‘Dark Horse’ ganha contornos de ‘thriller’ nos bastidores de Brasília

Foto: Agência Senado from Brasilia, Brazil

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14 Mai 2026

O que começou como um projeto cinematográfico para contar a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019 a 2022) acabou se transformando em uma das maiores crises políticas da pré-campanha presidencial de 2026. O filme “Dark Horse”, planejado como uma superprodução internacional sobre Bolsonaro, passou a ocupar o centro do noticiário após a divulgação de áudios, mensagens e documentos que ligam o senador Flávio Bolsonaro ao banqueiro Daniel Vorcaro em negociações milionárias para financiar o longa.

A reportagem é de Marcelo Moreira, publicada por Agenda do Poder, 13-05-2026.

A revelação abriu uma guerra política, abalou o mercado financeiro, ampliou ataques do PT e transformou os bastidores do filme em um verdadeiro enredo paralelo de poder, dinheiro e articulações nos bastidores de Brasília.

Para adversários e aliados, a produção já se transformou em um roteiro político próprio — com drama, crise, disputa de poder e um potencial impacto direto na sucessão presidencial.

O filme que prometia transformar Bolsonaro em herói global

Dark Horse” foi concebido como uma produção internacional voltada ao público conservador. O longa é dirigido pelo cineasta Cyrus Nowrasteh, conhecido por produções de apelo religioso e político, e tem roteiro assinado pelo deputado federal Mário Frias.

O ator americano Jim Caviezel, famoso por interpretar Jesus Cristo em “A Paixão de Cristo”, foi escolhido para viver Jair Bolsonaro nas telas. O projeto ganhou apoio de setores conservadores internacionais e passou a ser tratado por aliados do bolsonarismo como uma espécie de resposta cultural à esquerda.

As gravações começaram em 2025 e envolveram filmagens no Brasil, nos Estados Unidos e no México. Imagens de bastidores, cenas da facada de 2018 e vídeos do set circularam intensamente nas redes sociais ao longo dos últimos meses.

Os áudios que mudaram tudo

A situação mudou radicalmente após o The Intercept Brasil divulgar áudios e mensagens atribuídos a Flávio Bolsonaro. Segundo a reportagem, o senador teria negociado com Daniel Vorcaro o repasse de US$ 24 milhões — cerca de R$ 134 milhões — para financiar o filme.

Nos materiais divulgados, Flávio aparece cobrando pagamentos e demonstrando preocupação com atrasos nos repasses necessários para manter a produção funcionando. Em uma das mensagens reveladas, o senador afirma a Vorcaro: “Estou e estarei contigo sempre”.

De acordo com reportagens publicadas ao longo do dia, cerca de R$ 61 milhões já teriam sido transferidos ao projeto entre fevereiro e maio de 2025.

A divulgação dos áudios provocou uma reação imediata no mundo político e financeiro. O dólar disparou acima de R$ 5 e a Bolsa brasileira fechou em queda após investidores avaliarem que o caso poderia fragilizar a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto.

Os intermediadores do projeto

O caso também revelou uma rede de personagens que ajudaram a aproximar o filme do universo político e empresarial. Segundo reportagens publicadas nesta quarta-feira, o empresário Thiago Miranda teria atuado como articulador inicial entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Já Mário Frias aparece como um dos principais idealizadores do roteiro e interlocutor do projeto cinematográfico.

O produtor mexicano Eduardo Verástegui, conhecido pelo sucesso conservador “Sound of Freedom”, também entrou no projeto como um dos responsáveis pela produção internacional.

Nos bastidores, aliados de Flávio passaram a admitir reservadamente que a exposição da relação com Vorcaro causou desgaste político e fortaleceu o apelido “Bolsomaster”, usado por adversários para ligar o bolsonarismo ao caso Banco Master.

As polêmicas do set

Os problemas envolvendo “Dark Horse” não começaram agora. Ainda durante as gravações, denúncias surgiram sobre condições de trabalho nos bastidores da produção.

Relatos de figurantes e sindicatos apontaram atrasos em pagamentos, restrições ao uso de celulares, alimentação inadequada e até supostas agressões nos sets de filmagem.

Além disso, pedidos de investigação passaram a questionar possíveis irregularidades envolvendo o financiamento da produção. Há suspeitas levantadas por reportagens e pedidos encaminhados a órgãos públicos sobre eventual uso de estruturas empresariais e organizações ligadas à produtora do filme.

PT transforma caso em arma eleitoral

A crise rapidamente virou munição política para o PT e aliados do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Logo após a divulgação do áudio, perfis ligados ao partido passaram a compartilhar trechos da reportagem e explorar o caso nas redes sociais.

Nos bastidores da campanha petista, a avaliação é que o episódio pode enfraquecer a imagem de Flávio Bolsonaro junto ao eleitorado moderado e ao mercado financeiro.

Enquanto isso, o senador tenta sustentar a versão de que se tratava apenas de um pedido de financiamento privado para um filme privado sobre o próprio pai. Em nota, Flávio negou irregularidades, afirmou que não houve uso de dinheiro público e voltou a defender uma CPI sobre o Banco Master.

O filme que virou crise nacional

O que era para ser uma grande cinebiografia internacional sobre Jair Bolsonaro agora ameaça se transformar em um dos maiores problemas políticos do entorno bolsonarista em 2026.

Com áudios vazados, negociações milionárias, pressão do mercado, disputa eleitoral e suspeitas sobre os bastidores financeiros da produção, “Dark Horse” passou a ser tratado nos bastidores de Brasília como um verdadeiro filme de terror.

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