade científica — na contramão do que estamos vendo no Brasil nos últimos anos.”

Segundo Nobre, a ciência no Brasil está sendo “abalada, afetada, desprestigiada, massacrada”. “Eu trabalhei no governo; eu vi isso acontecendo”, disse o pesquisador, que já foi presidente da Capes, no Ministério da Educação, e secretário de políticas e programas do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), no governo Dilma.

“Estamos massacrando a ciência e a tecnologia no Brasil”, reforçou Assad. “É fundamental que a gente retome os investimentos e comecemos, então, a explorar esse potencial enorme que nós temos no Brasil. Desmontando isso não vai dar certo; só o discurso econômico não funciona.”

Para assistir a outros eventos do USP Talks, acesse nosso canal no YouTube: https://goo.gl/oaZZmT

 

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