Apocalipse de fogo? Propostas para a política e a teologia

(Foto: Reprodução | Screenshot from Youtube)

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29 Julho 2022

 

"Acreditamos, de fato, que a reflexão teológica seja historicamente chamada a sair dos recintos habituais para poder contribuir para a decifração do atual 'apocalipse' [8] e poder trabalhar - de forma homogênea ao sentido de justiça e paz do reino de Deus - à construção progressiva de um mundo comum habitável, agora e no futuro, por todos e por todas."

 

O artigo é de Fabrizio Mandreoli, professor de História da Teologia na Faculdade Teológica da Emilia-Romagna, e Giorgio Marcello, publicado por Settimana News, 28-07-2022. A tradução é de Luisa Rabolini

 

Eis o artigo. 

 

"Você realmente viveria como afirma que se deveria viver?" (Alexander Langer, 4 de março de 1990)

 

O que nos permite sobreviver? Quais são nossos meios de subsistência? Como esses meios de subsistência são ameaçados? O que estamos prontos para fazer? Por quê? O que estamos fazendo para resistir? [...] Em nossos workshop ocorre o compartilhamento coletivo das descrições de nossas condições de vida: é o primeiro passo para uma articulação política, para poder expressar interesses comuns. Organizamos esses workshops em muitos contextos: municípios, paróquias, nas cidades, no interior... No início os participantes afirmam sobreviver graças a coisas completamente abstratas, mas, na terceira ou quarta repetição, tornam-se coisas concretas" (A. Spadaro, A terra grita. Entrevista com Bruno Latour, La Civiltà Cattolica 4125, 300).

 

Nos últimos meses, na Itália e no exterior, alguns jornais comentaram o que acontecia em alguns territórios atormentados pelo calor, pelos incêndios, pela destruição de hectares de matas, terras e casas, pelas necessárias fugas de centenas e milhares de pessoas através da expressão "apocalipse" de fogo.

 

Apocalipse, é claro, no sentido de um evento que marca o fim de alguma porção do mundo [1] ou a percepção de uma interrupção repentina da existência em alguns territórios [2], mas também provavelmente no sentido de revelação a ser ouvida e mensagem a ser entendida.

 

Num olhar com um mínimo de atenção, muitos fenômenos resultam, hoje mais do que nunca, interligados e correlacionados [3]: o novo regime climático, a escassez de água, os incêndios, as crises políticas, as guerras, o drama dos migrantes e refugiados, as muitas injustiças sociais e civis.

 

A Laudato Sì' - junto com muitos outros autores e autoras - há tempo mostrou essa conexão entre a injustiça para com os pobres e a injustiça climática, entre o grito da terra e o grito dos pobres. Nesse contexto, parece haver uma necessidade generalizada de palavras honestas, verificadas pela experiência e correspondentes às ações, capazes de orientar a ação social e política para um futuro vivível e habitável para todos e não apenas para alguns privilegiados.

 

Por isso nos parece importante disponibilizar um belo texto de Giorgio Marcello sobre Justiça social e justiça ambiental, que faz uma releitura atual de um pequeno livro do filósofo e antropólogo Bruno Latour, Tracciare la strada, Milão 2017.

 

É uma análise profunda da crise econômica e ambiental com o correlato crescimento das desigualdades e com a constatação de que as categorias usuais da modernidade são incapazes de decifrar e orientar a ação.

 

Há vários anos, Paolo Prodi antecipou isso com sua múltipla reflexão histórica: estamos entrando em tempos realmente novos em que as sínteses modernas entraram em crise e há necessidade de categorias e chaves de leitura renovadas [4].

 

Nesse contexto em que se constata que "as bússolas dos modernos pararam de funcionar" Latour mostra eloquentemente como a bússola ideológica e o modelo político representado por Trump mostram uma patologia generalizada da política, ou seja, uma espécie de fuga metódica para a irrealidade, na subestimação intencional dos problemas ambientais e dos conflitos bélicos, através de uma negação da terra e dos problemas efetivos das pessoas e das sociedades.

 

Aqui é preciso entender qual é o caminho a não tomar, a não ser percorrido como indivíduos e como coletividade. Em relação a isso, a reflexão de Latour prossegue convidando todos a "pousar na terra" [5], a "descer entre os homens" [6], a se ressensibilizar, a compreender - pessoal e coletivamente - do que dependemos e o que nos faz viver, a sair de um paradigma extrativista e produtivo para entrar em uma visão mais respeitosa e geradora.

 

Para Latour - e para o comentário de Marcello - essas não são apenas uma série de ideias, mas são propostas de reflexão e de práticas coletivas. De fato, diante do complexo de problemas atuais: “trata-se de saber não como remediar os erros do pensamento, mas como compartilhar a mesma cultura, enfrentar os mesmos desafios em relação a uma paisagem que pode ser explorada juntos. Aqui reaparece o costumeiro vício da epistemologia, que consiste em atribuir a déficits intelectuais o que é muito simplesmente um déficit de prática comum”.

 

Esse modo de proceder parece-nos essencial para repensar a práxis política e a reflexão social, mas sob um olhar mais atento também representa um tema importante para a teologia e a ética cristãs [7].

 

Acreditamos, de fato, que a reflexão teológica seja historicamente chamada a sair dos recintos habituais para poder contribuir para a decifração do atual "apocalipse" [8] e poder trabalhar - de forma homogênea ao sentido de justiça e paz do reino de Deus - à construção progressiva de um mundo comum habitável, agora e no futuro, por todos e por todas.

 

Notas

 

[1] Cf. G. Viale, I fenomeni irreversibili della catastrofe climatica, in Il Manifesto de 23 de julho de 2022.

[2] Cf. E. De Martino, La fine del mondo. Contributo all’analisi delle apocalissi culturali, Torino 2019.

[3] Cf. M. Prodi, State pronti, in Bo7-Avvenire de 24 de julho de 2022.

[4] Cf. M. Neri, Fuori di sé. La Chiesa nello spazio pubblico, Bologna 2020.

[5] Cf. B. Latour, Essere di questa terra. Guerra e pace al tempo dei conflitti ecologici, org. N. Manghi, Torino 2019.

[6] Cf. S. Luzzatto, Giù in mezzo agli uomini. Vita e morte di Guido Rossa, Torino 2021. Agradecemos pela indicação a Giovanni Battista Beretta.

[7] Conferir http://www.settimananews.it/cultura/bruno-latour-rilettura-teologica/ e Dossiê de RTE n.51 sobre Bruno Latour https://www.fter.it/riviste/

[8] Cf. G. Dossetti, Il Signore della gloria. Un discorso su conversione e storia, Trapani 2021

 

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