O Sínodo: um processo irreversível

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04 Novembro 2021

 

"O Sínodo não falará da Igreja ao mundo. Muito menos falará para o mundo! Este processo é uma redescoberta – necessária sempre que se exigir – da própria índole da Igreja e da sua missão", escreve o Padre Manuel Joaquim R. dos Santos, presbítero da Arquidiocese de Londrina – PR.

 

Eis o artigo.

 

A Igreja católica entra num processo de sinodalidade. Não se tratará apenas de um evento a que chamará pomposamente de sínodo, como ainda muitos desconfiam! Ela está entrando, sim, em sua nevralgia mais intrínseca e definitória. Afinal, Sínodo e Igreja, segundo os santos Padres, são a mesma palavra! É um processo. É um método, um sistema, uma maneira de agir ou, como nos ensina o dicionário, um conjunto de medidas para atingir um objetivo. É um percurso; um “caminhar para adiante”, um avançar! É um processo irreversível, porque desde o primeiro momento é colocado nas mãos do Espírito. Assim acreditam os cristãos!

O ensejo e o desejo do Papa Francisco são irretocáveis: “Escutar o Espírito na adoração e na oração e escutar os irmãos e irmãs sobre as esperanças e as crises da fé nas diversas áreas do mundo”! Se a voz do povo é a voz de Deus, Francisco também quer que, ouvindo a voz de Deus manifestada no clamor do povo, a Igreja se torne mais fiel ao Evangelho e a ela mesma! Sem autorreferencialidade! Quer uma Igreja que não se alheie da vida, mas cuide das fragilidades e pobrezas do nosso tempo, curando as feridas e sarando os corações! “Derramai muito vinho e azeite nas feridas do mundo, como bálsamo de Deus”, são as suas palavras. Já que falamos do Espírito, continua o papa: “é do Espírito que precisamos, da respiração sempre nova de Deus, que reanima o que está morto, solta as correntes e espalha a alegria”! E o que será uma escuta mútua se não uma manifestação do Espírito? Ele nos guia para onde Deus quer e não para onde queremos, nos garante Francisco.

O Concílio Vaticano II ensinou-nos que a Igreja é o Povo de Deus a caminho. Convocado por Jesus na força do Espírito. Ora, a sinodalidade denota esta realidade, embora não seja um processo tão comum na Igreja. Daí que a palavra mágica para o sucesso deste momento seja conversão. Pessoal e comunitária. Esta metanoia necessária, é em última análise, ver as coisas como o Senhor as vê. São evidentes as inúmeras dificuldades para atingirmos esse patamar e o próprio papa enuncia uma série de perigos que rondam o Sínodo. Os preconceitos e estereótipos são letais se não forem deixados para trás. O clericalismo, um câncer na Igreja, poderia colocar também tudo a perder. O exibicionismo, a ânsia de ganhar manchetes, atrapalharia a fidelidade a Deus ao longo do processo.

Discernimento, diz o papa, é “o método e, simultaneamente o objetivo que nos propomos: baseia-se na convicção de que Deus atua na história do mundo, nos acontecimentos da vida, nas pessoas que encontro e me falam”! Uma Igreja que não escuta “mostra-se fechada às surpresas de Deus”! Não terá credibilidade! Há, na convocação do sínodo, a ânsia que o momento provoque no mundo uma irrupção de algo que anda em baixo nos nossos dias: “Fazer germinar sonhos, suscitar profecias e visões, fazer florescer a esperança, estimular confiança, enfaixar feridas, ressuscitar uma aurora de esperança”!

A Igreja Católica não poderá dar respostas a perguntas que não foram feitas e não terá soluções mágicas para todos os problemas da nossa época! Isso é ponto pacífico no papado de Francisco. Porém, também é tônica nestes oito anos de pontificado e, em todos os seus documentos, que a Igreja em saída é aquela que caminha com o ser humano, em busca do sentido da vida, apresentando-se como “Boa Samaritana” e dando aos homens o que melhor tem: o próprio Senhor! A oferta da Verdade e da Vida vem em forma de diálogo e serviço, nos trilhos da fraternidade: “Aqui está um ótimo segredo para sonhar e tornar a nossa vida uma bela aventura. Ninguém pode enfrentar a vida isoladamente (…); precisamos duma comunidade que nos apoie, que nos auxilie e dentro da qual nos ajudemos mutuamente a olhar em frente. Como é importante sonhar juntos”! (Ponto 8 da Fratelli Tutti).

Francisco sabe que o mundo tem dificuldade em ver na Igreja a “Mater et Magistra”, brilhantemente apresentada em 1961 por João XXIII. E se a Gaudium et Spes estava certíssima ao dizer que “a Igreja, por sua parte, acredita que Jesus Cristo, morto e ressuscitado por todos, oferece aos homens pelo seu Espírito a luz e a força para poderem corresponder à sua altíssima vocação e não foi dado aos homens sob o céu outro nome, no qual devam ser salvos” (GS 10), é necessário, contudo, abordar essas verdades numa ótica que o século XXI assim exige. De novo, na Fratelli Tutti, volta-se para o homem e a mulher, resgatando um ponto de encontro que legitimará o sonho acalentado em todas as páginas do Evangelho: “o isolamento e o fechamento em nós mesmos ou nos próprios interesses nunca serão o caminho para voltar a dar esperança e realizar uma renovação, mas é a proximidade, a cultura do encontro. O isolamento, não; a proximidade, sim. Cultura do confronto, não; cultura do encontro, sim". (Ponto 30).

O Sínodo não falará da Igreja ao mundo. Muito menos falará para o mundo! Este processo é uma redescoberta – necessária sempre que se exigir – da própria índole da Igreja e da sua missão. Francisco não está preocupado com conclusões ou com documentos que fechem magistralmente este ciclo preparatório. Ninguém sabe o que nos espera. Nem o papa! Mas o Espírito que nos conduz, nos levará através do nevoeiro; as crises não passam de oportunidades para quem acredita. “Ou seguimos em frente pelo caminho da solidariedade ou as coisas irão piorar. Quero repetir: de uma crise não se sai como antes. A pandemia é uma crise. De uma crise, sai-se melhor ou pior. Temos que escolher. E a solidariedade é precisamente o caminho para sair melhores da crise” (audiência geral 02/07/20).

Já em 2013, numa visita à cidade de Cagliari, ele dizia que a palavra crise, para os chineses, agrega dois sentidos: “o de perigo e o de oportunidade. Quando se fala de crise, falamos sobre os perigos, mas também das oportunidades. Este é o sentido em que eu uso essa palavra”. O momento que a Igreja inicia agora, é sobretudo um kairós! Um tempo de Deus! Disso Francisco não tem nenhuma dúvida e é essa provocação que faz a todos: Abrirmo-nos ao Espírito e deixarmos que Ele fale à Igreja (Ap 2,1-7).

Um dia, ao tentar confortar o meu primo, piloto de uma empresa aérea de Hong Kong que se mudava para Vancouver por motivos familiares, ele me respondeu algo que não poderei jamais esquecer: “as incertezas equivalem a oportunidades se tivermos o coração sempre cheio de gratidão a Deus, por tudo que acontece em nossa vida”! A Igreja Católica vive momentos repletos de apreensão, porque também ela sente intensamente a crise da pós-modernidade e da mudança de época do início do século XXI. Experimenta já hoje, a redução dos seus espaços de influência no mundo e do número de membros efetivos que antes enchiam os seus templos. O saudosismo de um modelo de cristandade, que a acompanhou até meados do século XX, não pode ser o caminho do Espírito!

A Igreja quer escutar. Os de dentro e os de fora! Crentes ou não. Nesta amplitude de horizontes na recolha de opiniões, se consolidará como a eclesia a quem Jesus confiou a missão de evangelizar. E os homens e as mulheres deste tempo saberão apreciar o bálsamo derramado sobre as suas feridas porque, mais do que nunca, necessitam de um “Bom Samaritano”!

 

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