Em meio a polêmicas, filme tem estreia prevista para as vésperas da eleição, aposta em linguagem hollywoodiana e aproxima Bolsonaro de figuras épicas do cinema. O roteiro descreve jornalistas como “abutres” e trata o socialismo como uma “doença infecciosa”.
A reportagem é de Marcelo Moreira, publicada por Agenda do Poder, 15-05-2026.
O filme “Dark Horse”, superprodução inspirada na trajetória política de Jair Bolsonaro, mergulha em uma narrativa que mistura política, religião, conspiração e elementos típicos de grandes épicos hollywoodianos. Previsto para estrear em 11 de setembro, poucas semanas antes das eleições presidenciais, o longa já virou alvo de polêmicas envolvendo financiamento, bastidores e o conteúdo do roteiro.
A produção foi idealizada pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP) e tem como foco principal o atentado sofrido por Bolsonaro durante a campanha presidencial de 2018. Mas, além da reconstituição política, o roteiro apresenta o ex-presidente como uma figura dividida entre dois arquétipos: o líder messiânico e o homem simples que conversa com apoiadores como “amigos em uma mesa de bar”.
Ao longo das mais de cem páginas do roteiro, escrito em inglês pelos cineastas Cyrus Nowrasteh e Mark Nowrasteh, Bolsonaro aparece cercado por simbolismos religiosos, sinais espirituais e descrições grandiosas que aproximam o personagem de figuras épicas do cinema. As informações são da Folha de São Paulo.
O tom da narrativa alterna momentos de exaltação quase divina com cenas que buscam mostrar Bolsonaro como alguém próximo da população.
Em uma das passagens do roteiro, uma jornalista pergunta ao então candidato: “Debaixo de tudo isso, o que você é?”
A resposta dada pelo personagem resume o tom da obra:
“Algo que você nunca encontrou — um homem.”
Em diversas sequências, o roteiro descreve Bolsonaro como alguém contrário à formalidade política tradicional, espontâneo, irreverente e ligado aos eleitores comuns. Ao mesmo tempo, cenas carregadas de simbolismo religioso ajudam a construir uma imagem quase messiânica do personagem.
Em um dos momentos centrais da trama, uma senhora misteriosa surge durante um almoço em família segurando uma Bíblia. Ela afirma ter sido enviada por Deus e entrega pílulas caseiras ao então candidato, dizendo que elas o protegerão de uma “febre iminente”. Pouco depois, desaparece “como um fantasma”, segundo o roteiro.
Mais tarde, após a facada, a mesma mulher reaparece no hospital e afirma:
“Deus seja louvado. Ele poupou você para a nação, para o mundo.”
A construção dramática do longa segue o modelo conhecido como “jornada do herói”, conceito popularizado pelo escritor Joseph Campbell e utilizado em franquias como “Star Wars” e “Harry Potter”.
Nesse tipo de narrativa, o protagonista começa como um personagem comum, enfrenta perseguições e obstáculos, atravessa momentos de sofrimento e retorna fortalecido, transformado em símbolo coletivo.
Em “Dark Horse”, Bolsonaro surge como um líder improvável combatendo inimigos políticos, enfrentando a hostilidade da imprensa e sobrevivendo ao atentado durante a campanha eleitoral.
O roteiro descreve jornalistas como “abutres” e trata o socialismo como uma “doença infecciosa”. Essas expressões aparecem não em diálogos, mas nas próprias descrições técnicas do roteiro.
O longa mistura personagens reais e versões ficcionalizadas de figuras da política brasileira.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece por meio de imagens de arquivo e é um dos poucos adversários citados diretamente no roteiro.
Já a deputada federal Maria do Rosário aparece transformada na personagem “Gloria de Rosales”. Em uma das cenas, ela chama Bolsonaro de estuprador, numa referência ao episódio ocorrido na Câmara dos Deputados anos antes.
O autor da facada, Adélio Bispo de Oliveira, também surge com outro nome: Aurélio Barba. No roteiro, ele é retratado como uma figura conspiratória e radicalizada, apresentada inicialmente em um encontro sombrio dentro de um bar.
Já Alexandre de Moraes é sugerido indiretamente em uma das últimas cenas do filme. O roteiro descreve um homem careca, “esguio” e misterioso observando a posse presidencial em uma sala escura, numa referência ao ministro do STF.
A produção aposta em uma combinação de atores brasileiros e americanos. O protagonista é interpretado por Jim Caviezel, conhecido mundialmente por viver Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo” e por seu alinhamento com pautas conservadoras nos Estados Unidos.
Michelle Bolsonaro será interpretada pela atriz Camille Guaty. Já Eduardo, Carlos e Flávio Bolsonaro aparecem no filme vividos respectivamente por Edward Finlay, Sergio Barreto e Marcus Ornellas.
O diretor Cyrus Nowrasteh tem histórico de produções religiosas e políticas, incluindo “O Jovem Messias”, reforçando o tom espiritual presente em “Dark Horse”.
Outro fator que ampliou a repercussão do filme é o calendário de lançamento. “Dark Horse” está previsto para chegar aos cinemas um mês antes das eleições presidenciais, o que aumentou os questionamentos sobre o impacto político da obra.
Até o momento, segundo a reportagem, o longa ainda não consta oficialmente na base de dados da Ancine, órgão responsável pelo registro comercial de produções cinematográficas no Brasil.