Pedofilia: o caso Austrália

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10 Fevereiro 2017

Os números são impressionantes para a Igreja na Austrália. Desde 1950, 572 padres, dos quais 384 são diocesanos, teriam sido responsáveis por abusos contra menores. Dados que forçaram a Igreja australiana a intervir, demonstrando consciência sobre a extensão e a gravidade do fenômeno.

A reportagem é de Fabrizio Mastrofini, publicada no sítio Settimana News, 08-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Profundamente consciente do mal e da dor causados pelo abuso, mais uma vez, ofereço os meus pedidos de desculpa em nome da Igreja Católica. Sinto muito pelo dano que foi feito à vida das vítimas de abusos sexuais. Como disse o Papa Francisco recentemente, ‘é um pecado que nos envergonha’.”

Assim declarou Dom Denis J. Hart, arcebispo de Melbourne e presidente da Conferência Episcopal Australiana, em uma mensagem dirigida aos católicos do país, no dia em que, depois de quatro anos de trabalho, a Comissão de Inquérito sobre as Respostas das Instituições aos Abusos Sexuais de Menores, a mais alta autoridade de investigação sobre o fenômeno da pedofilia na história da Austrália, tornou públicos os resultados do inquérito que, desde 2013, foi feito sobre paróquias, escolas, instituições de caridade, organizações comunitárias, grupos de escoteiros e clubes esportivos, mas também governos locais e polícia.

A investigação mostra que 7% dos padres católicos da Austrália são acusados de cometer abuso de menores a partir de 1950. A idade média das vítimas era de 10 anos e meio para as meninas e de pouco mais de 11 anos e meio para os meninos. Ao todo, entre 1980 e 2015, foram apresentadas 4.444 denúncias de casos de pedofilia ocorridos em mais de 1.000 estruturas de propriedade da Igreja Católica.

“Eu escrevo a vocês – afirma a mensagem de Dom Hart – no momento em que começa a audiência final que envolve a Igreja Católica junto à Comissão Real de Inquérito sobre os Abusos Sexuais de Crianças. Para as vítimas e os sobreviventes, para a comunidade católica e a comunidade australiana mais ampla, essa audiência pode ser um momento difícil e também doloroso. A Comissão Real está analisando as provas que recebeu e tentando entender como e por que essa tragédia ocorreu.”

“Ao longo das próximas três semanas – acrescenta Dom Hart – as provas apresentadas durante as audiências da Comissão Real serão analisadas, serão publicadas as estatísticas sobre a extensão dos abusos e será explorado o caminho a seguir. Muitos dos nossos bispos e outras lideranças católicas aparecerão perante a Comissão Real. Eles terão que explicar o que a Igreja está fazendo para mudar a velha cultura que permitiu que o abuso continuasse e como pretende implementar novas políticas, estruturas e proteções para salvaguardar as crianças.”

Chega de silêncios culpados

Os dados foram apresentadas no dia 6 de fevereiro pelo advogado que assiste a Comissão, Gail Furness, que revelou que a Santa Sé negou a possibilidade de entregar os documentos relativos aos sacerdotes australianos acusados de abuso. “A Comissão – disse – esperava tomar conhecimento da ação tomada em cada caso, mas a Santa Sé respondeu que ‘não era possível nem apropriado fornecer as informações pedidas’.” Nessa passagem, obviamente há algo de pouco claro, já que, até à mudança da norma sobre os delicta graviora, a competência não era da Santa Sé, mas pertencia ao bispo local.

Em todo o caso, para o advogado Furness, resta a pergunta sobre por que e como, durante tantas décadas, não foi rasgada essa cortina de silêncio. “As vítimas foram ignoradas ou, pior, punidas. As denúncias não foram examinadas. Padres e religiosos foram transferidos, e as paróquias ou comunidades aonde eles foram transferidos não sabiam nada sobre o seu passado. Os documentos não foram conservados ou foram destruídos. Prevaleceram o sigilo e os acobertamentos.”

Até 15% dos sacerdotes em algumas dioceses foram acusados de abusos entre 1950 e 2015. Entre as congregações religiosas, destaca-se a Ordem de São João de Deus, na qual se acredita que quase 40% dos pertencentes se mancharam com abusos. Uma proporção que chegou a 32% dos Irmãos Cristãos e 20% dos Irmãos Maristas.

No entanto, as próximas semanas fornecerão respostas estatisticamente mais exatas, embora o Conselho para a Verdade, a Justiça e a Cura – formado pela Igreja australiana para responder às acusações – tenha admitido que os dados, “sem dúvida, minam a imagem e a credibilidade do sacerdócio”.

“Os números são chocantes, trágicos, indefensáveis”, admitiu o responsável pelo conselho, Francis Sullivan, que falou de um “enorme fracasso” da Igreja. A investigação também tocou o cardeal George Pell, ex-arcebispo de Sydney e agora prefeito do Vaticano para a Economia, acusado de ter acobertado abusos quando estava na diocese de Melbourne e, por isso, submetido a um longo interrogatório via videoconferência de Roma, em 2016.

Em uma mensagem publicada no site da arquidiocese, Anthony Fisher, hoje arcebispo de Sydney, declarou que, “no fim da humilhação e da purificação através das quais estamos passando, haverá uma Igreja mais humilde, mais consciente e mais compassiva”. “E o mais importante – concluiu – encorajo fortemente qualquer pessoa que deva fazer acusações de abusos sexuais que contate a polícia: eles estão em uma posição melhor para investigar.”

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