A revolta da Polônia contra o Papa Francisco. A corrente racista dos bispos de Varsóvia

Foto: Francisco Javier Toledo Ravelo /Flickr

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16 Outubro 2017

Uma das frentes anti-Francisco passa pela Polônia, onde o único papa por enquanto considerado pela maioria dos fiéis católicos é São João Paulo II. O alarme tocou no último dia 7 de outubro, o aniversário da vitória naval dos católicos contra o Islã em Lepanto, em 1571. Por iniciativa de dois leigos católicos convertidos e nostálgicos de uma igreja que brandia a espada, um milhão de católicos dispuseram-se ao longo de 3500 quilômetros de fronteiras para recitar todos ao mesmo tempo o Rosário "para a paz e para proteger a pátria e resto da Europa da secularização e principalmente da islamização".

A reportagem é de Carlo Di Cicco, publicado por Tiscali, 13-10-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Uma forma talvez articulada e pomposa demais para esconder a realidade do verdadeiro objetivo: uma palavra de ordem contra imigrantes e refugiados, na maioria muçulmana de acordo com a opinião dos católicos poloneses, estão invadindo a Europa e colocando em risco a identidade católica do continente e da própria Polônia. Vinte e duas dioceses polonesas de um total de 42 participaram. A iniciativa, que envolveu um milhão de pessoas moveu-se na direção oposta do empenho contínuo e lúcido de Francisco para o acolhimento de refugiados e imigrantes necessitados, foi apoiada pelo governo polonês, por uma parte dos bispos e pela cúpula da Conferência Episcopal, além da poderosa Rádio Maria de orientação tradicionalista e da televisão pública polonesa.

A iniciativa foi publicamente criticada pelo bispo Tadeusz Pieronek, ex-secretário da Conferência Episcopal que, entrevistado pela "Famiglia Cristiana", quis esclarecer que o rosário "não é uma arma ideológica", denunciando o apoio de uma parte dos bispos para a corrente racista do governo de Varsóvia. Em sua opinião, parece que os bispos não estão conscientes "da manipulação da Igreja pelo governo" e que parte da Igreja foi, no mínimo, gravemente ingênua nessa circunstância. Na opinião do prelado todos os poloneses que participaram do rosário "são contra o pensamento e ensinamento do Papa Francisco", mostrando que na Polônia "está ocorrendo uma batalha para convencer as pessoas de que cada refugiado é um bandido que ataca a identidade polonesa e é uma ameaça grave e real para a saúde e a vida de poloneses".

Os laicos católicos progressistas são uma minoria entusiasta pelo Papa Francisco e estão preocupados com a esperteza com que tantos sacerdotes e bispos do país deixam entender que concordam com Francisco, mas depois pregam e atuam contra as suas orientações pastorais e doutrinais. Escondem-se por trás de uma falsa preocupação segundo a qual a melhor coisa a fazer é ajudar os refugiados em suas casas. Boa parte da população segue os bispos, mas quase parece que os conservadores mais determinados estejam entre os leigos.

No entanto, a Igreja na Polônia desfruta de um considerável bem-estar econômico desde que, além da disponibilidade de dinheiro, foi acrescentada a restituição do patrimônio imobiliário confiscados na época do comunismo. Até mesmo na Polônia é tempo de nacionalismo que se alimenta do populismo que - segundo alguns - desloca o centro do país e da Igreja para um terreno perigoso para a própria democracia.

Em várias ocasiões, já há algum tempo, perguntamo-nos onde estão os críticos do Papa Francisco. Na Polônia manifestaram-se abertamente com o mal-entendido de uma oração clara e evidentemente manipulada. Resistências similares podem ser registradas em outros países, especialmente ocidentais.

O papa tem ciência disso, mas não desiste do compromisso de mudar o paradigma da consciência que a Igreja tem de si mesma e da tradicional presença pastoral. Obra gigantesca lançada pelo Concílio que o papa pretende levar adiante sem hesitação, contudo, (em respeito com a misericórdia) com luvas de pelica, deixando aos seus críticos as inúteis polêmicas e esclarecendo cada vez mais decididamente a necessidade de passar de uma Igreja que celebra a batalha de Lepanto para uma Igreja que manifesta claramente e sempre a misericórdia de Deus. Com todas as consequências, inclusive nas tradicionais relações com o poder político e econômico.

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