19 Setembro 2026
O ciclo da água tornou-se “mais irregular e imprevisível”, alertou a ONU nesta quinta-feira (17), destacando que os rios de todo o mundo tiveram, em 2025, um dos anos mais secos em mais de três décadas.
A informação é publicada por Rfi, 17-09-2026.
O ano de 2025 está entre os mais quentes já registrados. Agora, também figura entre os mais secos dos últimos 35 anos em termos de vazão dos rios, segundo um novo relatório da Organização Meteorológica Mundial (OMM) sobre o estado dos recursos hídricos no mundo.
“É difícil afirmar com certeza se foi o segundo ou o terceiro ano mais seco”, mas “está entre os três primeiros”, afirmou Wayne Jenkinson, diretor da divisão de hidrologia e criosfera da OMM, durante uma coletiva de imprensa.
A situação ocorre “em um contexto de redução de longo prazo das reservas de água doce da Terra e de recuo contínuo das geleiras — tendências que terão consequências importantes para as populações e as economias no futuro”, explica a OMM em comunicado.
Segundo a agência da ONU, o ciclo da água tornou-se, de maneira geral, “mais irregular e imprevisível, oscilando entre escassez e excesso”.
Alguns componentes do ciclo da água mudam rapidamente, como as precipitações, o fluxo dos rios e a umidade do solo, reagindo às condições meteorológicas em questão de dias ou semanas.
Outros, como as águas subterrâneas, as geleiras e a cobertura sazonal de neve, evoluem mais lentamente, ao longo das estações e até de décadas ou períodos ainda maiores. Essas reservas ajudam a amortecer os efeitos dos anos de seca.
“Estamos esvaziando essas reservas”, alertou a secretária-geral da OMM, Celeste Saulo, diante dos jornalistas.
Segundo ela, “as reservas globais de águas continentais apresentam uma tendência de queda desde 2014-2016, um sinal persistente há uma década”.
Geleiras e águas subterrâneas
Pelo quarto ano consecutivo, todas as principais regiões glaciais do planeta perderam massa, de acordo com o relatório.
“As águas subterrâneas seguem essa tendência: quase dois terços dos poços monitorados no mundo apresentaram, em 2025, condições diferentes da média histórica”, destacou Saulo.
“Ao mesmo tempo, observamos um aumento dos desastres relacionados à água. O fortalecimento do El Niño aumentará o risco de secas em algumas regiões e de inundações em outras”, afirmou.
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O atual fenômeno climático El Niño continuou se fortalecendo em agosto e tem agora 75% de probabilidade de se tornar o mais intenso já registrado, segundo anúncio feito alguns dias atrás pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA).
Associado a secas, inundações e temperaturas recordes em diferentes partes do mundo, o El Niño é uma variação natural do clima que ocorre a cada dois a sete anos.
Episódios extremos
Segundo o relatório, Ásia e África concentraram, nos últimos cinco anos, pelo menos metade de todos os episódios extremos relacionados à água registrados no mundo e mais de 80% das mortes associadas.
O estudo também mostra que, nos últimos sete anos, o número de rios do mundo com vazão considerada “normal” foi o menor desde 1991. Em mais de 36% da superfície das bacias hidrográficas mundiais, a vazão ficou abaixo da média.
No caso das geleiras, a perda acumulada de massa em todo o mundo entre 2023 e 2025 chegou a 1.400 gigatoneladas de água, volume aproximadamente equivalente ao necessário para encher 560 milhões de piscinas olímpicas, cerca de um terço de toda a água doce retirada anualmente.
A OMM destaca ainda que a disponibilidade de dados sobre os recursos hídricos melhorou, mas persistem lacunas justamente em algumas das áreas mais afetadas.
“A água não respeita fronteiras. O balanço hídrico de uma bacia hidrográfica pode depender do que acontece em outro país”, afirmou Saulo, ressaltando a necessidade de compartilhar dados, padrões de monitoramento e sistemas de alerta precoce.
“Um desastre glacial em um país pode provocar devastação em outro, como demonstrou a recente tragédia que atingiu a China e o Nepal”, acrescentou.
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