Fé e dúvida. Artigo de Fulvio Ferrario

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05 Outubro 2020

A ideia do crer como convicção de possuir um conjunto de certezas inabaláveis sobre este mundo e o outro une os piores fundamentalismos e uma crítica antirreligiosa.

A opinião é de Fulvio Ferrario, teólogo italiano e decano da Faculdade de Teologia Valdense de Roma, em artigo publicado na revista Confronti, de outubro de 2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

“A minha relação com a fé? Nunca entendi o que é. Sempre me pareceu uma coisa engraçada. (...) Não entendo a insistência na ‘fé’ que caracteriza o cristianismo moderno. Por que deveria haver algo de positivo em renunciar a ter dúvidas saudáveis? Por que deveria haver algo de positivo em renunciar à incerteza? Parece-me que insistir na fé valoriza atitudes espirituais que não nos fazem bem, como se uma religião quisesse se defender” (Carlo Rovelli, caderno La Lettura, jornal Corriere della Sera, 23-08-2020, p. 5).

Querendo, um cristão ou uma cristã poderia reagir a essas palavras em chave autocrítica: que ideia de cristianismo estivemos comunicando, para tornar possível um mal-entendido tão grosseiro? Ou algum vetero-protestante poderia sacudir a poeira do mais clássico armamentário anticatólico: tudo culpa do autoritarismo dos padres e do dogma da infalibilidade.

Querendo, seria possível afirmar isso. Mas eu acho que não quero. A verdade é que o Prof. Rovelli elogia a dúvida, mas sequer se deixa tocar pela hipótese de que a sua caracterização da fé cristã é insuficiente, ou seja, não capta a realidade. A questão, infelizmente, vai além do nível de informação religiosa do grande físico teórico: ela diz respeito a uma atitude cultural.

Se eu dissesse ao Prof. Rovelli que todas as suas interrogações sobre a relatividade é uma “descoberta da água quente”, pois o meu avô já sabia que “tudo é relativo”, eu presumo que ele consideraria inadequada a minha apresentação da herança einsteiniana e talvez, apesar da sua personalidade cortês, consideraria oportuno me convidar a uma informação melhor, ou a falar de outra coisa, ou até mesmo a ambas as coisas.

Pois bem, na minha opinião, a opinião de Rovelli sobre a cristã, particularmente na sua relação com a dúvida, não é mais acurada do que a interpretação de Einstein à luz do pensamento do meu avô.

Naturalmente, Rovelli ou qualquer outra pessoa pode facilmente identificar expressões fanáticas da fé, cristã ou não: a mãe dos tolos está sempre grávida e dá à luz crentes e ateus, indiferentemente.

A realidade histórica do cristianismo, no entanto, legitima a dúvida (justamente) sobre se aqueles que creem se interrogam profundamente sobre a própria fé, se esta última não inibe absolutamente o pensamento crítico, mas o estimula, se a reflexão ateia é levada muito seriamente em consideração nas igrejas, e se livros como os de Rovelli fazem parte da biblioteca de uma pessoa cristã do século XXI culturalmente interessada.

A ideia do crer como convicção de possuir um conjunto de certezas inabaláveis sobre este mundo e o outro une os piores fundamentalismos e uma crítica antirreligiosa do tipo daquela aqui apresentado.

No atual clima cultural, porém, uma pessoa, ainda mais se cientista, pode afirmar em matéria religiosa aquilo que quiser, sem perceber o dever de se confrontar com a realidade: neste caso, com aquilo que quem professa a fé cristã afirma sobre aquilo que crê.

Não se pode intervir no debate cultural sem se ter ideia de quem foi Stephen Hawking, enquanto é muito possível se pronunciar sobre a fé sem associar nada ao nome, sei lá, de Dietrich Bonhoeffer ou ao de Hans Küng (sempre a respeito de fé e dúvida).

O resultado é uma banalização da experiência cristã que beira o insulto, ainda mais grave por ser, diretamente ou não, legitimado pelo prestígio da ciência e dos seus representantes. Trata-se de um fenômeno de larga escala: a cultura crítica, que tem no pensamento científico a sua ponta de lança, tende a deslegitimar a consistência cultural da experiência cristã; por outro lado, os setores religiosos (e, paradoxalmente, mas não muito, também “seculares”) mais reacionários cultivam um fundamentalismo indecente do ponto de vista cultural e perigoso em nível sociopolítico.

Aqueles que ousam pensar como crentes e creem pensando são marginalizados tanto por uns quanto por outros.

Naturalmente, não serão denúncias como as deste que escreve que mudarão uma situação consolidada: simplesmente, é bom que ela seja reconhecida, nas igrejas e fora delas.

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