Cristãos e islamitas. Uma só prece

Mais Lidos

  • “O agronegócio é hegemônico na mídia, no interior do Estado brasileiro e em toda a sua estrutura. Também é hegemônico no governo”. Entrevista com Joao Pedro Stedile

    LER MAIS
  • "Abusos contra os palestinos": a guerra de estupros entre Israel e o Hamas

    LER MAIS
  • A corrupção naturalizada, enfim desmascarada: o Banco Master. Artigo de Leonardo Boff

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

03 Agosto 2016

“Hoje estamos numa época muito vital para as religiões. O mundo tornou-se um laboratório que chama cada religião com os seus ritos e as suas liturgias a colocar-se ao serviço desta dimensão existencial da prece, bem mais importante do que a prece como expressão da fé doutrinal”, escreve Vito Mancuso, teólogo italiano e professor da Universidade de Pádua, em artigo publicado por La Repubblica, 02-08-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Eis o artigo.

Há dois dias, em diversas cidades da França e da Itália, alguns Imã e simples fiéis muçulmanos participaram da missa católica, num gesto absolutamente inédito e direi até inimaginável. Fizeram-no para testemunhar publicamente duas coisas: a solidariedade com os católicos pelo assassínio do padre Hamel e a inequívoca condenação do terrorismo que utiliza a religião. Mas, além da contingência imediata que está na base desta nobre iniciativa, convém colocar uma pergunta: os cristãos e os muçulmanos podem realmente orar juntos? A ocorrência de domingo é um evento autenticamente religioso e como tal reiterável também no futuro, ou é um evento sócio-político realizado num contexto religioso?

A minha tese é que se trata de um evento sócio-político num contexto religioso e que, como tal, o mesmo não pode tornar-se um evento religioso repetível no futuro, a não ser sempre em via de todo excepcional e com as mesmas finalidades sócio-políticas.

Isto significa que muçulmanos e cristãos, ou fiéis de outras religiões não podem, de nenhum modo, dirigir-se juntos ao único Deus? A resposta depende do que se entende por prece e de como se exerce o orar. Se a prece é entendida como proclamação da fé doutrinal é de todo evidente a impossibilidade estrutural de conduzi-la conjuntamente: o que têm em comum os fiéis que começam a orar dizendo “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” e que assim proclamam sua fé num Deus que é Trindade, com os fiéis que fazem do monoteísmo absoluto a essência decisiva da fé?

Enquanto se permanece ao nível das religiões instituídas, não é possível uma autêntica prece comum. Foi esta a razão que, em 1986, levou Joseph Ratzinger, então Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a não participar do meeting inter-religioso desejado por João Paulo II em Assis. De fato, não existe prece religiosamente conotada que não contenha sempre uma particular teologia. Quando o cristão diz “Pai nosso”, ele se dirige ao Deus crendo-o realmente tal, mas isto é de todo inaceitável para um muçulmano que entre os “99 belíssimos nomes de Alá” de sua tradição não encontra o apelativo de pai. E não o encontra porque para o Islã Deus não gera nenhum Filho porque uma relação de filiação ameaça a absoluta alteridade divina, de modo que os fiéis não podem ser chamados filhos de Deus.

Eu penso que o orar juntos se torne possível quando as religiões derem um passo atrás (ou em frente?) pondo-se a serviço da pura e nua humanidade às voltas com a fadiga de viver. A vida é demasiado grande para ser encerrada por qualquer religião, ou por qualquer filosofia ou teoria científica. Perceber tal superabundância da vida significa poder experimentar a validade antropológica da prece.

O verbo “orar” [“pregare”] vem do verbo latino precor, cujo infinito é precari [precário], termo hoje muito difuso para designar o instável e inseguro. A prece é, portanto, estritamente coligada com a precariedade: se reza [se faz uma prece] porque a gente se sente precário, provisório, não assegurado, à baila de forças maiores. É a situação experimentada hoje pelos seres humanos desde os primórdios: por isso jamais houve uma civilização priva de ritos e de liturgias. Há até religiões sem Deus, mas nenhuma sem prece.

A sensação de precariedade é tão mais intensa hoje no Ocidente, onde os pontos firmes da convivência social vacilam sempre mais e não há instituição política, econômica, cultural ou religiosa que seja isenta da contestação, e onde a existência dos indivíduos é exposta ao gelo do niilismo porque as argumentações tradicionais em apoio do bem, da justiça, do sentido, aparecem atualmente privas de força.

Nem por isso, todavia, no Ocidente se reza mais, antes aumenta a precariedade e diminui a prece. Mas, a precariedade incapaz de transformar-se em prece (encontrando as palavras mediante as quais fazer uma invocação, devoção, aspiração, exame de consciência), gera ansiedade, vazio interior, ausência de significado. Escreveu a este respeito Carl Gustav Jung: “A falta de significado impede a plenitude da vida e é equivalente à enfermidade”. Eis o crescente mal-estar do nosso tempo.

Dizendo “nosso tempo” entendo incluir também os muçulmanos que vivem no Ocidente, porque nem mesmo eles podem ficar isentos do espírito do tempo. A “morte de Deus” assinalada por Hegel (1802), Nietzsche (1882) e Heidegger (1940), não se refere somente ao Deus cristão, mas a toda instância de transcendência e com este fenômeno também o Islã deverá fazer as contas; antes, a meu ver já as está fazendo, porque somente assim se explica a fratura no seu interior entre inovadores e integralistas.

Exatamente há cem anos, mais precisamente aos 11 de junho de 1916, enquanto prestava serviço no exército austríaco no front oriental da Primeira guerra mundial, Ludwig Wittgenstein escrevia: “Orar é pensar no sentido da vida”. O pensar que aqui está em jogo não é somente uma atividade intelectual, mas algo integral: é pensamento que se torna vida e vida que se torna pensamento, e se pratica também com o corpo e o sentimento. Quem pensa assim ora, e quem ora assim pensa, procurando um sentido, uma direção, uma orientação, aspirando sair da desorientação do nada para obter uma via sobre a qual caminhar na fadiga de cada dia.

Hoje estamos numa época muito vital para as religiões. O mundo tornou-se um laboratório que chama cada religião com os seus ritos e as suas liturgias a colocar-se ao serviço desta dimensão existencial da prece, bem mais importante do que a prece como expressão da fé doutrinal.

E, nesta perspectiva, sem esperar um futuro ato terrorista, mas antes contribuindo para preveni-lo, seria belíssimo que pelo menos uma vez ao ano os fiéis das diversas religiões se encontrassem realmente com finalidade espiritual, meditando humildemente, no mais perfeito silêncio, diante da imensidade da vida e do seu mistério. Experimentariam assim a inadequação de todas as suas doutrinas e preceitos, e esta experiência de verdadeira transcendência é a via privilegiada para a paz e o suave sorriso que mora no coração de cada pessoa autenticamente espiritual.