O mal-estar francês. Artigo de Daniel Afonso da Silva

Manifestações contra a reforma previdenciária na França. (Foto: Gongashan | Flickr CC)

Mais Lidos

  • Conhecer Jesus. Artigo de Eduardo Hoornaert

    LER MAIS
  • Freira de 82 anos é morta em convento brasileiro

    LER MAIS
  • Para o pesquisador e membro do coletivo Aceleracionismo Amazônico, é necessário repensar radicalmente as possibilidades políticas tributárias de um paradigma prenhe de vícios modernos

    Pensar de modo abolicionista produz uma ética da generosidade. Entrevista especial com Bräulio Marques Rodrigues

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

31 Março 2023

"Nas noites de junho de 2013 pelo Brasil dizia-se que 'não eram pelos vinte centavos'. Os franceses, agora, nestes infinitos dias e noites de março de 2023, parecem dizer, enfaticamente, que 'não são pelos dois anos a mais de cotização previdenciária'", escreve Daniel Afonso da Silva, doutor em História Social pela Universidade de São PauloUSP, pós-doutorado em Relações Internacionais pela Sciences Po de Paris, professor na Universidade Federal da Grande Dourados e autor de “Muito além dos olhos azuis e outros escritos sobre relações internacionais contemporâneas”.

Eis o artigo.

Gritam as ruas francesas. Protestos progressivos tomam conta de, praticamente, todas as grandes cidades e regiões do país. Nada parece dissolver o mal-estar. Nenhum recuo ou concessão do governo produz algum refluxo na tensão. Nada, simplesmente, nada altera o sentimento de revolta, angústia e agonia generalizado. Todos os ódios franceses convergiram nessa contestação da reforma previdenciária sugerida pelo presidente Emmanuel Macron. A mudança de 62 para 64 anos a idade de partida foi recebida como inadmissível. Não há argumento que demova ou convença do contrário.

Mas, olhando de perto, a questão não é a reforma em si. Há variáveis muito profundas em jogo. A integralidade da classe política perdeu a sua legitimidade histórica e moral. Nada que venha dela recebe acolhimento tranquilo. Passou-se dos tempos de expectativas decrescentes para os tempos de tormentas inclementes.

A terceira alínea do artigo 49 da Constituição francesa, o famoso “49.3”, possibilita ao presidente da República a adoção de qualquer projeto de lei sem deliberação parlamentar. Esse dispositivo foi idealizado pelo general Charles de Gaulle e pelo seu ministro Michel Debré para a instalação de alguma racionalização do parlamentarismo francês que, sob a Quarta República Francesa, de 1946 a 1958, promoveu instabilidades permanentes com a intermitência de obstruções e votos de desconfiança. Trata-se de uma medita, sim, autoritária, mas, à época, entendida e reconhecida como legítima e necessária para a imposição do interesse nacional sobre os demais interesses.

O general havia abdicado da vida pública em 1946 justamente por antever essa anomia política da Quarta República instalada no após 1945. Quando foi convocado ao poder em 1958, o seu reflexo foi no sentido de ampliar os níveis autoridade e autonomia de ação presidencial. Em outras palavras, deixar bem claro que manda.

Emmanuel Macron ameaçou utilizar o recurso “49.3” para fazer passar à força a presente reforma previdenciária. Mas a resposta das ruas veio forte e imediatamente. Diante do baque, o sucessor do general recuou. Mandou dizer que não era o caso de impor a sua decisão. Mas o ódio popular não refluiu. Em contrário, aumentou.

Não restam dúvidas que o instrumento – “49.3” – é legal. Afinal, está gravado, preto no branco, na Constituição. É, portanto, sim, legal. Mas deixou de ser legítimo. Virou politicamente imoral e anacrônico. Ninguém suporta nem adere tampouco respeita. A agonia venceu a lei.

Essa agonia dos franceses não é diferente da de muitos povos mundo afora tragados pela pasmaceira mundial presente. O rebaixamento social, especialmente, a partir do achatamento do poder de compra de todos os segmentos sociais de praticamente todos os países do planeta é um fato irremediável desde a crise financeira de 2008. O choque inflacionário causado pelo após pandemia de covid-19 e pela intercorrência do conflito ucraniano agudiza ainda mais tudo isso.

Entre os franceses, o após crise financeira de 2008, crise do euro de 2009-2011 e crise europeia do Brexit a partir de 2012 produziu o incansável movimento dos coletes amarelos, “gilets jaunes”. Logo nos primeiros momentos da primeira presidência de Emmanuel Macron, a partir de maio de 2017, esses derrotados da globalização inundaram, ato contínuo, as ruas das principais cidades do país.

A capital francesa foi tomada e bloqueada fins de semana a fio. Tudo se viu, ouviu e sentiu e não se encontrou saída. O biênio pandêmico de 2020-2021 arrefeceu o movimento e deu um suspiro ao governo. Mas a tentação de reformar a previdência dos franceses reavivou todo a mal-estar de outrora. E, como outrora, agora, não se vê saída.

Trata-se, claramente, de uma questão de sociedade. Mas essas questões de sociedade, nesta quadra de crises sucessivas – financeira, europeia, sanitária e mundial, proveniente do conflito ucraniano –, virou uma guerra sem fim pela reabilitação de um tipo de conforto social que, talvez, nunca mais volte a existir.

Nas noites de junho de 2013 pelo Brasil dizia-se que “não eram pelos vinte centavos”. Os franceses, agora, nestes infinitos dias e noites de março de 2023, parecem dizer, enfaticamente, que “não são pelos dois anos a mais de cotização previdenciária”.

O problema é maior.
Os ódios são múltiplos.
O mal-estar, parece, insuperável.
Et alors, quoi faire? (e agora, o que fazer?).

Eis a pergunta que, no fundo, o mal-estar francês lança e todos, franceses e não franceses, queremos ver respondida. Sem respostas, restam os gritos.

Leia mais