Itália. A guinada radical à direita

Palácio Chigi, sede do governo italiano e a residência do presidente do Conselho de Ministros. (Foto: Renata Testa | Flickr, creative commons)

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27 Setembro 2022

 

"O risco, de fato, é que da agenda dessa legislatura desapareça o tema dos direitos: aqueles dos imigrantes e requerentes de asilo, dos casais em união estável e LGBT, mães solteiras ou garotas que vivem uma maternidade indesejada, minorias étnicas e religiosas, presos, sem-teto, de todos aqueles que questionam o problema do fim de vida com dignidade", escreve Paolo Naso, sociólogo italiano da Comissão de Estudos da Federação das Igrejas Evangélicas na Itália e professor da Universidade de Roma “La Sapienza”, em artigo publicado por Riforma, 26-09-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo. 

 

A Itália dá uma guinada radical à direita e, exceto por acidentes institucionais hoje imprevisíveis, daqui a algumas semanas Giorgia Meloni poderá cruzar o portão do Palácio do Governo. A Itália já conheceu governos de centro-direita: para nos limitarmos aos anos "depois do caso Tangentopoli", as várias coalizões lideradas por Silvio Berlusconi incluíam expoentes "pós-fascistas" do calibre de Gianfranco Fini.

 

Pinuccio Tatarella, Mirko Tremaglia, Ignazio Larussa, Francesco Storace, todos oriundos da escola do MSI e que se criaram sob a asa do ex-republicano Giorgio Almirante. Esta não é, portanto, a novidade trazida pelas eleições de 25 de setembro. A virada está no fato de que liderando a coalizão que detém a maioria em ambos os poderes do Parlamento será uma política que cresceu no meio cultural e político da direita social, e que a componente moderada da coalizão Forza Italia – é reduzida a uma minoria, além de penalizada por uma liderança que definitivamente perdeu sua carga carismática.

 

Em suma, nos blocos de partida da legislatura, veremos uma coalizão de direita-centro, portanto, mais do que de centro-direita, encabeçada por uma líder forte com amplo consenso. Nessa perspectiva, a defesa apaixonada da chama do MSI no símbolo dos Fratelli d’Italia não deve ser considerada um resíduo nostálgico, mas uma reivindicação identitária de uma história e de uma tradição que redefine os equilíbrios da coalizão e a alinha a forças semelhantes da direita europeia.

 

E assim, se Berlusconi perseguiu o Partido Popular Europeu por muito tempo e em Bruxelas a Lega de Salvini muitas vezes se aliou aos coloridos movimentos independentistas, a FdI mostra olhar para os partidos "soberanistas" e para aqueles líderes que, enquanto tentam obter as vantagens que a União garante aos países membros, contestam a sua governança e os poderes supranacionais.

 

Mostrando-se de braço dado com Orban na Hungria, Duda na Polônia, os ativistas católico-nacionalistas do Vox na Espanha, a líder de FdI escolhe uma Europa de fato antieuropeísta, que quer tirar o poder das instituições da União e restituir soberania aos Estados: um programa explicitamente nacionalista, completamente legítimo no plano ideal e político, mas objetivamente problemático para um país candidato a estar entre os maiores beneficiários dos fundos do Next generation EU, aqueles que estão financiando o PNRR (plano de recuperação). A síntese entre a reivindicação soberanista por um lado e o recurso aos fundos europeus por outro parece hoje ser o desafio mais árduo do direita-centro puxado pelo FdI.

 

Quanto ao resto, veremos. Muitas coisas foram ditas na campanha eleitoral: intervenção nas pensões, imposto fixo, bloqueio naval contra a migração, presidencialismo; alguém até falou de uma revisão da lei do aborto. A ação do governo nem sempre corresponde aos anúncios e muitas das afirmações proferidas na liberdade de uma campanha eleitoral improvisada e confusa não são constitucionalmente plausíveis ou economicamente sustentáveis. Além disso, a maioria existe e é ampla mas, como vimos outras vezes, durante a navegação pode criar rachaduras e perder alguns pedaços.

 

Muito também depende dos derrotados, de como interpretarão os resultados e de como serão capazes de gerir a oposição. Os resultados impõem ao PD, além de um banho de humildade, uma reflexão séria sobre o que quer ser: derrotado pelo populismo de direita hoje vencedor e perseguido pelo da esquerda do M5S, deve explicar a si mesmo e aos eleitores o que quer ser: da crise do governo em diante, de fato, pareceu se achatar na agenda Draghi, renunciando a dizer "algo de esquerda", por exemplo, para os jovens das Fridays for Future, ou aos entregadores mal pagos, ao mundo das ONGs, que em meio a mil adversidades, continua gerenciando resgates no mar, aos trabalhadores idosos que não conseguem se aposentar.

 

O PD parece não entender que há tempo não tem mais o monopólio de representar os desfavorecidos, os precários, aquela sociedade civil comprometida com as questões do meio ambiente, da solidariedade, da legalidade. O maior partido de oposição hoje precisa ouvir o que está sendo dito nas periferias, no interior ou nas áreas pós-industriais; para encontrar sua alma, deve recuperar o gosto pela boa política que não se faz por interesse pessoal ou pelo aparato, mas porque se espera melhorar a vida das pessoas que a quem se pede o voto.

 

Há um mundo que Draghi, a UE, Von der Leyen não veem e não interceptam, e do qual o PD parece ter se esquecido. O partido de Letta não é o centro do mundo político italiano: se quiser ter um papel, deve buscar e construir alianças que às vezes podem ser difíceis e arriscadas. Mas entre dois riscos – a aliança difícil ou a derrota gritante – talvez seja melhor correr o menor dos dois.

 

A se interessar pelo desfavorecidos e pela precariedade, tentou o M5S, que, talvez graças a essa opção, conseguiu conter uma crise que poderia ter questionado sua própria sobrevivência política. E, no entanto, também Conte e seus seguidores devem entender que a política não é uma celebração da autossuficiência e que há momentos em que a boa política não é só investir em movimentos nem agitação, mas responsabilidade.

 

A outra novidade que saiu das urnas é a existência de um "centro", ainda que bicéfalo e não podemos dizer quão homogêneo. Renzi e Calenda são dois personagens complexos e, como vimos, capazes de acrobacias políticas que em poucas horas podem destruir pactos e alianças eleitorais.

 

Embora abaixo do esperado, o resultado não é irrelevante: há décadas a Itália sofre com a falta de um polo centrista, autenticamente liberal e europeu, alinhado com as questões da legalidade e da eficiência da administração pública. A falta de acordo com Azione e + Europa, no entanto, também marca o limite dessa formação que sofre de dificuldades para acolher dentro dela outros e preciosos recursos, como a voz de Emma Bonino e outros expoentes radicais.

 

Que pena, teria sido necessário. O risco, de fato, é que da agenda dessa legislatura desapareça o tema dos direitos: aqueles dos imigrantes e requerentes de asilo, dos casais em união estável e LGBT, mães solteiras ou garotas que vivem uma maternidade indesejada, minorias étnicas e religiosas, presos, sem-teto, de todos aqueles que questionam o problema do fim de vida com dignidade. Mas, por mais impopulares que sejam é sobre esses temas que se mede a civilidade e a força de uma democracia.

 

 

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