A Criação, de Haydn: luz, júbilo e louvor eterno

Yara Caznok (UNESP-SP)

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Por: Jonas Jorge da Silva | 22 Abril 2019

O oratório A Criação (1798) de Franz Joseph Haydn é um despertar para o mistério da Criação. É um reconhecimento pleno de toda a grandeza e esplendor do Criador. É uma obra crucial para espantar um estado de letargia que insiste em perpetuar a indiferença humana em relação aos bens da Criação.

Com essa inspiração, no último da 13 de abril, o CEPAT, em parceria com o IHU, promoveu uma audição comentada do oratório em questão. Com maestria, dedicação e profunda vivência musical, a professora de música Yara Caznok (UNESP-SP) introduziu os participantes na imensa riqueza de detalhes e nuanças da composição de Haydn, proporcionando uma atmosfera de encontro, acolhida e reconhecimento da música como instrumento de sensibilização, interiorização e abertura para a beleza presente no mundo.

Audição Comentada (Foto: Jonas Jorge da Silva)

Em A Criação, a partir da narrativa do livro do Gênesis, Haydn destaca como surgem todas as coisas e como as mesmas vão se entrelaçando, sempre a partir da vontade do Criador. Sua composição está organizada em três partes. Na primeira e segunda parte, descreve os seis dias da Criação (1º Dia: criação do céu, terra e luz; 2º Dia: divisão das águas; 3º Dia: terra e mar, vida vegetal; 4º Dia: sol, lua, estrelas; 5º Dia: pássaros e peixes; multiplicação; 6º Dia: animais terrestres, homem e mulher). Por fim, na terceira parte, enfatiza a presença de Adão e Eva no Éden e o seu amor mútuo.

Gabriel (“homem forte de Deus”), Uriel (“luz de Deus, fogo de Deus”), Rafael (Deus Cura) e o coro sensibilizam o ouvinte para uma experiência ímpar de encontro com a Criação. É na beleza e grandeza da Criação que se reconhece a majestade, o poder e a glória do Criador. Como não se deixar tocar? É quase impossível manter o coração duro diante da proposta de Haydn.

Do caos à luz: “Que haja luz!”. E a luz nos retira da indiferença, pois Haydn explode a indefinição, o caos e a escuridão com a força arrebatadora da plenitude da luz.  É a luz que guia toda a Criação. É a luz que ilumina as escuridões em que a humanidade também se fecha. A luz permite enxergar o Criador em todas as suas criaturas.

Pela palavra de Deus, um novo mundo brota e o sentimento de esperança acalenta o coração. Detalhadamente, Haydn produz movimentações musicais que narram com a arte dimensões do mistério da Criação que, hoje, são cruciais em prol de uma nova possibilidade para a vida em todas as suas dimensões. Redescobrir a beleza da Criação é tarefa urgente.

A cada etapa da Criação, vai se estabelecendo, em um movimento crescente, um sentimento de gratidão, um desejo intrínseco de louvar o Criador, de glorificá-lo para sempre. O sentimento de júbilo pertence a todas as criaturas: “Rejubilem-se em seu Deus!”. Daí, também, o reconhecimento de Gabriel, Uriel e Rafael: “Quantas são vossas obras, Oh Deus! Quem pode dizer seu número? Quem? Oh Deus!”; “O Senhor é grande em seu poder, e eterna permanece sua glória”.

Por fim, nas figuras de Adão e Eva, Haydn sublinha a capacidade do ser humano de amar, ressaltando a força das relações humanas quando inseridas em uma dinâmica de gratidão e louvor ao Criador. Não se caminha sozinho e a superação dos principais problemas no mundo de hoje, principalmente em um contexto de aguda crise socioambiental, passa por uma reavaliação da forma como o ser humano tem deixado de lado questões muito profundas, diretamente relacionadas à finalidade de sua vida.

 

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