“Os grandes não querem paz. Só podemos contar os mortos”. Entrevista com Sergio Romano

Foto: Ukrainian Foreign Ministry, Flickr (criação comum)

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

22 Abril 2022

 

“É uma guerra civil ou, melhor, uma dupla guerra civil. A primeira é travada ao longo da linha que divide o leste do oeste do mesmo país. A segunda é aquela que a contém. E uma guerra civil dessas dimensões é mais odiosa, mais cruel, mais terrivelmente cruenta. Hoje em dia, acho que não há nenhuma possibilidade de imaginar a paz ou mesmo uma trégua, nem mesmo uma negociação de qualquer seriedade.”

 

A opinião é Sergio Romano, historiador e escritor, foi embaixador da Itália na Rússia. A entrevista é de Antonello Caporale, publicada por Il Fatto Quotidiano, 20-04-2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

 

Eis a entrevista.

 

Embaixador, na Itália você foi um dos primeiros a enumerar os erros táticos e estratégicos do Ocidente, a levantar dúvidas sobre a utilidade da Otan, a ilustrar os perigos que Putin corre. Foi ainda um dos primeiros a definir a neutralidade da Ucrânia como premissa.

Termino a reflexão: na condição dada, quando as forças dos dois beligerantes ainda parecem quase se equivaler, nenhum deles pode sequer imaginar de falar em negociação. O simples fato de evocá-la transformaria o país proponente em um perdedor.

 

É tão enormemente desestabilizador falar de paz?

Desestabilizador, exato. Julgamentos negativos seriam dirigidos àquela parte que tentasse encontrar uma solução com mais insistência.

 

Essa condição é horrível.

A guerra é horrível. E é ainda mais horrível a guerra civil. São dois exércitos que falam a mesma língua, que se entendem. E o confronto, como sempre ocorre quando a disputa é dentro da família, será tão duro que quem perder a guerra perderá a vida ou, se tiver sorte, a própria identidade. Desaparecerá da cena civil e política, não terá nenhuma esperança de fazer ouvir a sua voz.

 

Há 50 dias, você referiu que a Ucrânia deveria ter o status de uma Suíça do Leste. Mais pobre do que a que conhecemos, mas semelhante na estrutura constitucional e no destino de neutralidade da própria existência. Como embaixador em Moscou nos tempos da União Soviética, você disse que, acabada a Guerra Fria, não havia motivo para manter a Otan de pé. Era preciso atualizá-la, remodelá-la. Mas nós, europeus, não tínhamos feito as contas com os Estados Unidos...

Joe Biden quer vencer o confronto com Vladimir Putin. Diz-se que este último é beneficiado pela ausência de uma opinião pública, pela estrutura piramidal e inatacável do poder doméstico. Em vez disso, ele também tem que dar respostas à sua sociedade civil.

 

Por que os Estados Unidos evitaram cuidadosamente toda ação que pudesse favorecer uma negociação?

Os Estados Unidos não fizeram nada, isso é verdade. Mas por que você acha que a Grã-Bretanha se esforçou tanto para encontrar uma boa razão para parar a guerra?

 

Por que essa astenia, essa vontade coincidente de fazer deflagrar uma disputa que pode se expandir até chegar às nossas casas?

Porque os Estados Unidos (mas também os britânicos e até os franceses) são potências que não gostam de correr o risco de fazer um buraco na água. Washington se esforçaria apenas com a garantia de sucesso da solução hipotética.

 

E agora nos resta contar os massacres cotidianos.

Teremos que assistir à mais sangrenta das batalhas, teremos que documentar o buraco negro da civilização em que caímos. Ainda não sabemos o que resta in loco, ainda não está claro quem sairá vivo.

 

Os russos têm números inigualáveis em relação aos ucranianos.

Mas ainda não venceram.

 

A Europa está imóvel. Diz-se que o fato de ela não falar a uma só voz, de não responder a um único número de telefone a expõe a essa perene marginalidade.

Quando a guerra acabar, saberemos o que era a Europa.

 

Agora só resta atualizar a contagem dos mortos.

A pior situação imaginável.

 

Leia mais