As raízes da fraternidade alimentadas pelo Vaticano II

"Fraternidade, sinal dos tempos. O magistério social do Papa Francisco": o livro do cardeal Michael Czerny e pe. Christian Barone com o prefácio do Papa. (Foto: Vatican Media)

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29 Setembro 2021

 

O livro Fraternità segno dei tempi. Il magistero di Papa Francesco (Fraternidade, sinal dos tempos. O magistério do Papa Francisco, em tradução livre, Libreria Editrice Vaticana), do qual antecipamos amplos trechos do prefácio assinado pelo Pontífice, será apresentado quinta-feira, às 15h30, na Sala Barberini da Biblioteca Apostólica Vaticana, em Roma. Depois das saudações do Cardeal José Tolentino de Mendonça, falarão dom Armando Matteo, a Irmã Alessandra Smerilli e Aboubakar Soumahoro.

 

O prefácio do Papa Francisco é publicado por Avvenire, 28-09-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o texto.

 

Agradeço ao Cardeal Michael Czerny e a dom Christian Barone, irmãos na fé, por essa contribuição que oferecem sobre a fraternidade e pelas páginas que, ao mesmo tempo que pretendam apresentar a Encíclica Fratelli tutti, procuram esclarecer e explicitar o vínculo profundo entre o atual Magistério social e as afirmações do Concílio Vaticano II.

Às vezes esse vínculo não aparece à primeira vista e tento explicar o porquê. Na história da América Latina na qual estive imerso, primeiro como jovem estudante jesuíta e depois no exercício do ministério, respiramos uma atmosfera eclesial que, com entusiasmo, absorveu e assumiu as intuições teológicas, eclesiais e espirituais do Concílio e as inculturou e implementou. Para nós, mais jovens, o Concílio tornou-se o horizonte da nossa crença, das nossas linguagens e da nossa práxis, isto é, tornou-se rapidamente o nosso ecossistema eclesial e pastoral, mas não adquirimos o hábito de citar frequentemente os decretos conciliares ou nos deter em reflexões de tipo especulativo.

Simplesmente, o Concílio havia entrado em nosso modo de ser cristãos e de ser Igreja e, no decorrer da vida, minhas intuições, minhas percepções e minha espiritualidade foram simplesmente geradas pelas sugestões da doutrina do Vaticano II. Não havia tanta necessidade de citar os textos do Concílio. Hoje, provavelmente, passadas várias décadas e nos encontrando em um mundo - inclusive eclesial - profundamente mudado, é necessário tornar mais explícitos os conceitos-chave do Concílio Vaticano II, os fundamentos de suas argumentações, seu horizonte teológico e pastoral, os argumentos e o método que ele utilizou.

O cardeal Michael e Dom Christian, na primeira parte deste precioso livro, nos ajudam muito nisso. Eles leem e interpretam o Magistério social que procuro realizar, trazendo à luz algo que está um tanto submerso nas entrelinhas, ou seja, o ensinamento do Concílio como base fundamental, ponto de partida, lugar que gera questionamentos e ideias e que, portanto, orienta também o convite que hoje dirijo à Igreja e ao mundo inteiro sobre a fraternidade. Porque a fraternidade, que é um dos sinais dos tempos que o Vaticano II traz à luz, é aquilo de que muito precisa o nosso mundo e a nossa Casa comum, na qual somos chamados a viver como irmãos e irmãs.

Nesse horizonte, além disso, o livro que vou apresentar também tem a vantagem de reler hoje a intuição conciliar de uma Igreja aberta, em diálogo com o mundo. O Vaticano II tentou responder às questões e desafios do mundo moderno com o sopro da Gaudium et Spes; mas hoje, continuando no caminho traçado pelos Padres conciliares, percebemos que é necessária não só uma Igreja no mundo moderno e em diálogo com ele, mas sobretudo uma Igreja que se coloque ao serviço do homem, tomando conta da criação e anunciando e realizando uma nova fraternidade universal, na qual as relações humanas são curadas do egoísmo e da violência e se fundam no amor recíproco, no acolhimento, na solidariedade.

Se é a história de hoje nos pede isso, especialmente numa sociedade fortemente marcada por desequilíbrios, feridas e injustiças, percebemos que também isso está no espírito do Concílio, que nos convidou a ler e ouvir os sinais provenientes da história humana. O livro do Cardeal Michael e de Dom Christian também tem este mérito: oferece-nos uma reflexão sobre a metodologia utilizada pela teologia pós-conciliar e pelo próprio Magistério social, mostrando como esteja intimamente ligada à metodologia utilizada pelo Concílio, isto é, um método histórico-teológico-pastoral, em que a história é o lugar da revelação de Deus, a teologia desenvolve as orientações através de uma reflexão e a pastoral as encarna na práxis eclesial e social. Neste sentido, o Magistério do Santo Padre tem sempre necessidade de ouvir a história e precisa da contribuição da teologia.

Por último, gostaria de agradecer ao Cardeal Czerny também pelo envolvimento, neste trabalho, de um jovem teólogo, Dom Barone. Esta união é fecunda: um cardeal, chamado ao serviço da Santa Sé e a ser guia pastoral, e um teólogo fundamental. É um exemplo de como podem se combinar o estudo, a reflexão e a experiência eclesial, e isso também nos indica um método: uma voz oficial e uma voz jovem, juntas. Portanto, é necessário caminhar sempre: o Magistério, a teologia, a práxis pastoral, a liderança. Sempre juntas. A fraternidade terá mais credibilidade se também na Igreja começarmos a sentir-nos “fratelli tutti” e a viver os nossos respectivos ministérios como serviço ao Evangelho, à construção do Reino de Deus e ao cuidado da Casa comum.

 

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