O mundo continua a brincar com o apocalipse. Artigo de Francesco Vignarca

Foto: Andy Cat/Unsplash

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09 Fevereiro 2026

"Recomeçar a partir do desarmamento, ao contrário, é a única maneira racional e concreta para garantir segurança real para as gerações presentes e futuras", escreve Francesco Vignarca, coordenador das campanhas da Rede Italiana Paz e Desarmamento, em artigo publicado por il manifesto, 23-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

No momento em que o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares completa cinco anos, a ameaça atômica volta a fazer parte da linguagem e das estratégias das grandes potências. O equilíbrio da dissuasão demonstra toda a sua fragilidade. Por essa razão, agora mais do que nunca, o desarmamento não é uma utopia, mas a única escolha racional a ser feita.

Exatamente cinco anos atrás — em 22 de janeiro de 2021 — entrava em vigor o Tratado sobre a Proibição de Armas Nucleares (TPNW). Um momento histórico, que não deve ser reduzido a tétrica dimensão simbólica, e que marcou pela primeira vez uma clara fronteira jurídica e moral: as armas nucleares não são instrumentos de segurança, mas meios de destruição indiscriminada, incompatíveis com o direito humanitário e com a própria sobrevivência da humanidade. Em poucos anos, graças à iniciativa humanitária da sociedade civil internacional - que devolveu uma dimensão "democrática" e mais ampla a uma questão que diz respeito a todos, mas era relegada ao "debate estratégico" dos líderes - a maioria dos países do mundo optou por assumir uma posição forte e sem precedentes.

Demonstrando que o desarmamento nuclear não é apenas uma teoria idealista, mas a utopia concreta de uma escolha política possível e, sobretudo, necessária. Hoje, o aniversário do TPWN ocorre em um momento histórico dramaticamente marcado pelo retorno explícito da ameaça nuclear. A guerra na Ucrânia, as tensões no Oriente Médio e na região do Indo-Pacífico, e a crescente competição estratégica entre grandes potências (focada em um rearme generalizado e ilógico) trouxeram a arma atômica de volta ao centro das doutrinas militares e da linguagem política. Fala-se de dissuasão como se fosse uma garantia "demonstrada" de segurança, esquecendo-se que ela se baseia na disposição de cometer uma destruição indiscriminada e, em última instância, causar uma catástrofe global. Basta um erro, um acidente, uma escalada descontrolada para que aquilo que considerávamos não apenas impossível, mas até mesmo impensável (ou seja, a aniquilação da humanidade ou, pelo menos, da nossa civilização) se transforme em realidade. Seria devastador e irreparável. Nesse contexto, o risco mais imediato é o vencimento, em 5 de fevereiro próximo, do Tratado Novo Start, o último acordo estratégico que sobrou entre os Estados Unidos e a Rússia sobre desarmamento nuclear e controle de armas.

Juntos, Washington e Moscou detêm aproximadamente 87% das ogivas nucleares do mundo: um total de mais de 10.000 dispositivos, o suficiente para devastar as comunidades humanas e o planeta diversas vezes. Segundo a Federação de Cientistas Estadunidenses, a Rússia possui 5.459 ogivas nucleares e os Estados Unidos 5.177 (cerca de metade das quais, para ambos os países, estão em alerta operacional). Em 2024, as duas potências gastaram, respectivamente, 8,1 bilhões e 56,8 bilhões de dólares para manter e modernizar seus arsenais, conforme documentado pela Campanha Internacional para Abolir as Armas Nucleares.

O fim do novo Start não significaria apenas a ausência de limites para o número de ogivas, mas sobretudo o desaparecimento daqueles mecanismos de transparência, inspeção e comunicação que, ao longo dos anos, reduziram o risco de mal-entendidos e lançamentos acidentais. Sem esses instrumentos, a desconfiança – já profunda, como vemos diariamente – só aumentará, juntamente com possíveis respostas irracionais baseadas na falta de transparência das ações alheias. Usar o fim desse acordo como pretexto para acelerar uma nova corrida armamentista seria um grave erro, pelo qual toda a comunidade internacional teria que pagar (direta ou indiretamente).

Pelo contrário, é exatamente neste momento, nesta situação confusa e perigosa, que precisamos reafirmar caminhos de verdadeiro desarmamento, indo além do "simples" controle dos armamentos nucleares. Pois essa última abordagem visa apenas gerir um equilíbrio de poder, enquanto o desarmamento busca a eliminação irreversível e verificável das ogivas nucleares, fortalecendo a esperança de uma política internacional centrada na cooperação e não na dominação. Renovar o Novo Start, ou ao menos respeitar suas disposições enquanto se negocia um novo acordo, é o primeiro passo indispensável para reduzir riscos imediatos e reconstruir um mínimo de confiança mútua. A partir disso, deve-se dar início a negociações mais amplas, envolvendo gradualmente outros países com armas nucleares e, em seguida, todos aqueles que baseiam sua própria segurança falaciosa na chantagem opressiva da dissuasão nuclear. É necessária uma escolha corajosa para evitar a catástrofe.

As dificuldades são evidentes: Donald Trump insiste na inclusão da China no acordo, enquanto Pequim reitera que aqueles que possuem arsenais enormemente maiores —Estados Unidos e Rússia — devem assumir a responsabilidade prioritária pelo desarmamento. Uma questão complexa, certamente, mas que não deve servir de desculpa para a inação. E é aqui que entra em jogo o TPNW, porque seu quinto aniversário é uma oportunidade para lembrar que já existe um caminho positivo: o do desarmamento total, escolhido pela maioria dos países do mundo. Em momentos de máxima tensão internacional, o desarmamento não é um luxo ou um exercício teórico abstrato, mas uma necessidade urgente: continuar a adiá-lo significa aceitar o risco de catástrofe. Recomeçar a partir do desarmamento, ao contrário, é a única maneira racional e concreta para garantir segurança real para as gerações presentes e futuras.

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