O desaparecimento da vergonha. Artigo de Enzo Bianchi

Foto: Felipe Pelaquim | Unsplash

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20 Abril 2021

 

"Vergonha! Sim, a vergonha deve ser absolutamente sentida, manifestada, pelo mal que cada um faz pessoalmente e pelo mal que atravessa a vida da polis. Sem vergonha não há nem mesmo responsabilidade!", escreve Enzo Bianchi, monge italiano e fundador da Comunidade de Bose, em artigo publicado por La Repubblica, 19-04-2021. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis o artigo.

 

Mesmo nesta situação crítica de pandemia, são muitas, aliás, se multiplicaram bastante, as manifestações de cansaço, de sofrimento e de indignação em nossa vida cotidiana. Raramente, porém, surge outro sentimento que, em algumas situações, seria quase obrigatório sentir, um sentimento que alguns deveriam assumir para si: a vergonha. Muitas vezes fico indignado e revoltado contra a falta de responsabilidades que se regista no nosso país, mas ao mesmo tempo sou atingido por uma profunda tristeza, quase desesperadora, pelo desaparecimento da vergonha.

A vergonha é uma emoção complexa, caracterizada por valores de diferente sinal. É a perturbação que nos assalta quando tomamos consciência de ter cometido o mal. É um grito da nossa consciência que nos contradiz, nos acusa e nos condena. A vergonha é um mecanismo regulador dos comportamentos humanos, um instrumento para proteger a si mesmos e a convivência social: funciona como uma barreira que nos impede atitudes justamente vergonhosas. Envergonhar-se é um ato profundamente humano e só quem sofre de narcisismo não conhece essa emoção humaníssima e nobre. Quando nosso rosto fica vermelho, mostramos que não gostaríamos que os outros soubessem o mal que fizemos: uma afirmação implícita de que nos preocupamos com os outros, que não somos autorreferenciais e fechados em nós mesmos.

Para Darwin, não é por acaso que "a vermelhidão do rosto é a expressão mais especificamente humana do rosto". É verdade que esse sentimento, que no passado era incentivado na criança - "Tenha vergonha!" - para chamá-lo de volta à sua vocação humana, hoje está quase desaparecido: no máximo temos vergonha de nos envergonhar, e por isso se enfatiza a exibição, o estar presentes a todo custo, cuida-se obsessivamente da imagem. De forma que o pudor, que envolve a responsabilidade pessoal e serve de aviso e freio acaba faltando.

Quantas vezes gostaria de gritar: “Vergonha! Vergonha!" pelas situações que temos diante de nossos olhos e que parecem gerar em nós apenas conformismo e indiferença:

- quando todos os dias ouvimos notícias de quem, mesmo nesta pandemia, trilha caminhos de corrupção, daqueles que buscam ganhos aos que buscam privilégios e atalhos para a vacinação;

- quando constatamos que pelo fato de ninguém se responsabilizar por suas omissões e por vezes perseguir os próprios interesses, contribuiu para aumentar o número de vítimas;

- quando se constata que nosso país aumentou o fornecimento de armas aos países em guerra nas portas do Mediterrâneo; quando continuamos a permitir que o nosso mar seja um cemitério de migrantes ...

Vergonha! Sim, a vergonha deve ser absolutamente sentida, manifestada, pelo mal que cada um faz pessoalmente e pelo mal que atravessa a vida da polis. Sem vergonha não há nem mesmo responsabilidade!

 

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