Uma beleza que nos pertence

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04 Abril 2019

Eu gosto de pensar que a mesma raiz etimológica conecte, em grego, o adjetivo “belo” (kalós) e o verbo “chamar” (kaléo). A beleza, portanto, assim aparece como um chamado. Toda vocação humana é a resposta para a atração de algo (ou de alguém!) que nos chama. Sem esse apelo fundamental, a nossa vida ficaria desprovida de motivação e cada vez mais distante de sua realização autêntica.

A verdade é esta: se a alegria do encontro, se a surpresa de uma paixão, de um "que lindo!", exclamado com o coração, não precede as renúncias ou os sacrifícios, estes só gerarão tristeza, rigidez, rigor e frustração.

O comentário é de José Tolentino Mendonça, poeta, teólogo, arcebispo português, arquivista e bibliotecário do Vaticano, publicado por  Avvenire, 02-04-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

A vida não começa com a ética, mas com a estética. Procede não por obrigação, mas graças à força da atração.

Na vida, não se avança por decreto. Como na parábola de Jesus, o ponto de transformação é a descoberta da pérola escondida ou o tesouro no campo. Somente assim experimentaremos que "onde está o nosso tesouro, lá estará também o nosso coração".

A vida humana não é estática, mas sim extática. A vida é êxtase, movimento, desejo de se juntar ao objeto de amor. Consuma-se por uma paixão que brota de uma beleza capaz de nos iluminar. No entanto, pertencemos a um tempo e a uma cultura que parecem ter renunciado à beleza. Para redescobri-la, provavelmente teremos que abraçar o silêncio e a lentidão dos caminhos menos frequentados.

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