“Cruzada”: transgressões armadas de uma palavra que torna sagrada toda violência. Entrevista com Daniele Menozzi

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24 Fevereiro 2021

As Cruzadas para libertar a Terra Santa se concluíram em 1270. Depois, porém, a “cruzada” se tornou “ideologia” e atravessou os últimos dois séculos e meio de história.

A reportagem é de Luca Kocci, publicada por Il Manifesto, 23-02-2021. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Em virtude do seu próprio poder evocativo, a palavra foi subtraída da exclusividade religiosa e utilizada para sacralizar guerras – dos conflitos mundiais à “guerra preventiva” de Bush – e batalhas político-sociais, contra a descristianização da sociedade moderna ou contra o comunismo: não por acaso, o escudo cruzado era o símbolo da Democracia Cristã. Com o consentimento ou o silêncio-assentimento de muitos pontífices que, embora não convocando nenhuma nova cruzada militar, deixam como está, caminhando em equilíbrio sobre a corda-bamba da ambiguidade.

Quem delineia esse itinerário está Daniele Menozzi, professor emérito de História Contemporânea na Normale di Pisa, no livro “Crociata. Storia di un’ideologia dalla Rivoluzione francese a Bergoglio” [Cruzada. História de uma ideologia da Revolução Francesa a Bergoglio] (Ed. Carocci, 234 páginas).

“O conteúdo semântico da palavra ‘cruzada’, estranha à linguagem das primeiras expedições militares à Terra Santa – explica Menozzi –, se deve a uma operação levada a cabo pela Cúria Romana no século XV. O papado, a fim de unificar os soberanos cristãos sob a sua própria liderança nas lutas políticas e militares que pretendia levar em frente, identificou todo empreendimento conduzido sob a égide de Roma como uma cruzada, deslocando para os objetivos visados o valor sacral, atribuído primeiro à libertação do Santo Sepulcro. É essa transferência de sacralidade que explica por que a cruzada se tornou um instrumento eficaz ao qual a política eclesiástica da Santa Sé recorreu, pelo menos até Pio XII, em circunstâncias espirituais, missionárias, sociais e políticas.”

Eis a entrevista.

A expressão “cruzada” foi utilizada em 1789 tanto pelos revolucionários (pouco) quanto pelos contrarrevolucionários; em 1848, pelos patriotas do Risorgimento e, em 1870, pelos defensores da Roma pontifícia; na Primeira Guerra Mundial tanto pela Entente quanto pelos Impérios Centrais e, na Segunda Guerra, por Hitler, que a empregou contra a URSS de Stalin, e pelos EUA, contra os nazifascistas. Uma palavra boa para todas as estações?

Os processos de secularização da era contemporânea são acompanhados por movimentos contemporâneos de sacralização da política. O recurso à linguagem da cruzada, sedimentado na memória e na consciência coletiva das terras cristãs como forma de sacralização da violência, oferece um terreno fácil para a acolhida em massa de tal transferência.

No plano espiritual e ideológico, por outro lado, ela se configura com uma acepção reacionária, nas batalhas contra a sociedade moderna, no anticomunismo...

Mesmo sem uma convocação formal, o papado reconhece que é lícito aos fiéis recorrerem à linguagem da cruzada para responder a ameaças consideradas mortais para a Igreja: por exemplo, na batalha pela sobrevivência do Estado pontifício, na guerra civil espanhola de 1936, na revolta húngara de 1956. A palavra se torna, assim, patrimônio dos ambientes reacionários que consideram que devem responder ao distanciamento do mundo moderno da Igreja em termos de oposição cega e radical, ao invés de repensar seus erros.

Os pontífices modernos não convocaram cruzadas, mas também não as desencorajaram. Uma atitude ambígua?

Da Revolução Francesa até Pio XII, o papado baseou a referência à cruzada sobre um juízo histórico fortemente positivo sobre as expedições dos séculos XI ao XIII, baseado no mito da cristandade medieval como modelo ideal de sociedade cristã, na qual o papa ditava as regras de convivência civil em nível global. Uma orientação que constituiu uma legitimação indireta para aquelas correntes católicas que atribuíam aos seus compromissos político-sociais específicos o mesmo caráter totalizante da libertação do Santo Sepulcro. A autoridade eclesiástica não poderia renegar essas formas de mobilização, pois elas tinham um fundamento no seu próprio arranjo cultural.

Com João XXIII e o Concílio Vaticano II, a palavra desapareceu do horizonte do papado. No entanto, reapareceu com Wojtyla e Ratzinger.

O “retorno de Deus” nas últimas duas décadas do século XX se manifesta também na forma de uma justificação religiosa da guerra, tanto em âmbito cristão e católico quanto nas outras religiões. Isso explica os esforços do papado para repensar o papel da cruzada. Rejeita-se a guerra santa, para atestar a doutrina da guerra justa. Mas a não inserção, por parte de João Paulo II, das Cruzadas no pedido de perdão no Jubileu do ano 2000 marca um recuo que levará os defensores da cruzada anti-islâmica a verem depois em Bento XVI, embora forçando parcialmente o seu ensinamento, um apoio para as suas teses.

E o Papa Francisco?

Bergoglio rompe com o passado sob dois perfis: recorda que a assunção da linguagem da cruzada constitui uma legitimação antievangélica do confronto entre os homens; e reevoca o encontro entre São Francisco e o sultão em 1219 para mostrar que também na época das expedições à Terra Santa havia uma alternativa às relações entre religiões e povos baseadas na violência.

É um ponto sem volta?

Assim como outros aspectos do ensinamento de Francisco, também este é confiado aos crentes: o futuro da cruzada depende da sua capacidade de assimilar e de pôr em prática o salto de qualidade que Bergoglio lhes propôs sobre esse penoso legado da cultura católica.

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