A UE confirma os monopólios sobre as vacinas

Foto: Pixabay

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

07 Junho 2021

 

"Dentro da OMC, a Europa apoia a necessidade de cautela porque o processo de fabricação das vacinas é mais complexo do que o de medicamentos, exceto depois impedir o acesso ao conhecimento necessário por parte das empresas, existentes em várias partes do mundo, para que possam iniciar a produção das vacinas", escreve Nicoletta Dentico, jornalista e analista sênior de políticas em saúde global e desenvolvimento, que atualmente lidera o programa de saúde global da Sociedade para o Desenvolvimento Internacional (SID), em artigo publicado por Il Manifesto, 06-06-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Tendo em vista a reunião de 8 e 9 de junho na Organização Mundial do Comércio (OMC): "A very shameful proposal", uma proposta verdadeiramente vergonhosa. Não fica atrás a Brook Baker, do Public Citizen, que definiu o documento europeu como "a corpse", um cadáver. Em primeiro lugar, surge a questão de saber se os redatores do documento alguma vez leram o texto do Acordo TRIPS sobre a Propriedade Intelectual. Ao que parece, não. Bruxelas introduz, como novas propostas, cláusulas já incluídas no tratado TRIPS há 25 anos. Como alternativa à suspensão de alguns artigos do TRIPS sugeridos pela Índia e África do Sul, a proposta europeia se delonga sobre as licenças compulsórias, mas ignora que os governos já podem autodeterminar as circunstâncias em que derrogar as patentes, e que as negociações com as empresas são não necessárias para o uso governamental de um produto farmacêutico se houver um emprego público e não comercial voltado para a solução de problemas de saúde (Art. 31 e 31bis).

O mesmo ocorre quando um governo intervém para deter um abuso de posição dominante - o que a Itália fez duas vezes em 2005, com licenças compulsórias contra a Glaxo e a Merck para alguns princípios ativos, e depois contra a Merck para o antibiótico Imipenem Cilastatina. Em suma, a descoberta da água quente. No entanto, as licenças obrigatórias aplicam-se apenas às patentes e constituem uma fórmula completamente insuficiente, dado que, para produzir vacinas, é necessário derrogar a outros direitos de propriedade intelectual: know-how, segredos industriais, processos, dados clínicos.

Dentro da OMC, a Europa apoia a necessidade de cautela porque o processo de fabricação das vacinas é mais complexo do que o de medicamentos, exceto depois impedir o acesso ao conhecimento necessário por parte das empresas, existentes em várias partes do mundo, para que possam iniciar a produção das vacinas. Em um relatório recente realizado com o Imperial College London, o Public Citizen projeta a possibilidade de desenvolver centros regionais para a produção de 8 bilhões de vacinas baseadas em tecnologia mRNA em menos de um ano. Isso permitiria superar a economia da escassez dominante no cenário atual, tão benéfica à hegemonia e aos cofres da Big Pharma. A proposta de Bruxelas é cadavérica porque, com uma perigosa coação à repetição, prolonga a política patológica da subserviência à indústria com a qual a UE negociou contratos com as empresas farmacêuticas em 2020. Muito se tem escrito sobre as externalidades negativas que a incompetência dos governos europeus gerou naquela delicada fase de gestão da pandemia.

 

A própria presidente da Comissão Europeia reconheceu erros de abordagem e omissões. Mas agora voltamos novamente ao tema, e em escala global. A UE convida a comunidade internacional a proporcionar novos incentivos e financiamento às empresas, em nome de uma “forte resposta comercial multilateral” à pandemia, com acrobacias de facilitações comerciais para que a indústria aumentar a produção de vacinas contra COVID-19. Desde que os monopólios de propriedade intelectual não sejam tocados. A proposta da UE dá corpo às posições impostas na cúpula sobre a saúde global do G20 pelos dribles entre Ursula Von der Leyen e Angela Merkel, e à Declaração de Roma com a qual o G20 pretende coordenar a resposta à pandemia por meio de investimentos maciços para induzir as indústrias a fazer o que se recusaram a fazer até agora: as licenças voluntárias.

Assim se configura o grande império da “terceira via”, que agrada à diretora da OMC. A pedra angular da negociação é a manutenção do monopólio da propriedade intelectual. Ironicamente, o número de países dispostos a negociar o texto revisado pela Índia e pela África do Sul está crescendo, como foi visto no encontro informal do Conselho dos TRIPs em 31 de maio com os EUA, Japão, Nova Zelândia e Grã-Bretanha. A Europa permanece entrincheirada em um doente colonialismo sanitário. Sua proposta é uma jogada habilidosa para atrasar qualquer disposição diplomática e confundir todos - parlamentares, imprensa e opinião pública - sobre o que fazer.

Na próxima semana, o Parlamento Europeu terá de votar a proposta de isenção da Índia e da África do Sul. Existe um sério risco de que o truque narrativo da proposta funcione com muitos eurodeputados, enquanto o poder de fogo da indústria farmacêutica sobre a UE tem campo livre - 290 lobistas e 36 milhões de euros por ano, adverte o Corporate Europe Observatory. No mais, as decisões do Conselho Europeu e da Comissão não levaram até agora em consideração as iniciativas e as decisões parlamentares. A Itália não é exceção. Nem o governo Conte, nem o governo Draghi se preocuparam em cumprir as obrigações de duas resoluções parlamentares (em dezembro de 2020 e março de 2021) que obrigam o país a promover a proposta da Índia e da África do Sul em nível europeu. Nada aconteceu. Uma violação democrática que corta a respiração.

 

Leia mais