Teologia da Libertação e Teologia da Misericórdia

Foto: Pxhere

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

19 Março 2018

"Enquanto uma tem como horizonte privilegiado a cruz social e política, através da opção preferencial pelos pobres, por exemplo, a outra concentra sua atitude sobre a cruz pessoal, tentando sanar as feridas que indivíduos e famílias acumulam nos embates diários. Não poucas vezes, implícita ou explicitamente, nas atividades da solicitude pastoral, uma excluía a outra. Em tal caso as duas, seja na análise que na ação, acabam por caminhar em vias paralelas", escreve Alfredo J. Gonçalves, padre carlista, assessor das Pastorais Sociais.

Eis o artigo. 

Digamos que a primeira, Teologia da Libertação (TdL), tem como pontos de referência indiscutíveis a experiência fundante do Povo de Israel, de uma parte, e o movimento profético, de outra. Evidente que tudo isso converge para a Boa Nova de Jesus Cristo, direcionada primordialmente aos pobres e oprimidos. A Teologia da Misericórdia (TdM), por seu lado, fundamenta-se de modo particular no sermão da montanha (ou da planície) e na figura de Jesus como o Bom Pastor em busca da “ovelha perdida”. Além disso, confere um peso todo especial às dimensões do perdão e da compaixão do Nazareno diante de pessoas feridas e concretas que lhe cruzam o caminho.

A saga da libertação do Egito narrada pelo Livro do Êxodo – passagem da escravidão à Terra Prometida, através do Mar Vermelho e do deserto – constitui uma das minas mais escavadas pela TdL. De outro lado, o movimento profético, particularmente em Is 61,1-3a, faz a ponte entre a antiga e a nova aliança. De fato, ao iniciar seu ministério público na cidade de Nazaré, em Lc 4,14-14, o Mestre reporta-se justamente àquela passagem de Isaías para pavimentar o alicerce do que alguns estudiosos chamam o programa de Jesus: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-se para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a vista; para libertar os oprimidos, e para proclamar um ano de graça do Senhor”. Resulta notório a centralidade do conceito de libertação, entendido como superação de determinadas condições sociais.

Por outro lado, de um ponto de vista geral, são a bem-aventuranças, as quais, na narração de Lucas, vêm acompanhadas das maldições (Lc 6,20-26), juntamente com as parábolas do Bom Samaritano (Lc 10,25-37) e do Bom Pastor (Jo 10,21), que pavimentam o alicerce da TdM. Entretanto, percorrendo detalhadamente as páginas dos relatos evangélicos, vemos a misericórdia traduzir-se em inúmeros gestos e palavras de Jesus dirigidos a pessoas bem concretas: a cura dos leprosos e dos cegos, do paralítico e da encurvada; a atenção à mulher que sofria de fluxo de sangue e a outra que havia perdido o filho; o perdão a Pedro, Madalena e aos que o crucificavam; a compaixão diante das multidões famintas, ou “cansadas e abatidas”... A misericórdia adquire um rosto familiar, tanto de parte de quem a oferece quanto de parte de quem se beneficia. O olhar de Jesus reflete a face oculta do Pai, ou melhor, revela o mistério amoroso de Deus.

O problema está em que, não raro, ao se cruzarem, a TdL e a TdM se chocam, se opõem e se desencontram. Enquanto uma tem como horizonte privilegiado a cruz social e política, através da opção preferencial pelos pobres, por exemplo, a outra concentra sua atitude sobre a cruz pessoal, tentando sanar as feridas que indivíduos e famílias acumulam nos embates diários. Não poucas vezes, implícita ou explicitamente, nas atividades da solicitude pastoral, uma excluía a outra. Em tal caso as duas, seja na análise que na ação, acabam por caminhar em vias paralelas. A própria realidade, porém, desmente essa visão dualista e esquizofrênica. Os fatos encarregam-se de mostrar que a cruz social e política agrava o peso das cruzes individuais ou familiares. E inversamente, a soma ou multiplicação das cruzes individuais e familiares conferem maior gravidade e maior visibilidade à cruz social e política. Em outras palavras, ambas as dimensões – social/política ou pessoal/familiar – se entrelaçam e se complementam reciprocamente.

Cabe portanto a pergunta: onde está a sabedoria? O velho Aristóteles dizia que “a virtude está no meio”. Não se trata de buscar, de forma artificial e mecânica, um meio termo que satisfaça a todos. Ao contrário, trata-se de ler as cruzes pessoais e familiares no contexto mais amplo e histórico da cruz social e política. De outro lado, ao analisar esta última, não podemos deixar de lado rostos, nomes e pessoas com trajetórias próprias, únicas e irrepetíveis. Uma solicitude pastoral integral e de conjunto deve estar preparada não só para compreender a complexidade dinâmica de ambos os aspectos, mas sobretudo para agir de forma coerente e consequente, mirando ao mesmo tempo as feridas particulares, de um lado, e as injustiças, assimetrias e desigualdades sociais, de outro. A caridade evangélica não pode excluir nem umas nem outras. Exemplo concreto dessa sinergia temos na trajetória pessoal, ministerial e missionária do Papa Francisco.

Leia mais