Sinais vitais do planeta estão em alerta máximo, diz novo relatório

Foto: Zelch Csaba/Pexels

Mais Lidos

  • Desafios à campanha de Lula. Artigo de Frei Betto

    LER MAIS
  • As Big Techs resultam de uma nova ordem na aliança entre capital e técnica cujos efeitos ainda não são totalmente perceptíveis

    Democracia ameaçada: os novos sujeitos de linguagem da IA e o futuro em disputa. Entrevista especial com Eugênio Bucci

    LER MAIS
  • Trump tem dado um apoio muito forte à eleição de governos de extrema-direita e está também chantageando o Brasil, alerta a jornalista

    Eleições 2026 em xeque pelo fascismo americano: os vermes da extrema-direita e sua ameaça constante à democracia. Entrevista especial com Cristina Serra

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

22 Setembro 2026

Enfraquecimento dos sumidouros de carbono, como a floresta Amazônica, tem destaque no relatório sobre Limites Planetários do Instituto Potsdam.

A reportagem é de Priscila Pacheco e Cristiane Prizibisczki, publicada por Observatório do Clima, 21-09-2026.

Os sistemas de suporte à vida na Terra, incluindo a vida humana, deterioraram-se aos seus piores níveis já registrados e encontram-se “fora da zona de segurança”, mostra um novo relatório sobre a saúde do planeta publicado nesta segunda-feira (21) pelo Instituto Potsdam para Pesquisa do Impacto Climático (PIK). O relatório também indica que todos os sete limites violados em 2025 – dos nove existentes – apresentaram tendência de piora no último ano.

“O diagnóstico é inequívoco. A pressão está aumentando em todos os Limites Planetários, já fora da zona de segurança operacional. Isso significa que o risco de mudanças em larga escala, persistentes e potencialmente irreversíveis está aumentando, enquanto nossa margem de erro para lidar com esses problemas está diminuindo”, afirma Boris Sakschewski, cientista do Instituto Potsdam e principal autor do relatório.

Os limites são indicadores que avaliam até que ponto a humanidade pode pressionar os sistemas naturais sem comprometer a estabilidade e a resiliência do planeta e, consequentemente, o bem-estar humano. Os sete que já ultrapassaram a fronteira de segurança são: mudanças climáticas, integridade da biosfera, mudanças no uso da terra, alterações na água doce, modificação dos fluxos biogeoquímicos, introdução de novas entidades (poluição química) e acidificação dos oceanos.

Além de chamar a atenção para a piora nos indicadores dos limites já ultrapassados, o relatório deste ano dedica seções especiais a três temas críticos: o enfraquecimento dos sumidouros de carbono terrestres, a integridade do leito marinho e a poluição química.

Em relação ao enfraquecimento dos sumidouros de carbono, o relatório chama atenção para os sinais de estagnação na capacidade de as florestas e solos florestais de absorverem CO2, com destaque para a Amazônia, tratada como um dos componentes vitais mais vulneráveis do sistema terrestre.

Segundo o documento, o risco de a floresta tropical sul-americana – citada 36 vezes ao longo do documento – atingir o ponto de não-retorno, com a consequente savanização, é iminente. “Além de uma catástrofe ecológica, perder a Amazônia seria uma ferida moral: um sinal de que permitimos que um dos grandes mundos vivos da Terra desaparecesse sob nossos cuidados”, diz o cientista brasileiro Carlos Nobre, que assina o prefácio da edição 2026 do relatório.

Sobre os riscos para a integridade do leito marinho, o documento cita os problemas decorrentes da pesca de arrasto, a mineração profunda e infraestruturas oceânicas. “As atividades humanas estão agora alcançando partes do sistema terrestre que antes se acreditava estarem protegidas das mudanças ambientais globais, incluindo o fundo do mar, onde as perturbações afetam a biodiversidade, a ciclagem de nutrientes e o armazenamento de carbono de maneiras que estamos apenas começando a compreender”, diz o documento.

Verificação da Saúde Planetária 2026 (Fonte: PIK).

O terceiro destaque vai para a poluição química e o que os pesquisadores do Instituto Potsdam chamam de “novas entidades”, substâncias produzidas pelo ser humano, como produtos químicos sintéticos, plásticos e os polifluoralquilados, conhecidos popularmente como “químicos eternos”, devido à extrema resistência à degradação no meio ambiente, e para os quais ainda não há estudos suficientes sobre seus efeitos sobre o planeta.

“Acelerar as ações para retornar ao espaço operacional seguro em todas as Fronteiras Planetárias é essencial para proteger vidas e meios de subsistência, e para cumprir a promessa de prosperidade futura compartilhada”, diz Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam, coautor e editor do relatório, em um chamado para ação.

Dos nove limites planetários, apenas dois não foram ultrapassados: o aumento da concentração de aerossóis na atmosfera e a degradação da camada de ozônio.

Confira abaixo as informações sobre cada Limite Planetário ultrapassado.

Mudanças climáticas

A concentração de CO2 na atmosfera atingiu 426 partes por milhão (ppm), acima do nível considerado seguro, de 350 ppm. O forçamento radiativo (saiba o que é aqui) de origem humana alcançou +3,10 W/m², mais de três vezes o nível seguro de +1,0 W/m². “Isso significa que o sistema terrestre já ultrapassou amplamente a faixa de operação segura para a estabilidade climática”, diz o relatório.

Mudança na integridade da biosfera

A integridade da biosfera diz respeito à diversidade, ao funcionamento e às interações dos seres vivos em terra firme, em águas doces e nos oceanos. Esse limite já foi amplamente ultrapassado. As espécies estão sendo extintas a uma taxa superior a 100 extinções por milhão de espécies-ano (E/MSY), muito acima do nível seguro de 10 E/MSY. Os seres humanos também estão se apropriando de 21% a 30% da produtividade vegetal natural potencial, enquanto o nível seguro é de 10%.

Os pesquisadores alertam que o risco mais profundo é que a degradação contínua da biosfera reduza a capacidade do sistema terrestre de se autorregular, aumentando a probabilidade de mudanças em cascata. A integridade da biosfera é pressionada pela fragmentação, degradação e transformação de habitats naturais, principalmente pela agricultura, pecuária, silvicultura, expansão urbana e atividades extrativistas. Essas pressões são potencializadas pelas mudanças climáticas e pela poluição.

Mudança no uso da terra

Atualmente, restam 64% da cobertura florestal global, índice abaixo do nível considerado seguro, de 78%. Os impactos em curso, como as emissões decorrentes do desmatamento e de incêndios, as alterações no regime de chuvas e os surtos de pragas, podem se agravar se as florestas continuarem sendo destruídas.

Alteração na água doce

A alteração da água doce refere-se ao ciclo global da água em terra firme, incluindo aquela presente em rios, lagos, áreas úmidas, reservatórios e aquíferos, chamada de “água azul”, e a retida nos solos e nas plantas, a “água verde”. O limite planetário já foi ultrapassado tanto para a água azul quanto para a verde.

O relatório aponta que desvios significativos no fluxo dos cursos d’água afetam 22,6% da área terrestre global sem gelo, valor acima do nível seguro de 12,9%. Já os desvios significativos na umidade do solo afetam 22% da área, também acima do nível seguro de 12,4%. As alterações na “água azul” e na “água verde” aumentaram acentuadamente desde o início do século 20, ultrapassando o limite por volta da década de 1940 e se agravando desde então.

🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google

Modificação dos fluxos biogeoquímicos

Esse limite destaca o nitrogênio e o fósforo, nutrientes importantes para o crescimento das plantas. Quando aparecem em excesso, eles podem desestabilizar ecossistemas, reduzir os níveis de oxigênio na água, enfraquecer a resiliência e prejudicar a vida em rios, lagos e mares costeiros. As atividades humanas aumentaram drasticamente os fluxos de nitrogênio e fósforo por meio do uso de fertilizantes, esterco animal e esgoto.

O limite já foi ultrapassado para os dois nutrientes. A aplicação de fósforo proveniente da mineração está em torno de 18,2 teragramas (milhões de toneladas métricas) por ano (Tg P/ano), quase três vezes o nível seguro de 6,2 Tg P/ano. A fixação agrícola de nitrogênio está em cerca de 165 Tg N/ano, muito acima do nível seguro de 62 Tg N/ano.

Introdução de novas entidades

As “novas entidades” são substâncias criadas ou modificadas pelo ser humano, como produtos químicos sintéticos, plásticos e microplásticos, pesticidas, substâncias perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas (PFAS), poluentes orgânicos persistentes, materiais radioativos e agentes antimicrobianos.

O limite atual para novas entidades utiliza um indicador de precaução: a proporção de novas entidades liberadas no meio ambiente sem testes de segurança adequados. O nível seguro é definido como 0% de liberação de substâncias sem testes adequados.

A pressão sobre esse limite continua crescendo, enquanto os testes de segurança, o monitoramento e a regulamentação não avançam no mesmo ritmo. Algumas dessas novas entidades já foram detectadas globalmente na água, no solo, na vida selvagem e em seres humanos.

Acidificação dos oceanos

A acidificação dos oceanos é o limite ultrapassado mais recentemente. Ela ocorre porque o oceano absorve o excesso de CO2 da atmosfera, o que prejudica espécies sensíveis, degrada habitats e altera processos biológicos.

“Isso faz da acidificação um risco não apenas para a biodiversidade marinha, a pesca e as comunidades costeiras, mas também para o papel do oceano na regulação do clima e na manutenção da estabilidade do sistema terrestre”, diz o estudo.

Os pesquisadores explicam que o nível definido como seguro é uma saturação global de aragonita na superfície de 2,86, equivalente a 80% dos níveis pré-industriais. A melhor estimativa atual é de 2,85, valor suficiente para considerar a acidificação dos oceanos um limite ultrapassado.

Leia mais