Aumento dos diagnósticos psiquiátricos na infância, sustentado por fragilidades epistemológicas e pela lógica da detecção precoce, contribui para a medicalização da vida e a redefinição de experiências comuns como patologias
A crescente centralidade dos diagnósticos psiquiátricos na infância e adolescência constitui um dos fenômenos mais inquietantes do nosso tempo. Em sua conferência ao IHU Ideias intitulada A infância como problema. Patologização e psiquiatrização de crianças e adolescentes ministrada em 09-04-26, cujos principais trechos reproduzimos a seguir em formato de entrevista, Sandra Caponi chama atenção para o “crescimento extraordinário dos diagnósticos psiquiátricos na infância nos últimos anos”, destacando como categorias como TDAH, TEA e TOD passaram a integrar o vocabulário diário de famílias, escolas e serviços de saúde. Longe de refletir apenas avanços científicos, esse processo revela, segundo a pesquisadora, uma transformação mais profunda na forma de interpretar os sofrimentos psíquicos, marcada pela antecipação diagnóstica e pela intervenção precoce: “essas categorias, que antes eram relativamente raras, passam a fazer parte do vocabulário cotidiano”, consolidando a ideia de que tais diagnósticos possuem a mesma base objetiva de outras doenças médicas, ainda que suas causas biológicas permaneçam indefinidas. Trata-se, assim, de um movimento que naturaliza a patologização da infância, deslocando questões complexas para o campo médico.
Esse cenário é sustentado por uma “elasticidade diagnóstica” que, conforme Caponi, decorre de fragilidades epistemológicas no campo da psiquiatria, permitindo a ampliação contínua das categorias e a inclusão de populações cada vez mais amplas e jovens. Nesse contexto, emerge também uma “obsessão pela detecção precoce centrada no discurso do risco”, que transforma experiências comuns do desenvolvimento em potenciais sinais de transtorno. Tal lógica “levou a patologizar comportamentos e emoções que eram comuns e aceitos como parte do ciclo de vida evolutivo”. Ao mesmo tempo, a difusão dessa cultura diagnóstica redefine a maneira como indivíduos compreendem suas próprias experiências, já que “a linguagem médica se apropriou do discurso sobre nossas subjetividades”. Assim, suas reflexões evidenciam não apenas a expansão dos diagnósticos, mas também seus efeitos na construção das subjetividades, na medicalização da vida e na redução da complexidade dos sofrimentos sociais a categorias individuais e neurobiológicas. “Uma criança nunca é um ser isolado, por isso é necessário situar seus comportamentos em um marco geral, entendendo a forma como manifesta seu mal-estar como um pedido de socorro e atenção”, pondera.
Sandra Caponi (Foto: Arquivo pessoal).
Sandra Caponi é graduada em Filosofia pela Universidad Nacional de Rosário (Argentina). Possui mestrado e doutorado em Lógica e Filosofia da Ciência pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP), com pós-doutorados na Universidade de Picardie e na École des Hautes Études en Sciences Sociales, ambas na França. Leciona no Departamento de Sociologia e Ciências Políticas da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), atuando ainda na Pós-graduação em Sociologia Política e no Mestrado profissional em Saúde Mental da mesma instituição. É autora de Loucos e Degenerados: uma genealogia da psiquiatria ampliada (Fiocruz, 2012) e organizou, entre outros, Medicalização da Vida: ética, saúde pública e indústria farmacêutica (Unisul, 2010).
A professora esteve na Unisinos em 22-05-2014, ministrando a palestra Medicalização da saúde mental. O evento, parte do III Seminário preparatório para o XIV Simpósio Internacional IHU – Revoluções tecnocientíficas, culturas, indivíduos e sociedades, ocorreu na sala Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros, no IHU.
Confira a entrevista.
IHU – Em que aspectos podemos dizer que há uma naturalização dos diagnósticos psiquiátricos entre crianças e adolescentes?
Sandra Caponi – A medicalização, patologização e psiquiatrização de crianças e adolescentes é um tema central de nosso tempo. A obra Política e Psicofármaco se dedica ao tema da clorpromacina e sua história, onde também analiso a patologização das crianças. É preciso atentarmos para o crescimento extraordinário dos diagnósticos psiquiátricos na infância nos últimos anos. Particularmente, então, tento analisar e discutir uma questão que se apresentou como um desafio recentemente, sobre se é possível, ou não, pensar em um atendimento a crianças se dê no campo da pedagogia, da assistência social e da psicologia, que prescinda da necessidade de ter diagnósticos psiquiátricos.
Nessa obra discuto sobre a questão dos problemas epistemológicos que permitem esse crescimento extraordinário de diagnósticos na infância. Justamente o que suscita esta discussão é o tema do crescimento impressionante de diversos diagnósticos psiquiátricos como Transtorno de Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), Transtorno de Espectro Autista (TEA), bem como transtornos de conduta como o Transtorno de Oposição Desafiante (TOD).
Há, ainda, uma imagem sobre isolamento social que tem a ver com as redes sociais e seu uso pelas crianças. Esse é um tema que não abordamos, mas que é extremamente interessante, vinculado a esta questão dos dispositivos de redes sociais e o aumento dos problemas de saúde mental. Estas categorias, que antes eram relativamente raras, passam a fazer parte do vocabulário cotidiano de famílias, escolas e serviços de saúde. Este fenômeno tem que ser compreendido, então, como resultado não tanto dos avanços científicos, no reconhecimento de sofrimentos que antes estavam invisibilizados, mas da detecção precoce de transtornos mentais, de que devemos intervir precocemente com crianças cada vez mais pequenas na detecção de casos de transtornos mentais.
Isso realmente não tem ajudado nem a controlar, nem a curar estes transtornos: pelo contrário, tem levado a naturalizar a ideia de que os diagnósticos psiquiátricos fazem parte de uma lógica utilizada para definir qualquer diagnóstico médico para qualquer outra doença, cujas causas biológicas já são bem conhecidas.
Autores como Sami Timimi ou Birman argumentam que para entender tal fenômeno é preciso falar de uma transformação cultural e institucional na maneira como interpretamos as infâncias. Timimi, psiquiatra londrino com vasta experiência em psiquiatria infantil, trabalha desde os anos 1990 com uma perspectiva um pouco diferente. No texto Searching for normal, que é realmente um trabalho muito bom, questiona sobre como eram as intervenções no passado, quando começou sua carreira como psiquiatra, e como são feitas as intervenções hoje. Entendo que essa perspectiva analítica é muito interessante, uma vez que permite comparações e analisa muitos casos que me parece ilustrarem bem os diferentes fenômenos. Timimi argumenta que, à diferença de uma infecção por bactéria como a sífilis ou de uma doença como a diabetes, no campo dos transtornos mentais não existe nenhuma explicação biológica reconhecida. Não há marcador genético identificado, nem desequilíbrio químico confirmado, nem estudos de imagem que indiquem que se trata de uma doença neurológica.
E é justamente essa fragilidade epistemológica a que possibilita a elasticidade que caracteriza os diagnósticos psiquiátricos e que permite que cada vez tenhamos mais e mais números de crianças diagnosticadas. Essa elasticidade possibilitou, por um lado, o aumento de diagnósticos atribuídos a crianças cada vez menores. Hoje, temos crianças de dois e três anos diagnosticadas com depressão, coisa que há tempos era impensável. Por outro lado, há uma expansão de diagnósticos destinados a crianças para a população adulta, particularmente aplicado a mulheres, como é o caso do TEA ou do TDAH, bem como o TOD. No caso do TEA, o diagnóstico se multiplicou por três vezes nos últimos dez anos.
Nesse marco, a pesquisadora Uta Fried, uma das criadoras da nomenclatura Transtorno de Espectro Autista (TEA), acaba de afirmar, no mês de março deste ano, que esse diagnóstico colapsou. Esta pesquisadora dedicou 60 anos ao estudo do autismo, do transtorno de espectro autista na University College London, e afirmou que não acreditava que existisse alguma coisa que pudesse unificar todas as pessoas que hoje são diagnosticadas como autistas.
Ela diz que não é possível que utilizemos o mesmo critério diagnóstico para definir dois grupos tão heterogêneos e diferentes. Por um lado, estão as crianças diagnosticadas antes dos cinco anos de idade, com dificuldades de comunicação e com algum tipo de incapacidade intelectual severa. Esse grupo não aumentou: se mantém mais ou menos estável. Mas, por outro lado, há um grande grupo de adolescentes e mulheres adultas, mas agora também homens, que têm ansiedade social e procuram o diagnóstico. Ativamente procuram o diagnóstico no TikTok e em diferentes espaços. Entretanto, não padecem de nenhum tipo de incapacidade intelectual.
E é justamente esse segundo grupo o que tem aumentado de maneira alarmante. Inversamente, o diagnóstico de depressão, que era comum em adultos, fundamentalmente em mulheres, foi estendendo-se a toda a sociedade. Hoje, crianças muito pequenas, em idade do ensino pré-escolar, recebem a prescrição de algum inibidor seletivo de recaptação de serotonina, com todos os efeitos adversos que essas drogas produzem no desenvolvimento infantil.
Binkman denominou esse novo fenômeno que aparece nos últimos 10 a 15 anos como cultura do diagnóstico. Ele afirma que nessa lógica, a linguagem médica se apropriou do discurso sobre nossas subjetividades. Então, pais e crianças que nomeavam sentimentos e emoções como medo, tristeza, fadiga ou as dificuldades de aprendizagem, hoje o fazem a partir de etiquetas psiquiátricas, como depressão ou ansiedade.
IHU – Considera que existe uma obsessão pela detecção precoce centrada no discurso do risco? Por quê?
Sandra Caponi – O certo é que entre o ano 2013 e 2023, a incidência de ansiedade e depressão na infância e até em idades muito iniciais, superou pela primeira vez os diagnósticos em adultos, coincidindo com uma maior exposição a telas maior isolamento social, bem como uma maior obsessão que perpassa as famílias, as escolas e o discurso psiquiátrico por identificar precocemente os transtornos mentais. Esse aumento de depressão e ansiedade, longe de levar a questionar os limites e as dificuldades do modelo médico hegemônico ou a eficácia dos tratamentos psicofarmacológicos, ajudou a propagar um discurso sobre a necessidade de ampliar o número de casos atendidos.
A referência universal para nomear e identificar os transtornos continua centrada no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª Edição), cujas ambiguidades explicativa e fragilidade epistemológica já foram questionadas severamente por autores de referência no campo da psiquiatria, mesmo da psiquiatria hegemônica, como Thomas Insel ou Alan Francis, bem como por autores provenientes do campo da psiquiatria crítica.
Esses pesquisadores mostram que existe uma obsessão pela detecção precoce centrada no discurso do risco: de que se não intervirmos, então se corre o risco de que essa doença se agrave ou que se cronifique, ou mesmo que se chegue a uma patologia incontrolável, que não possa ser revertida. Insel e Francis mostram que a obsessão pela detecção precoce centrada nesse discurso do risco levou a patologizar comportamentos e emoções que eram comuns e aceitos como parte do ciclo de vida evolutivo de crianças e adolescentes até poucos anos atrás.
Em consonância com uma tradição de estudos sociológicos como os estudos de Irving Goffman, como estigma, ou epistemológicos, como os trabalhos de Ian Hacking, hoje sabemos o impacto que pode causar na construção da subjetividade de uma criança ou de um adolescente o fato de identificar-se como doente. Cada diagnóstico e tipificação de pessoas contribui fortemente, diz Hacking, para produzir o tipo de comportamento indicado por esse transtorno.
O que Hacking denomina efeito bucle aponta para o fato de que todos os sofrimentos e dificuldades que fazem parte de nossas vidas sejam compreendidos por esse viés, sendo vistos como um efeito inevitável do diagnóstico. Esse efeito bucle é o que se escuta quando analisamos os discursos e relatos dos especialistas por experiência ou sobreviventes da psiquiatria, como, por exemplo, o caso de Laura Adelano em relação a uma competição esportiva, tido como psiquiatrizável. Assim, essas crianças e adolescentes foram levadas pelos pais a um psiquiatra e receberam um primeiro diagnóstico aos 14, 15 ou 16 anos. No caso de Laura, 17 anos, ela se tornou uma “sobrevivente da psiquiatria”, iniciando uma “carreira psiquiátrica” por um problema que poderia ter sido resolvido com outras estratégias educativas e/ou familiares.
Laura Adelano e outros tantos relatos de especialistas por experiência, que fomos recolhendo com nosso grupo a partir de entrevistas, mostram como verdadeiras carreiras psiquiátricas que perduram ao longo da vida adulta, se iniciaram com a indicação de um diagnóstico para superar um problema banal, próprio da infância ou da adolescência, iniciando um ciclo de diagnósticos sucessivos, internações psiquiátricas e terapêuticas diatrogênicas. Tais diagnósticos podem levar a acreditar que nada pode ser feito para superar a situação vivenciada, porque todos os problemas passam a ser vistos como efeitos de uma doença do cérebro, como sendo um problema neuroquímico. Então, como afirma Sami Timimi, esse que era um problema que podia ser gerido, se transforma em um verdadeiro problema sobre o qual perdemos qualquer ingerência.
Por outra parte, também são os relatos dos especialistas por experiência aqueles que nos indicam a ineficácia a longo prazo das terapêuticas psicofarmacológicas, isso porque diversos dos estudos que temos de muitos fármacos antidepressivos, inibidores de serotonina como a Ritalina são de curto prazo. Assim, tais estudos nos indicam uma fotografia mais ou menos instantânea de três a quatro meses da realidade de uma pessoa, não mais do que isso.
IHU – Quais são os efeitos e consequências dessas medicações psiquiátricas?
Sandra Caponi – Crianças que começam a tomar medicação psiquiátrica provavelmente vão tomá-la ao longo da vida, ou pelo menos por 15 ou 20 anos. Pelos relatos dos especialistas por experiência, dos sobreviventes da psiquiatria, conhecemos a ineficácia a longo prazo das terapêuticas psicofarmacológicas, tanto pelos efeitos adversos que provocam como pelo efeito desejado de sedação, neutralidade emocional e embotamento afetivo que muitas dessas drogas, como os antipsicóticos, produzem. Conhecemos os efeitos dos antipsicóticos na infância, como a prolactinemia, problemas hepáticos e neutralidade emocional, entre outros.
Muitas dessas questões chegaram à justiça e a Johnson & Johnson, que é, na verdade, o laboratório Janssen, que pertence à Johnson & Johnson, pagou cifras milionárias a crianças que foram afetadas pelo consumo diário de Ritalina e que desenvolveram prolactinemia e hiperprolactinemia, o que significa que meninos e até homens desenvolveram seios e leite. Também sabemos, através de uma publicação pela revista The Lancet e outras informações colhidas em 2004 e que levaram à inserção de uma tarja preta nos antidepressivos, que medicamentos desse tipo, como o Paxil, produzem graves efeitos em crianças. Um desses efeitos adversos, o que eu considero mais alarmante, é que estimula ideações e comportamentos suicidas.
Se procurarmos no Medline pelo nome Paxil, veremos que esse medicamento pode, sim, produzir ideações suicidas na infância. Já a Ritalina e outros derivados, costumeiramente receitados para o TDAH, gerando êxito de vendas para Novartis, são derivados anfetamínicos de alto poder viciante. Sami Timimi diz que a hipertensão, alterações de sono, afeições neurológicas como Parkinson e todo esse quadro está derivado de sua ação de liberação de dopamina.
Autores como Moncria e Fuitaker argumentam que o uso de psicofármacos na infância, sejam estimulantes antipsicóticos, sejam antidepressivos, produzem uma forma de anedonia química, reduzem a capacidade de reagir emocional e comportamentalmente aos estímulos. O termo apatognose vem sendo utilizado para descrever esse estado de desconexão, indiferença, embotamento, que frequentemente os pais e familiares interpretam como uma melhora e que as escolas e os serviços vêm com bons olhos porque permitem minimizar conflitos.
O aumento de diagnósticos e o uso de psicofármacos acontece em um marco de incertezas, aquele que eu já mencionei no início de minha reflexão, quando comentei as fragilidades epistemológicas, considerando que as causas biológicas, neurológicas ou genéticas dessas patologias ainda não foram definidas.
IHU – Em que medida podemos afirmar que os diagnósticos criam subjetividades?
Sandra Caponi – Em Neurociência e Discurso Neoliberal, após a leitura exaustiva de meta-análises realizadas em diferentes campos da psiquiatria biológica, François Gonon mostra que esse campo médico parece estar sustentado naquilo que ele define como uma retórica da promessa. Essa retórica acontece em três campos diferenciados.
Primeiro, a promessa de identificar marcadores genéticos ou epigenéticos, que ainda não foi concretizada. A hipótese de que existiriam desequilíbrios neuroquímicos que explicariam essas alterações hoje está seriamente questionada, bem como a suposta efetividade de antecipação de riscos, a detecção precoce, que leva a identificar os sintomas nas crianças cada vez menores, definindo cada vez mais cedo estes diagnósticos. Essas promessas se desvanecem perante os relatos que mencionei dos especialistas por experiência, sobreviventes da psiquiatria, que começaram suas carreiras psiquiátricas na infância e na adolescência.
Mesmo assim, a pesquisa psicofarmacológica permanece centrada nos modelos simplificados de desequilíbrios neuroquímicos, ignorando que os sofrimentos psíquicos têm causas complexas e multifatoriais. Diante dessa incerteza, marcada por diagnósticos ambíguos e efeitos diatrogênicos dos psicofármacos, vários laboratórios reduziram investimentos em saúde mental. Patrick Wallens, diretor de GlaxoSmith & Claim, afirmou em 2010 que a empresa não investiria mais em psicofármacos devido a modelos animais pouco realistas, referindo-se a experiências com ratos e aos resultados imprevisíveis dos estudos e às dificuldades para diagnosticar e recrutar pacientes.
Aqui refiro-me à questão da ambiguidade dos diagnósticos. Há uma persistência da cultura do diagnóstico no campo das instituições que se ocupam dos apoios às crianças.
Então, apesar do dito até aqui, a cultura do diagnóstico foi se transformando em uma modalidade privilegiada de interpretar nossos conflitos. Essa cultura tem levado a que crianças e adultos adotem ativamente a linguagem diagnóstica para definir suas identidades, com um custo muito elevado. Drogas psiquiátricas afetam cérebros em desenvolvimento e diagnósticos constroem subjetividades isoladas e centradas em si próprias, individualizando problemas sociais e diluindo as fronteiras entre o normal e o patológico. Nesse contexto, normalizamos propostas que reforçam esse isolamento como a recente aprovação da plataforma E-Saúde Mental, a qual realmente penso que não foi em absoluto uma boa ideia do SUS, que recebeu um financiamento milionário de fundos públicos.
Essa plataforma foi apresentada como uma estratégia digital para ampliar diagnósticos precoces e reduzir incapacidades, o que certamente levará a aumentar ainda mais os diagnósticos na infância, a despolitizar os sofrimentos, reforçando a individuação e cerebralização dos conflitos sociais. Assim, em lugar de interpretar os sofrimentos e as dificuldades como experiências situadas em contextos familiares, escolares ou sociais específicos, passarão a ser definidas como expressões de transtornos neurobiológicos individuais que se podem obter a partir de um teste. Essa mudança não é neutra.
Ela desloca o foco das condições sociais e relacionais nas quais o sofrimento emerge para o interior do cérebro da criança, transformando as dificuldades da vida cotidiana em categorias patologizantes. Ao mesmo tempo, possibilita a criação de um imenso mercado de testes, cursos, estratégias diagnósticas online, enfim, estudos inconclusivos, medicamentos de eficácia duvidosa que desconsideram que existem estudos científicos que evidenciam justamente a falta de operatividade desta abordagem reducionista. Como afirma Timimi, a ciência não pode impor-se ao marketing em uma economia impulsionada pelo livre mercado.
IHU – Que relações são possíveis de estabelecer entre o capitalismo moderno e as crises de saúde mental?
Sandra Caponi – Nesse marco podemos fazer algumas afirmações a partir do livro Sedated: How Modern Capitalism Created Our Mental Health Crisis, de James Davies, sobre como o capitalismo moderno cria nossas crises de saúde mental.
Também nesse mesmo registro podemos inscrever as afirmações feitas em 6 de abril deste ano no programa Roda Viva, no qual foi entrevistado o Dr. José Salomão Schwartzman. Questionado sobre o motivo do aumento de diagnósticos psiquiátricos na infância, ele diz: “Podemos observar no Instagram o aumento de cursos de pós-graduação destinados à TEA e TDAH. Hoje esses transtornos, mais o Transtorno de Oposição Desafiante tornaram-se os melhores business do mundo, pois faturam milhões de reais e enganam a milhares de pessoas”.
Tais cursos, destaco, não aparecem somente no Instagram. Na última década, a expansão de programas de capacitação relacionados à TDAH e ao TEA no Brasil passaram pouco mais de dez. Hoje, há mais de 70 a 80 cursos breves, online ou presenciais, mais caros ou mais baratos, entretanto a oferta é imensa. Tais cursos são destinados a profissionalização, sensibilização e promessa de empregabilidade, vendendo acesso ao mercado laboral em expansão, especialmente para o âmbito da clínica, escola e acompanhamento terapêutico. Essa expansão não se limita a dar resposta a uma demanda pré-existente, pelo contrário: faz parte constitutiva de um processo de geração de demanda.
Longe de simplesmente transmitir um conhecimento técnico, esses cursos participam ativamente da disseminação de categorias diagnósticas e contribuem para a consolidação de uma linguagem comum entre profissionais, educadores e familiares. Nesse sentido, a capacitação funciona como um mecanismo que articula conhecimento, intervenção e o mercado. Ao mesmo tempo que promete desenvolvimento de habilidades e empregabilidade, amplia o escopo de explicações diagnósticas e reforça a centralidade dos diagnósticos da DSM.
A proliferação de cursos, especialmente aqueles de formato on-line, com baixo custo e alta acessibilidade, contribui para a expansão do campo da saúde mental infantil e para sua reconfiguração, deslocando as fronteiras entre o que se pode considerar como variabilidade normal de uma criança ou adolescente até um transtorno mental.
Como observa Sami Timimi, tudo isso tem menos a ver com a descoberta de novas doenças e muito a ver com a mudança de narrativas culturais sobre o sofrimento e comportamentos. Em outras palavras, trata-se de uma mudança nas estratégias institucionais através das quais somos obrigados a interpretar as dificuldades. Porque, para ter acesso a direitos, as crianças precisam ter o diagnóstico. Nesse marco, perpassado por fragilidades epistemológicas severas que tentei mencionar até aqui, vemos que os diagnósticos se transformam em dispositivo de acesso a direitos. Hoje, o diagnóstico é o que abre a porta para apoios escolares, benefícios sociais, adaptações pedagógicas, de modo que para receber cuidados ou proteção social muitas famílias se veem obrigadas a aceitar que seu filho seja classificado como portador de um diagnóstico.
Essa dinâmica cria o que podemos chamar de uma armadilha institucional. Por um lado, o diagnóstico oferece uma forma de legitimar o sofrimento e garantir o acesso a recursos. Por outro lado, o mesmo processo que permite acesso a políticas públicas também contribui para a expansão contínua de categorias diagnósticas, o que significa e reforça a ideia de que emoções e comportamentos, no lugar de serem entendidos como conflitos presentes na vida dessas crianças e sobre os quais é possível intervir (racismo, bullying, medo, isolamento social, vergonha), são reduzidos a problemas médico-psiquiátricos.
Timimi chama a atenção para o fato de que esse processo produz um círculo que se retroalimenta: quanto mais o acesso a recursos depende de diagnóstico, maior é a pressão institucional para ampliar o critério de diagnósticos. E quanto mais se expandem as categorias, maior será a população que poderá passar a ser considerada portadora de transtornos e maior será o número de cursos e testes.
Outro aspecto importante que devemos observar é que a expansão de diagnósticos não afeta todas as crianças do mesmo modo. Frequentemente, as crianças provenientes de contextos sociais mais vulneráveis são aquelas que acabam sendo mais especificadas como portadoras de transtornos. Problemas relacionados à pobreza, desigualdade social, violência e precariedade das redes de cuidado tendem a ser reinterpretados como déficits individuais. O diagnóstico psiquiátrico reduz experiências complexas de sofrimento a categorias médicas que individualizam e despolitizam os conflitos.
Por exemplo, podemos lembrar as análises históricas de Michel Foucault sobre o poder psiquiátrico e a produção de normalidade e seus estudos referentes às instâncias entre o poder psiquiátrico e o saber médico, uma distância que mostra que as classificações psiquiátricas não são apenas descrições médicas de doenças naturais, mas que participam de um conjunto amplo de práticas que definem o que pode ser aceito em determinada sociedade e o que deve ser controlado e excluído.
Quando o diagnóstico se transforma na principal porta de entrada para as políticas públicas, estamos aceitando como sociedade que, para que o sofrimento possa ser reconhecido institucionalmente, ele deverá, primeiramente, ser convertido em linguagem médica, como uma patologia, quando na verdade pode ser que não exista nada mais do que um pedido de ajuda. Não quero aqui minimizar os problemas de saúde mental na infância e adolescência, mas sim considerar a complexidade desses problemas.
IHU – O que a pesquisa PENSE-IBGE 2026 revela sobre a saúde mental de crianças e adolescentes?
Sandra Caponi – Gostaria de me referir à pesquisa de saúde PENSE-IBGE 2026, que foi divulgada com muito alarmismo. Em jornais como Folha de S.Paulo e outras mídias, esses dados foram lidos como indicação de que era necessário investir mais recursos de saúde mental, mais diagnósticos e tratamento. Como estamos refletindo, não são poucos os diagnósticos e tratamentos psicofarmacológicos já existentes. Então, gostaria de propor outra leitura do que este estudo nos apresenta. Menciono rapidamente dois ou três capítulos da pesquisa a fim de olhá-la com outros olhos.
Esse estudo conclui que os adolescentes se sentem cada vez mais solitários, desamparados e insatisfeitos com a própria imagem. No capítulo dedicado à saúde mental são explorados os seguintes indicadores: é perguntado se os adolescentes têm amigos próximos, se sentem que alguém se preocupa com eles, se têm sentimentos de tristeza, irritabilidade e mau humor e se consideram que a vida vale a pena ser vivida ou não. Pergunta-se se os jovens sentem preocupação com as coisas comuns do cotidiano, se sentem vontade de se machucar de propósito, entre outras questões.
O levantamento ouviu 118 mil estudantes de 13 a 17 anos em 2024, dentre os quais 30% afirmaram que se sentem tristes sempre ou na maioria das vezes.
A pesquisa desenha um quadro especialmente duro para as meninas. Um terço delas relata ter sofrido alguma humilhação de colegas. Uma a cada quatro já foi sexualmente assediada, além de 12% afirmarem ter sido estupradas. Sabemos que problemas como solidão, falta de reconhecimento, satisfação com a própria imagem e a preocupação com problemas cotidianos fazem parte do dia a dia de crianças, adolescentes e adultos. Mas esses problemas não são necessariamente indicadores de problemas mentais.
No caso dos meninos, os números apontam que eles têm mais dificuldades de fazer amigos e sofrem de solidão. Não parece existir aí nada que remeta a transtorno ou doença, mas a fatos sociais que se agravam com as redes sociais, com um mundo virtual que estimula o isolamento e a competição, a humilhação pública e o cyberbullying. Isso significa que esses adolescentes têm enorme dificuldade de enfrentar seu dia a dia social. Mas nada disso se refere à necessidade de mais diagnósticos psiquiátricos, não significa que eles têm problemas de saúde mental, mas que seu entorno social, longe de ser acolhedor, é hostil e ameaçador. Eles não estão doentes, mas sozinhos.
Outro dado significativo aparece no capítulo dedicado a bullying e cyberbullying, que não faz parte do capítulo “saúde mental”. No entanto há dados que apontam as características da violência vivenciadas pelos adolescentes. Obviamente essa violência irá provocar mal-estares e sofrimentos. Se compararmos os dados de 2019 e 2020 percebe-se uma tendência de aumento percentual de estudantes que declaram sofrer bullying no Brasil, subindo de 22% a 27%. Quando se perguntam os motivos pelos quais acreditam que foram motivo de bullying, uma pergunta que entendo bastante complexa (como perguntar a uma mulher por que foi violentada), os que cometeram bullying ou por que o fizeram, os motivos elencados são os seguintes: raça, gênero e classe social. Inicialmente constam a aparência do rosto e do cabelo, logo a seguir a aparência do corpo. Em seguida, a cor ou raça revelam a presença significativa de bullying com conotação racial. As roupas, mochilas e material escolar usados surgem como bullying sofrido pelas diferenças econômicas como pobreza e diferenças sociais.
Mais de 30% das meninas declaram sentirem-se humilhadas por provocações de colegas. Duas vezes mais representaram vulnerabilidade em relação aos meninos. Em todas as regiões, as meninas apresentam percentuais mais elevados como vítimas de intimidação sistemáticas. A partir desses dados recentes, pergunto: quantas das crianças que sofreram racismo, violência de gênero ou discriminação por classe social e que perante essas ameaças sistemáticas sentem vergonha, medo, tristeza e escolhem isolar-se para evitar maus-tratos receberam diagnóstico de depressão ou ansiedade?
Quantas dessas crianças que reagem aos maus-tratos dos pares com raiva e agressividade receberam o diagnóstico de transtorno de comportamento? Quantas dessas crianças submetidas a situações de bullying perdem o sono, apetite, têm sentimento de culpa, respostas perfeitamente normais perante a agressão recebida, mas são diagnosticadas com depressão? Isso nos coloca diante de um desafio importante perante as políticas públicas, isto é, como oferecer apoio às crianças e às suas famílias sem exigir, necessariamente, que isso seja mediado por categorias diagnósticas?
IHU – Qual é o papel das políticas públicas nesse cenário?
Sandra Caponi – Timimi propõe deslocar o eixo das políticas públicas. Em lugar de organizar o acesso a partir de diagnósticos individuais, poderíamos pensar em modelos que reconhecem as necessidades das crianças em seus contextos sociais, escolares ou familiares. O que isso implica? Fortalecer estratégias comunitárias de cuidado, criar espaços urbanos mais acolhedores com praças, parques, ampliar os recursos educacionais inclusivos, desenvolver formas de apoio que não dependam, necessariamente, de classificações psiquiátricas. Mais do que negar a existência do sofrimento psíquico, esta perspectiva convida a repensar formas institucionais que ajudem crianças e adolescentes a lidar com seu sofrimento e emoções como sendo parte da vida. Uma criança nunca é um ser isolado, por isso é necessário situar seus comportamentos em um marco geral, entendendo a forma como manifesta seu mal-estar como um pedido de socorro e atenção.
Escutar a criança e a família, inclusive a escola, pode ser o ponto de partida para modificar o entorno adverso e gerir o sofrimento dessa pessoa. O desafio é como responder às necessidades de cuidado sem transformar as diferenças e dificuldades em patologias: reconhecendo e enfrentando a partir de uma perspectiva transdisciplinar as dificuldades derivadas de desigualdades, do racismo e misoginia na produção de sofrimentos psíquicos e mal-estar de gênero, oferecendo apoio pedagógico e psicológico a crianças com dificuldades de aprendizagem e comportamento sem exigir laudo médico, oferecendo assistência social que garanta benefícios e acompanhamento a famílias em vulnerabilidade, sem condicionar a diagnósticos psiquiátricos. Outras alternativas são criar espaços de escuta e cuidado, oficinas, acompanhamento psicossocial aberto a todos, sem necessidade de classificação clínica. É preciso pensar o cuidado como direito humano básico, e não como algo exclusivo de quem apresenta um laudo psiquiátrico.
Esse modelo centrado na doença parece ter fracassado. Deveríamos substituí-lo por um modelo centrado nos direitos humanos, que é aquele preconizado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), centrado em determinantes psicológicos e sociais do sofrimento psíquico atento a problemas como racismo, bullying, pobreza, misoginia, entre outros. É preciso lembrar que a OMS no ano de 2021 propõe política centrada na pessoa e atenta aos direitos, dizendo que a prática atual em todas as partes do mundo coloca as drogas psicotrópicas no centro da resposta do tratamento, enquanto intervenções psicossociais, psicológicas e o apoio de pares devem ser explorados e oferecidos no contexto de uma abordagem baseada em direitos.